José Mourinho e Zlatan Ibrahimovic trabalharam juntos por pouco tempo. Foi um relacionamento curto, mas intenso. O sueco, longe de ser a pessoa mais fácil de agradar no mundo, reserva apenas palavras de respeito em relação ao português e se arrepende de terem ficado juntos durante apenas um ano. Erro que será corrigido a partir de agosto, quando ambos estarão à frente do Manchester United.

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Foi na temporada 2008/09, a primeira de Mourinho e a última de Ibrahimovic na Internazionale, antes de ele ser trocado com o Barcelona por Samuel Eto’o. Quando chegaram à rodada final, o Campeonato Italiano havia sido vencido há muito tempo, e a adversária era a Atalanta, despretensiosa e no meio da tabela, no San Siro. O cenário era perfeito para um grande amistosão, mas Ibrahimovic ainda não estava satisfeito. Queria a artilharia da liga.

O atacante sueco tinha 23 gols, mesma marca de Marco Di Vaio, do Bologna, que mediria forças, em casa, contra o Catania, 15º colocado daquela Serie A. Diego Milito, do Genoa, estava com 22, e enfrentaria o Lecce, também em seus domínios. Era provável que ambos fossem às redes mais de uma vez. Ibrahimovic tinha que fazer o mesmo.

A partida marcou a despedida de Luis Figo, que fez a jogada do primeiro gol, marcado por Muntari. A Atalanta empatou, mas, aos 12 minutos, Ibrahimovic abriu sua contagem, tocando na saída do goleiro. Ficou mais duas vezes cara a cara com Consigli e desperdiçou as oportunidades.

O relógio chegava ao fim, e a Atalanta havia virado para 3 a 2. Difícil saber o quanto Ibrahimovic estava ciente do que acontecia ao redor da Itália, mas Milito já havia marcado duas vezes, e Di Vaio, uma. Naquele momento, os três estavam empatados com 24 gols na tabela de artilharia. Ibrahimovic transformou a ansiedade em raiva.

“Nós éramos campeões, e se o seu time é campeão, e seu atacante está tentando ser artilheiro, você o ajuda, mas parecia que o time havia esquecido isso. Eles estavam se divertindo e ninguém estava jogando por ele”, conta Mourinho, segundo a ESPN inglesa. “Ele veio até mim, gritando. ‘Somos campeões. Eu ajudei a fazer vocês campeões, agora ninguém está me ajudando. Quero sair, agora, quero sair’. Mas eu fingi que não o entendia. Disse: ‘O quê? O quê? Você quer uma bebida? Quer uma água?’. E joguei uma garrafa de água para ele. Disse: ‘Aqui, pega uma bebida e volta para lá’”.

Aos 35 minutos do segundo tempo, Cambiasso empatou. Aos 36, Ibrahimovic fez 4 a 3. De calcanhar. Terminou a Serie A como artilheiro, com 25 gols, um a mais que os concorrentes, arrumou as malas e foi para o Barcelona.

“Mourinho é o disciplinador. Tudo com ele é um jogo mental. Ele gosta de manipular. Esses truques eram novos para mim. O tempo inteiro, ele fazia uma coisa para ganhar outra, o tempo inteiro me provocando. Eu gosto disso e funcionou para mim”, disse Ibrahimovic à autobiografia de Carlo Ancelotti, seu primeiro técnico no PSG, de acordo com a Sky Sports. Em seu próprio livro, o sueco deu mais detalhes. “Ele é o líder do seu exército. Mas ele se preocupa também. Na Inter, me mandava mensagem o tempo inteiro, perguntando como eu estava. Mourinho se tornaria uma pessoa pela qual eu basicamente estava disposto a morrer”.

O respeito é recíproco. No meio daquela temporada, Mourinho chegou a afirmar que Ibrahimovic era mais talentoso que Cristiano Ronaldo, o mais recente vencedor da Bola de Ouro naquele momento. Anos depois, antes de se reencontrarem nas quartas de final da Champions League, lamentou que Ibrahimovic não teve a chance de jogar “a melhor liga do mundo”, que na opinião do português é a Premier League. “Ele jogou nos países mais importantes do mundo do futebol e venceu os campeonatos mais importantes do mundo do futebol, mas ele não jogou na melhor liga do mundo e nunca venceu a melhor liga do mundo. Isso é uma pena”, afirmou.

Dois anos depois, Mourinho deu-lhe a chance de atuar na Inglaterra. Agora, precisa comandar bem o seu exército para que Ibrahimovic também vença “a melhor liga do mundo”.