Gullit, Rijkaard, Seedorf, Davids, Hasselbaink, Menzo, Blinker, Roy, Winter, Castelen e Kluivert, entre dezenas de outros menos conhecidos. A lista de jogadores holandeses que nasceram em Suriname ou têm ascendência surinamesa é enorme e muitos pensam como seria a seleção da antiga Guiana Holandesa se todos eles defendessem o país sul-americano. Bem, uma reunião dessa já foi feita e resultou em uma das maiores tragédias da história do futebol holandês e surinamês.

Na década de 1980, o assistente social surinamês Sonny Hasnoe teve a idéia de promover um amistoso de um combinado de jogadores holandeses de raízes no Suriname com o Robinhood, campeão local. O dinheiro arrecadado seria levado para obras sociais em Bijlmer, bairro na periferia de Amsterdã onde vive boa parte da comunidade surinamesa na Holanda. Além disso, ele pretendia motivar os jovens de Bijmer a se manterem afastados da criminalidade ao se espelhar em surinameses bem sucedidos no esporte.

O time se chamou Kleurrijk Elftal (“Onze Colorido” em holandês). Foi um grande sucesso. Tanto que, três anos depois, Hasnoe resolveu repetir a dose, mas em algo maior que um amistoso. O Kleurrijk Elftal disputaria um torneio amistoso – chamado Boxel Kleurrijk Tournooi – com Boxel, Robinhood e Transvaal, três grandes times do Suriname. Para atrair ainda mais a atenção para o projeto, foram convidados jogadores importantes como Gullit, Menzo, Rijkaard, Winter, Roy e Blinker. Todos com passagem pela seleção holandesa em algum momento.

Os jogos estavam marcados para o início de junho e os grandes clubes holandeses não liberaram os atletas. Com isso, o Kleurrijk Elftal teve de ser formado por nomes secundários, vindos de clubes como De Graafschap, NAC Breda, Volendam e Willem II. Das estrelas, apenas Menzo foi a Paramaribo. Mas teve de fazê-lo de modo furtivo, em um vôo separado do resto do time.

Foi sua sorte. Em 7 de junho de 1989, o piloto do vôo PY764 da Surinam Airways errou o cálculo na aproximação ao aeroporto internacional de Zanderij (região metropolitana de Paramaribo). A 25 m sobre o solo, um dos motores da aeronave bateu em uma árvore. Em seguida, a asa direita se chocou em outra árvore e causou a queda do DC-8 de cabeça para baixo. Todos os nove tripulantes e 167 dos 178 passageiros morreram. Até hoje, é o pior acidente aéreo da história do Suriname.

Sobrou pouco do Kleurrijk Elftal. Dos 19 membros da delegação – 18 jogadores e o técnico – apenas três sobreviveram. Faleceram Ruud Degenaar (defensor do Heracles, 25 anos), Florian Vijent (goleiro do Telstar, 27), Elfried Veldman (atacante do De Graafschap, 23), Lloyd Doesburg (goleiro do Ajax, 29), Steven van Dorpel (atacante do Volendam, 23), Andy Scharmin (defensor do Twente, 21), Fred Patrick (meia-atacante do Zwolle, 23), Wendel Fräser (atacante do SVV, 22), Frits Goodings (Wageningen, 25), Ortwin Linger (defensor do Haarlem, 21), Ruben Kogeldans (defensor do Willem II, 22), Jerry Haatrecht (Neerlandia’31, 25), Virgall Joemankhan (meia do Cercle Brugge, 20), Andro Knel (meia-atacante do NAC Breda, 21) e Nick Stienstra (técnico, 33).

Os jogadores sobreviventes também viram suas carreiras se interromperem por causa daquele acidente. Sigi Lens (atacante do Fortuna Sittard, 25 anos) e Edu Nandlal (Volendam, 25 anos) encerraram a carreira devido às seqüelas. O primeiro teve uma complicada fratura na pélvis e o segundo ficou tetraplégico. Radijn de Haan (Telstar, 20 anos) sofreu fratura em uma vértebra e foi o único a voltar aos gramados. No entanto, nunca se recuperou completamente da lesão e abandonou a carreira.

Ainda que as grandes estrelas batavo-surinamesas tenham escapado, o trauma foi tão grande que nunca se tentou organizar uma nova versão do Kleurrijk Elftal. No estádio Andre Kamperveen, o principal de Paramaribo, há um monumento em memória ao 11 Colorido de 1989. Um time que morreu ao tentar ajudar a integração de surinameses na Holanda.

Até hoje, o futebol holandês tem personagens ligadas ao acidente. Winnie Haatrecht havia sido convocado para o Kleurrijk Elftal, mas desistiu. Seu irmão Jerry foi em seu lugar e esteve entre as vítimas fatais. O choque foi tão grande que Winnie preferiu a solidão. Deixou o Heerenveen para se esconder no La-Chaux-de-Fonds, da segunda divisão suíça. Encerrou a carreira no obscuro TOP Oss, da Holanda. Depois de pendurar as chuteiras, virou empresário de jogadores. Entre seus clientes estão Afonso Alves e Ryan Babel.

Outro que virou empresário foi Sigi Lens. Ele já trabalhou com nomes como Landzaat, Ooijer, Reiziger, Bogarde, Boateng, Van Bronckhorst e Melchiot.

O meia Romeo Castelen, do Hamburg, tinha apenas seis anos na época do acidente, mas também está ligado à tragédia. Sua irmã e sua mãe estavam no vôo e também morreram.

Talvez a história mais bonita ligada ao acidente seja a que envolve Andro Knel. O meia-atacante era ídolo do Sparta Roterdã, clube em que começou, e no NAC Breda, que defendia desde 1988. Os torcedores dos dois clubes decidiram criar, juntos, um monumento em sua memória. Durante esse tempo, as duas torcidas começaram a nutrir grande amizade e, no décimo aniversário da morte do jogador, editaram em conjunto uma revista sobre a vida do jogador. Desde então, antes de cada confronto entre Sparta e NAC pelo Campeonato Holandês, os torcedores se encontram para disputar uma partida informal. O vencedor fica com o Troféu Andro Knel até o jogo seguinte.

Esta matéria foi originalmente publicada no site
Balípodo


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