A história do confronto entre Barcelona e Manchester United é bastante lembrada por aquilo que aconteceu na virada da última década. E não tem como ser diferente, considerando que os dois gigantes disputaram duas finais de Champions League em apenas três anos. Partidas que penderam ao lado blaugrana, mas que não limitam o rico passado do duelo. Vale ressaltar, afinal, que os clubes já haviam se engalfinhado até mesmo em outra decisão de competição continental. Em 1991, ambos começavam a construir verdadeiras eras com seus treinadores mais célebres, Johan Cruyff e Sir Alex Ferguson. Acabaram se encarando pelo título da Recopa Europeia, torneio de grande importância na época, até mesmo para referendar os trabalhos que se afirmavam.

Inclusive pela longa ausência dos ingleses nas competições da Uefa, punidos por causa da tragédia de Heysel, o Manchester United atravessou um longo inverno distante dos palcos continentais. E não que fizesse muito antes disso. Após o fim da década de 1960, os Red Devils passaram por um longo período de vacas magras, sem grandes campanhas para manter sua reputação além das fronteiras. O feito mais lembrado aconteceu na Recopa 1983/84, justo contra o Barcelona. Os ingleses perderam a ida por 2 a 0 e conseguiram eliminar a equipe de Diego Maradona por 3 a 0 em Old Trafford, com uma atuação fantástica de Bryan Robson. A classificação épica às semifinais foi comemorada até mesmo com uma invasão de campo, mas o United não resistiria ao esquadrão da Juventus na fase seguinte, ficando a um passo da decisão. Em um novo contexto, a Recopa de 1990/91 marcava o retorno da Inglaterra aos torneios europeus e impunha grandes expectativas sobre o time de Sir Alex Ferguson, após conquistar seu primeiro título à frente do clube na famosa Copa da Inglaterra de 1989/90.

Por outro lado, o Barcelona tentava mostrar que estava pronto a passos maiores. Naquele momento, a Copa dos Campeões ainda era uma obsessão dos blaugranas, algo que havia se ampliado depois de 1985/86, quando os catalães perderam a final em Sevilha para o Steaua Bucareste. A Recopa, ao menos, era um terreno onde o Barça se garantia. O clube tinha erguido a taça três vezes desde 1979, a mais recente em 1989, já sob as ordens de Cruyff. E enquanto a torcida aguardava o fim da hegemonia do Real Madrid em La Liga, o que aconteceria naquela temporada de 1990/91, a taça continental era outro caminho para sanar as ansiedades diante das bases que o treinador estabelecia no Camp Nou.

O Barcelona começou sua campanha de maneira firme, atropelando Trabzonspor e Fram Reykjavík, antes de encarar pedreiras a partir das quartas de final. Diante de quase 100 mil no Estádio Olímpico de Kiev, conseguiu despachar o Dynamo com uma vitória fora de casa, antes de arrancar o empate no Camp Nou. Já nas semifinais, ante a Juventus, abrir vantagem na Catalunha se tornou fundamental. O triunfo por 3 a 1, com dois gols de Hristo Stoichkov, foi o que permitiu a derrota por 1 a 0 na visita a Turim, quando Roberto Baggio balançou as redes. Já o Manchester United pegou um caminho menos duro. Eliminou Pécsi Mecsek e Wrexham, antes de ter certo trabalho contra o Montpellier de Laurent Blanc e Carlos Valderrama. Por fim, nas semifinais, a vitória fora de casa contra o Legia Varsóvia se tornou o grande passo rumo à decisão.

O Estádio De Kuip lotou para a final entre United e Barcelona. Cerca de 45 mil pessoas estiveram nas arquibancadas para acompanhar o duelo, a maioria ingleses, sedentos por ver a retomada do país aos sucessos continentais. Sir Alex Ferguson ainda contava com a velha guarda que abriria o caminho ao domínio da Premier League. Steve Bruce e Gary Pallister eram os esteios na zaga, com Denis Irwin e Clayton Blackmore nas laterais. Bryan Robson e Paul Ince formavam a espinha dorsal no meio, enquanto Mike Phelan e Lee Sharpe faziam o trabalho pelas pontas. Já na frente, Brian McClair municiava Mark Hughes, jogador mais tarimbado do elenco e justamente ex-jogador do Barcelona. Pelo lado do Barcelona, as marcas do futuro Dream Team eram claras. A legião espanhola possuía nomes como José Ramón Alexanko, José Mari Bakero, Andoni Goikoetxea, Julio Salinas e Txiki Begiristain. Entre os forasteiros, Ronald Koeman e Michael Laudrup. O porém os desfalques preocupavam bastante. Enquanto o suspenso Andoni Zubizarreta dava lugar ao estreante Carles Busquets no gol, não havia quem substituísse a altura o lesionado Stoichkov, artilheiro da competição com seis gols. De qualquer maneira, a motivação estava alta após a conquista de La Liga dias antes, botando fim ao pentacampeonato anterior do Real Madrid.

A “lei do ex” se tornou implacável na final daquela Recopa. Mark Hughes garantiu o sucesso do Manchester United contra o antigo clube – uma espécie de vingança pessoal, após a sua frustrada passagem pelo Camp Nou durante a década de 1980. Depois de um primeiro tempo sem gols, marcado pela chuva que fazia os mancunianos se sentirem em casa e atrapalhava o jogo de passes dos barcelonistas, o artilheiro abriu o placar aos 22 minutos. Bryan Robson cobrou falta, Steve Bruce desviou de cabeça e o matador completou quase em cima da linha. Sete minutos depois, o galês ampliou a vantagem. Recebeu um lançamento de Robson em profundidade e driblou o desastrado Busquets, antes de mandar para dentro da meta quase sem ângulo. Ao Barça, restaria a reação final. Koeman descontou aos 34, em uma cobrança de falta que bateu na trave e nas pernas do goleiro Les Sealey antes de entrar. Já nos instantes finais, pressão dos blaugranas, mesmo depois da expulsão de Nando. Os catalães tiveram um gol anulado e uma bola salva em cima da linha por Clayton Blackmore, enquanto Sealey sentia uma lesão que sofrera semanas antes. Pois os ingleses resistiram, promovendo uma ensandecida comemoração após o apito final.

Segundo Sir Alex Ferguson, aqueles minutos finais em Roterdã foram os “mais difíceis de sua carreira”. O escocês venceu a batalha tática contra Cruyff, especialmente pela maneira como fez seu time, tecnicamente inferior, anular o jogo vistoso dos oponentes. A sacada de mestre foi rechear o meio-campo e botar Brian McClair no encalço de Ronald Koeman, dificultando bastante a saída de bola do carrossel catalão. Além disso, outro nome que merece ser citado é o de Bryan Robson. Dominando a meia-cancha, o capitão considera sua atuação na final da Recopa ainda melhor do que a vivida na virada de 1984 contra os blaugranas. Aos 34 anos, o ídolo conseguiu neutralizar o jogo do Dream Team fazendo de tudo na faixa central, bem como criou as jogadas para ambos os tentos de sua equipe. Ao final, pôde erguer a primeira taça continental do Manchester United desde a Champions de 1968, em sucesso que se ampliaria também na Supercopa – quando os Red Devils derrotaram o Estrela Vermelha, em evento já tumultuado pela Guerra da Iugoslávia.

Os rumos dos clubes mudariam bastante ao longo da década de 1990. O Barcelona emendou o tetracampeonato espanhol e encerrou sua espera na Champions em 1992. Já o United estabeleceu sua dinastia na Premier League, enquanto triunfou na principal competição continental em 1999. O gigantismo de ambos aumentou significativamente, assim como os embates se tornaram mais costumeiros. De qualquer maneira, aquela final ainda marca uma recordação especial de quando as eras apenas começavam.