Uma das inúmeras ligas instituídas na tentativa de popularizar o futebol nos Estados Unidos, a United Soccer Association teve vida curta e realizou apenas uma edição de seu campeonato, em 1967. O torneio, porém, ficou marcado por uma medida inusitada: a importação de equipes inteiras – entre elas o Bangu, o Cagliari e o Wolverhampton – para disputarem a competição sob os nomes, escudos e uniformes das 12 franquias criadas para a ocasião.

As origens

No início dos anos 60, o futebol havia atraído certa atenção do público norte-americano com a organização da International Soccer League, competição criada pelo empresário esportivo Bill Cox e que, entre 1960 e 1965, reuniu clubes europeus e latino-americanos se enfrentando em jogos realizados em sua maioria em Nova York, mas também em outras cidades do país (daí ter ficado conhecida no Brasil como “Torneio de Nova York”).

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A competição, que chegou a ser conquistada pelos brasileiros Bangu e America em 1960 e 1962, respectivamente, contou com a participação de dezenas de clubes europeus de certo porte, como Dukla Praga, Bayern de Munique, Everton, Ferencvaros, Estrela Vermelha, Sporting, Monaco e Sampdoria, entre outros. E seu formato acabou servindo de base para um outro torneio que buscava, nessa esteira, alavancar a popularidade do esporte no país.

Um ano após a derradeira edição da ISL, a Copa do Mundo da Inglaterra foi transmitida para a América do Norte via satélite pelo canal NBC com razoáveis números de audiência, o que chamou a atenção dos investidores locais. O próprio Bill Cox concebeu uma nova liga, agora formada por equipes norte-americanas distribuídas por algumas das principais cidades dos Estados Unidos e Canadá, embora reforçadas por jogadores estrangeiros veteranos.

A National Professional Soccer League, como foi batizada, logo viu ser criada uma concorrente, com outro formato. Um consórcio liderado pelos empresários Jack Kent Cooke, Steve Stavro e Lamar Hunt (este, décadas depois, seria um dos pais da MLS) criou a North American Soccer League, logo renomeada United Soccer Association (USA). E rapidamente se movimentou para obter a chancela oficial da federação dos Estados Unidos e da Fifa.

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Paralelamente, a NPSL tratou de garantir sua exposição na televisão, assinando contrato com a rede CBS, permitindo que a competição iniciasse já em 1967. Preocupada em não ficar para trás na disputa pelo público, a United Soccer Association recorreu a um gesto um tanto drástico e sem dúvida inusitado: importou equipes estrangeiras inteiras, oferecendo cerca de US$ 200 mil a cada uma para se instalar em cidades-sede pré-determinadas.

A ideia era que estes clubes de vários países representassem as equipes criadas para a disputa do campeonato, jogando sob o nome e o uniforme destas, em geral controladas por empresários e magnatas de diversos ramos. Tratava-se uma prática que burlava a regra de transferências da Fifa – o que tornava tudo mais insólito, uma vez que a USA era a liga tida como “oficial” pela entidade internacional, enquanto a NPSL era tratada como “pirata”.

Os preparativos

Os convites começaram a ser enviados em janeiro de 1967. Alguns clubes, como o Dunfermline, o América do México e o Club Brugge, acabaram não acertando a participação. A Football League inglesa vetou a ida de Leeds e Liverpool para amistosos de exibição antecedendo a competição. Mas outros 12 times de oito países diferentes assinaram contratos e confirmaram presença no torneio, marcado para ser disputado entre maio e julho daquele ano.

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Nos amistosos de exibição, o Athletic Bilbao venceu o Estrela Vermelha em Chicago por 3 a 1 e o Valencia bateu o Rangers em Toronto por 1 a 0. Mas o que criou mais expectativas foi o confronto entre o Real Madrid de Francisco Gento, então detentor do título europeu, e o West Ham de Bobby Moore, Geoff Hurst e Martin Peters, campeões mundiais com a Inglaterra. Disputada em Houston, a partida terminou com vitória merengue por 3 a 2.

Tendo o moderno estádio Astrodome – coberto e refrigerado – como trunfo, a cidade texana foi uma das escolhidas para receber um clube na liga. E este seria o Bangu, que no fim do ano anterior havia conquistado o título carioca. Apesar da troca no comando (o veterano Martim Francisco substituiu o argentino Alfredo González), o elenco era praticamente o mesmo, recebendo ainda alguns reforços, com o ponteiro direito Peixinho, ex-Santos e São Paulo.

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O alvirrubro do subúrbio carioca jogaria sob o nome de Houston Stars e foi uma das seis equipes incluídas na divisão Oeste, com outra meia dúzia alocada na divisão Leste. O regulamento, porém, previa que todos os times se enfrentassem em turno único, sendo que haveria ainda uma rodada extra de volta para os “clássicos” entre equipes geograficamente mais próximas. No caso do Bangu, seu “rival” seria o Dallas Tornado – nome do Dundee United.

A divisão Oeste abrigava uma disputa bastante cosmopolita em termos de clubes convidados, contando ainda com o Los Angeles Wolves (ou o Wolverhampton) – que jogaria no portentoso Coliseum –, o Vancouver Royal Canadians (ou o Sunderland), o Chicago Mustangs (ou o Cagliari) e o San Francisco Golden Gate Gales (ou o ADO Den Haag). Eram dois ingleses, um escocês, um italiano, um holandês e um brasileiro.

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Do outro lado do mapa, a disputa era basicamente entre equipes das ilhas britânicas, tendo o Boston Rovers (Shamrock Rovers), o Cleveland Stokers (Stoke City), o Detroit Cougars (Glentoran), o Toronto City (Hibernian) e o Washington Whips (Aberdeen). A exceção era o New York Skyliners, nada menos que o Cerro uruguaio. Este último era administrado pela Madison Square Garden Corporation e mandaria seus jogos no tradicional Yankee Stadium.

As caras conhecidas

Entre as quase duas centenas de jogadores que desembarcaram no país, alguns nomes eram dignos de nota: o Cagliari, por exemplo, tinha o armador Francesco Rizzo e os atacantes Roberto Boninsegna e Luigi “Gigi” Riva – todos da seleção – mais outros nomes do time que seria campeão italiano dali a três anos, como o brasileiro Nenê. O Cerro, por sua vez, tinha o zagueiro Juan Masnik e o atacante Ruben Bareño, futuros atletas do Nacional e da Celeste.

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O ADO Den Haag tinha um futuro técnico renomado em campo, Dick Advocaat, e um treinador lendário no banco, o austríaco Ernst Happel. O clube vivia momento especial de sua história, com boas campanhas na liga local e uma sequência de finais da copa nacional. O Bangu teria por alguns jogos o desfalque do ponta Paulo Borges, convocado para a Seleção. Mas nomes como o goleiro Ubirajara, o lateral Fidélis e o ponteiro Aladim eram presença certa.

Entre os clubes britânicos, alguns nomes que marcariam época no futebol da ilha. Mas um deles transcendia: era o goleiro inglês Gordon Banks, maior do mundo na posição na época e recém-contratado pelo Stoke. Liderava um grupo de jogadores experientes que vestiriam a camisa do Cleveland Stokers, entre eles os meias Maurice Setters (ex-Manchester United) e George Eastham (ex-Arsenal) e o atacante Roy Vernon (ex-Everton).

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O Sunderland também tinha um punhado de nomes interessantes: o goleiro Jim Montgomery seria destaque no time dos Black Cats que conquistaria a FA Cup em 1973. O zagueiro Colin Todd seria titular nos dois títulos ingleses do Derby County em 1972 e 1975. O atacante John O’Hare também faria parceria vitoriosa com o técnico Brian Clough no Derby e no Nottingham Forest. E o talentoso meia escocês Jim Baxter fizera história no Rangers.

Entre os clubes escoceses, o Hibernian trazia o atacante Colin Stein, da seleção, e o ponta Peter Cormack, que em breve partiria para defender o Liverpool. Outro vínculo com os Reds estava no treinador: Bob Shankly, irmão mais velho de Bill Shankly. Já o Dundee United vinha respaldado por ter sido o único clube do país a derrotar (duas vezes) o Celtic na histórica temporada 1966/67 dos Bhoys, além de eliminar o Barcelona na Copa das Feiras.

O torneio teve seu início no fim de semana de 27 e 28 de maio e registrou públicos expressivos na maioria dos jogos. O maior deles, e que viria a ser o recorde da competição, seria registrado no sábado, no Astrodome, quando o Houston Stars empatou em 1 a 1 com o Los Angeles Wolves – gols de Paulo Borges e Dave Woodfield – diante de 34.965 torcedores (o estádio tinha capacidade máxima oficial de 44.500 espectadores).

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No dia seguinte, o New York Skyliners levou pouco mais de 21 mil pessoas ao Yankee Stadium para a partida contra o Toronto City, que também terminou com placar de 1 a 1. A vitória mais expressiva da rodada inaugural veio em San Francisco, onde o Golden Gate Gales aplicou uma goleada de 6 a 1 sobre o Vancouver Royal Canadians. E houve ainda o primeiro “clássico” entre Boston Rovers e o Detroit Cougars, mas uma partida que terminou 1 a 1.

A presença brasileira

Além de ter registrado o maior público do torneio, o Houston Stars também teria, disparado, a melhor média de espectadores como mandante. Nas seis partidas que realizou no Astrodome, o “Bangu texano” obteve média de quase 20 mil torcedores. Bem superior aos 8.766 levados em média pelo New York Skyliners, segundo colocado neste ranking. A campanha dos alvirrubros da Zona Oeste carioca na competição, porém, mostrou-se um tanto irregular.

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O time somou quatro vitórias, quatro empates e quatro derrotas, marcando 19 gols e sofrendo 18. Levou a melhor no “clássico texano” diante do Dallas Tornado, empatando sem gols na casa do adversário e vencendo por 2 a 0, gols de Paulo Borges, no Astrodome. E chegou a aplicar uma goleada de 4 a 1 fora de casa sobre o Vancouver Royal Canadians. Por outro lado, perderia duas vezes em casa por 4 a 2 para o Chicago Mustangs e o San Francisco Gales.

No meio da campanha, os banguenses também se envolveriam numa batalha campal na vitória por 2 a 0 sobre o Detroit Cougars em Michigan. O zagueiro Luís Alberto fez falta dura no atacante Danny Trainor e levou como revide uma cabeçada. O caldo entornou de vez quando o meia Jaime tomou as dores do companheiro e acertou uma voadora em um adversário. Todos os jogadores brigaram – e os brasileiros usaram os mastros das bandeirinhas para se defenderem.

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A partida foi encerrada ali mesmo, aos 28 minutos do segundo tempo, e a briga mereceu uma dura reprimenda de Dick Walsh, chefe do comitê organizador do torneio: “Estamos tentando promover o futebol por aqui e incidentes assim não ajudam em nada”, declarou. Ironicamente, a confusão acabou rendendo à liga uma rara exposição na TV norte-americana, ao ser exibida em cadeia nacional num noticiário esportivo da rede NBC.

A violência dentro e fora das quatro linhas também marcou a partida entre Toronto City e Chicago Mustangs. Além disso, o jogo muito físico e brusco dos holandeses do San Francisco Golden Gate Gales também andou desfalcando alguns adversários. E no duelo entre New York Skyliners e Chicago Mustangs no Yankee Stadium, a polícia nova-iorquina teve trabalho para lidar com cerca de 200 torcedores que invadiram o campo.

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O Houston Stars se despediu da competição no dia 8 de julho, enfrentando o New York Skyliners – dirigido por Ondino Viera, velho conhecido do futebol carioca e ex-treinador do próprio Bangu – no Yankee Stadium. E cedeu o empate em 2 a 2, após ter saído com dois gols de vantagem, resultado que o colocou numa discreta quarta posição da divisão Oeste, com 12 pontos, à frente apenas do Vancouver Royal Canadians e do lanterna Dallas Tornado.

Dois dias depois, os jogadores banguenses desembarcavam no aeroporto do Galeão ostentando chapéus de cowboy e trazendo na bagagem aparelhos de televisão, brinquedos eletrônicos, gravadores e roupas. Sobre a experiência norte-americana, elogiavam a acolhida e o tratamento dispensado a eles, mas afirmavam não ter se adaptado à alimentação local e à novidade do gramado sintético – chamado de “grama de nylon” pela imprensa brasileira.

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Outra crítica – endossada por jogadores de alguns outros clubes, como o Sunderland – dizia respeito ao calendário, que condensou as 12 partidas para cada equipe em cerca de um mês e meio. Com isso, em certa altura, já na reta final, o Bangu/Houston Stars chegou a ter de fazer cinco jogos num intervalo de apenas dez dias – desgaste agravado pelas longas distâncias entre as cidades-sede norte-americanas e o ritmo intenso de viagens.

Os finalistas

A divisão Oeste, onde estava o Houston Stars, foi vencida pelo Los Angeles Wolves com certa folga: mesmo perdendo o último jogo, a equipe terminou com 15 pontos, dois à frente do San Francisco Golden Gate Gales e do Chicago Mustangs.  Já a Leste assistiu a uma intensa disputa entre o Cleveland Stokers e o Washington Whips (com o Toronto City correndo por fora), que só foi decidida graças a um jogo remarcado, após a última rodada.

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No dia 20 de junho, os Whips haviam recebido o Los Angeles Wolves e empatado em 1 a 1, num jogo em que os adversários realizaram uma terceira substituição de jogador de linha – algo só permitido pelo regulamento no caso do goleiro. A equipe de Washington protestou junto à liga, que, em 6 de julho, aceitou a reclamação e anulou a partida original, remarcando o confronto para o dia 10, cerca de 24 horas após o desfecho da primeira fase.

Na última rodada, tanto os Whips quanto os Stokers haviam perdido, resultado que, a princípio, deixava a equipe de Cleveland na liderança da divisão Leste, embora aguardando o resultado do jogo remarcado. No dia 10, os Wolves – cansados por terem jogado no dia anterior em Dallas e já garantidos na decisão – foram presa fácil para os Whips em Washington e perderam por 3 a 0, confirmando a passagem da equipe representada pelo Aberdeen para a final.

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Wolves e Whips voltariam, portanto, a se enfrentar quatro dias depois, agora valendo o caneco em partida única – a qual um cara-e-coroa definiu que seria jogada no Coliseum de Los Angeles. No time dos Wolves, o destaque era o atacante norte-irlandês Derek Dougan, figura de grande presença na mídia britânica e que mais tarde presidiria a Associação de Jogadores Profissionais, além de comentar as Copas do Mundo de 1970 pela BBC e de 1974 pela ITV.

Já no elenco dos Whips havia o jovem zagueiro Martin Buchan, que na década seguinte faria seu nome no futebol inglês defendendo o Manchester United, disputando ainda as Copas de 1974 e 1978 pela Escócia. E, embora ambas as equipes apresentassem bons números defensivos na fase inicial e contassem com goleiros de prestígio no Reino Unido (Bobby Clark no Aberdeen e Phil Parkes no Wolverhampton), a partida final foi uma verdadeira chuva de gols.

O desfecho épico

Logo aos três minutos, Peter Knowles recebeu um passe de cabeça nas costas da defesa dos Whips e chutou da entrada da área, abrindo o placar para os Wolves. A equipe de Los Angeles ainda perdeu outras boas chances, numa partida bastante truncada desde o início. Mas aos 21, seria castigada ao rebater mal uma cobrança de escanteio. E a bola chegou até Jimmy Smith, livre na pequena área, para marcar o gol de empate.

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Na volta de um intervalo animado por um show de cheerleaders, bem ao estilo norte-americano, o jogo pegou fogo com uma sequência insana de quatro gols em quatro minutos, entre os 19 e os 23. O primeiro veio num pênalti duvidoso de Gerry Taylor no ponteiro Pat Wilson. Frank Munro converteu, e os Whips – que haviam perdido Jimmy Smith expulso ainda no primeiro tempo – passavam à frente do marcador. Mas não por muito tempo.

Um minuto depois, David Burnside completou de carrinho a boa jogada de Derek Dougan e voltou a igualar o placar. Mas na saída de bola, James Storrie aproveitou rebote da defesa dos Wolves para fazer 3 a 2. A reação, porém, seria imediata e com um golaço: após cruzamento da esquerda, Bobby Clark saiu para socar, mas a bola veio na medida para Burnside cabecear de fora da área, encobrindo toda a defesa e tomando o rumo das redes como uma cesta de basquete.

O jogo seguiu num ritmo intenso, com chances de parte a parte e algumas jogadas mais duras. Mas as redes só voltariam a balançar nos minutos finais. Aos 37, Burnside completou mais uma ótima jogada de Dougan pela esquerda e colocou os Wolves na frente, parecendo ter selado a decisão. Mas no minuto final, uma cobrança de impedimento para os Whips virou lançamento longo, que encontrou Munro, sozinho, para cabecear e decretar o novo empate.

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A decisão seguiu para a prorrogação, nos tradicionais dois tempos de 15 minutos. E os Wolves voltaram a passar à frente no marcador na metade da segunda etapa, em mais uma jogada de talento de Dougan, que recebeu a bola da direita, dominou, livrou-se do marcador com um drible sutil e bateu para vencer Bobby Clark. E a equipe de Los Angeles ainda teve a chance de ampliar a vantagem quando um zagueiro dos Whips salvou um gol com a mão.

A cobrança do pênalti, no entanto, foi defendida por Clark. E a situação se inverteria de maneira incrível logo em seguida quando, no contra-ataque, um atacante dos Whips sofreu um calço na área adversária. Agora a penalidade era para a equipe de Washington, no último minuto do tempo extra. Frank Munro chutou rasteiro, no canto. Phil Parkes pulou, mas não conseguiu deter o chute – e o absurdo empate em 5 a 5 exigiria uma nova prorrogação.

Desta vez, porém, a regra era a de morte súbita. E o drama até que se encerraria rápido: aos seis minutos, o lateral Bobby Thomson, dos Wolves, foi à linha de fundo e cruzou à meia altura. A bola cruzou toda a boca do gol e bateu na perna do defensor Ally Shewan, que escorou sem querer contra as próprias redes. Os jogadores dos Whips não esboçaram qualquer reação, enquanto os adversários comemoravam correndo enlouquecidos pelo gramado.

Depois de 126 minutos de futebol, duas prorrogações, três pênaltis (um deles desperdiçado), dois hat-tricks (um para cara lado), uma expulsão, muitos entreveros, incontáveis chances perdidas e uma dezena de gols, um tento contra decidiria a única edição do campeonato profissional da United Soccer Association. “Nenhum roteirista de Hollywood poderia escrever uma história como a desse jogo”, comentaria o organizador Jack Kent Cooke no discurso de premiação.

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O capitão Derek Dougan recebeu a taça das mãos de Dick Walsh, enquanto os demais jogadores ganharam troféus individuais e US$ 3 mil como premiação. Curiosamente, ninguém da equipe campeã figurou sequer no segundo time da USA All-Stars, a seleção do torneio – que incluía quatro atletas do Bangu/Houston Stars (Fidélis, Mário Tito, Ari Clemente e Paulo Borges). O destaque solitário ficou para o técnico Ronnie Allen, eleito o melhor da competição.

No fim daquele ano de 1967, as duas ligas concorrentes decidiram que unidas poderiam trabalhar melhor para alavancar o “soccer” na América do Norte e se fundiram, recuperando o nome de North American Soccer League, que originalmente batizara a USA. A ideia de importar equipes foi resgatada para a temporada 1969, mas com menor quantidade e variedade de clubes. Com o formato alterado, o torneio atingiria seu auge em meados da década seguinte.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.