Muitos argentinos lamentam a perda da Copa do Mundo de 1946, o torneio que nunca existiu por causa da Segunda Guerra Mundial, encerrada um ano antes. E que, se acontecesse, teria a Albiceleste como franca favorita. Afinal, aqueles eram anos de ouro para o futebol local, naquela que é considerada por muitos a melhor seleção da história do país. A Máquina do River Plate era o time mais célebre, com uma linha de ataque irresistível. Mas, em uma era de grandes craques, o talento também se espalhava pelos outros gigantes portenhos. Afinal, ao longo de toda a década de 1940, todos os cinco grandes argentinos levantaram ao menos uma vez a taça do campeonato, em tempos nos quais apenas um campeão se consagrava por ano.

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Quando as cores dos clubes ficavam de lado, o difícil para o técnico Guillermo Stábile era escolher, entre tantos talentos, aqueles que vestiriam a camisa da seleção argentina – Labruna, Pedernera, Moreno, Di Stéfano, Loustau, Méndez, De la Mata, Boyé. E, dentro de campo, a Albiceleste correspondia às expectativas atropelando quem aparecesse pela frente. Mesmo enfrentando os protótipos de Uruguai e Brasil que se eternizariam na Copa de 1950, a Argentina faturou três títulos consecutivos da Copa América entre 1945 e 1947, na maior hegemonia da história do torneio. E com placares impressionantes sempre. Ou melhor, quase sempre.

Ao longo daquelas três campanhas, a Argentina venceu 16 dos 18 jogos que fez. Anotou impressionantes 67 gols, média de 3,7 por partida, e sofreu apenas 12. Chegou a enfiar 9 a 1 na Colômbia, 7 a 0 sobre a Bolívia, 6 a 0 no Paraguai. E também sempre venceu brasileiros e uruguaios, ainda que tivesse pela frente craques do nível de Domingos da Guia, Leônidas, Ademir, Heleno,  Zizinho, Obdulio Varela, Schiaffino, Gambetta e Zapiraín. Só em duas oportunidades o esquadrão argentino não saiu de campo com a vitória. E, embora também não tenham sido derrotados, os empates valiam bem mais do que só um empate. S façanha de um Chile que nunca venceu a Copa América, mas que merece respeito por aqueles anos.

Os chilenos até viveram melhores campanhas no torneio continental do que na década de 1940, quando não passaram do terceiro lugar. Mesmo assim, a forma como aquele time encarava os gigantes era motivo de orgulho, mesmo que não vencesse sempre. Especialmente pelo paredão que tinha sob as traves: Sergio Livingstone, até hoje apontado como o melhor goleiro da história do país, e um dos melhores da América do Sul. Tão importante que é o recordista de jogos na Copa América ao lado de Zizinho, com 34 participações entre 1941 e 1953. Além disso, também possui a honra de ter recebido o prêmio de melhor do torneio em 1942. Já no banco de reservas, o técnico era Ferenc Platko, ex-técnico do Barcelona, que levou para o Chile inovações da então melhor escola de treinadores do mundo, a húngara.

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A primeira vez que o Chile segurou o timaço da Argentina veio em 1945, quando a Copa América foi disputada nos próprios estádios chilenos. O craque Desiderio Medina abriu o placar para os anfitriões logo aos três minutos, enquanto o artilheiro Norberto Méndez buscou a igualdade para a Albiceleste apenas no segundo tempo, após várias defesas de Livingstone. Em tempos nos quais a competição sul-americana era disputada em pontos corridos, o sucesso de La Roja poderia levar a um empate triplo na ponta ao final da campanha, entre Argentina, Brasil e Chile. Mas o tropeço deixou os chilenos com um ponto a menos, já orgulhosos pelo terceiro lugar e pela vitória por 1 a 0 sobre o então campeão Uruguai, também com tento de Medina.

No reencontro em 1946, a Argentina finalmente superou o Chile. A defesa vermelha não resistiu ao ataque mágico, com dois gols de Labruna e outro de Pedernera na vitória por 3 a 1. Já em 1947, outra surpresa dos chilenos. Ninguém menos do que Di Stéfano deixou a Argentina em vantagem no início do jogo, mas Riera conseguiu o empate. O resultado, porém, não ajudou tanto a campanha da Roja, que terminou na quarta colocação geral.

Em 105 anos de confronto, Argentina e Chile disputaram 85 partidas. São 57 vitórias da Albiceleste e apenas seis da Roja, a primeira apenas em 1959 (no 37º duelo) e só uma em jogos oficiais. Pela Copa América, então, são 18 triunfos argentinos e seis empates, sem nenhum sucesso dos chilenos. A chance de quebrar o tabu acontece neste sábado, no sonho do título inédito. E, se quiser inspiração no passado, o Chile pode muito bem olhar para aqueles dois empates da década de 1940. Tempos nos quais o ataque argentino era ainda mais temível que o atual, e não conseguiu assustar o suficiente para vencê-los.