Cascão é um personagem da Turma da Mônica que não gosta de tomar banho. Coincidentemente, também é o garoto fictício que melhor joga futebol no universo criado por Mauricio de Sousa. Corintiano fanático, adora uma pelada. Seu cabelo característico, apenas um tufo na cabeça, apareceu na semifinal da Copa do Mundo de 2002 e, com o biquinho da chuteira, seu portador colocou o Brasil na final do torneio, há exatos 15 anos.

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Ronaldo apareceu para treinar na véspera do segundo encontro com os turcos naquele Mundial com um corte de cabelo que viraria febre no Brasil, depois da conquista do pentacampeonato. Seu cabelo havia crescido bastante no decorrer do mês da Copa: estava completamente raspado, máquina zero mesmo, na estreia, contra a mesma Turquia, e já apareceu grande demais nas quartas de final contra a Inglaterra.

O cabelo de Ronaldo cresceu rapidinho naquele Mundial (Foto: Getty Images)
O cabelo de Ronaldo cresceu rapidinho naquele Mundial (Foto: Getty Images)

Em seu quarto de hotel, Ronaldo pegou a máquina de mandou ver antes de descer para o treinamento. Mas, em vez de simplesmente rapar a peruca, o artilheiro do Brasil decidiu aproveitar a ocasião para desviar a atenção da lesão que sentia no adutor da coxa, que o colocava como dúvida para a semifinal. Problemas físicos haviam colocado a própria presença do Fenômeno no elenco convocado por Luiz Felipe Scolari mergulhada em incertezas, nos meses anteriores à Copa do Mundo.

“Sabe que o cabelo me ajudou muito na semifinal. Uma estratégia de marketing”, afirmou, à TV Globo, anos depois. “Eu estava cortando o cabelo e tinha uma dor muito grande no adutor da coxa. Todo mundo só falava da contusão, que eu não ia jogar. Virei dúvida. Na véspera, antes de ir para o treino, o último treino, eu fiz o cabelo e fiz alguma coisa para desviar a atenção. E o noticiário só falava do cabelo”. Em entrevista ao The Sun, este ano, Ronaldo confirmou a versão: “Minha virilha estava doendo. Eu estava apenas 60%. Então, raspei a cabeça. Todo mundo falava apenas do meu problema físico. Quando eu cheguei para treinar com aquele corte de cabelo, todos pararam de falar da lesão”.

Os repórteres que acompanhavam a seleção brasileira ficaram apropriadamente curiosos. À ESPN Brasil, Ronaldo falou que ainda estava testando o novo corte de cabelo. “Não sei se vai ficar ainda”, disse. Falando com a Folha de S. Paulo de 25 de junho de 2002, recusou-se a dar detalhes sobre o novo visual. “É um corte normal. Não tem promessa, não tem homenagem, não tem nada”, afirmou. O jornal especulou que poderia ser uma tentativa de lançar moda naquele mundial, como haviam feito David Beckham, “com um penteado estilizado”, e o volante Davala, da Turquia, com um moicano característico.

O que ninguém sabia mesmo era que Ronaldo pretendia entrar em campo daquele jeito. “No dia do jogo, ele desceu com aquele corte, a gente brincou, tirou sarro, mas até ali a gente achava que ele estava de brincadeira”, afirmou o ex-zagueiro Lúcio à Fox Sports. “Ele vai subir, vai ter tempo até o jogo, e vai tirar aquilo ali. Não vai jogar daquele jeito. Na hora da preleção, chegou o Ronaldo com aquele cabelo”.

Ronaldo jogou, daquele jeito mesmo, e jogou muito bem. Deu passe suculento para Cafu quase abrir o placar. Ficou próximo de fazer 1 a 0 no rebote de um chute de Rivaldo. Arriscou de fora da área, sem problemas para o goleiro Rustu. E, aos 4 minutos do segundo tempo, recebeu pela esquerda, arrumou o corpo e avançou para dentro da área, entre três turcos. Em diagonal com a meta adversária, deu um inesperado biquinho na bola. Rustu foi pego desprevenido e chegou a tocá-la antes de assistir ao Brasil marcar o gol que o colocaria na final da Copa do Mundo.

Ronaldo manteve o cabelo para a decisão contra a Alemanha, afinal, por que não? Não se brinca com a sorte em Copa do Mundo. Mas, pelo visto, brincar com o penteado pode trazer bons resultados.