A confiança que eu estava naquele dia era sobrenatural”, contou Euller ao site do Palmeiras sobre uma noite de outro mundo. “Quando Felipão desceu para o vestiário comigo, dizendo que me colocaria, decidi colocar outra camisa. Eu sabia que decidiria a partida!”. A segunda camisa foi parar nas arquibancadas do Palestra Itália, em um dos seus momentos de maior êxtase. Aos 41 minutos do segundo tempo, o Palmeiras precisava de dois gols para se classificar às semifinais da Copa do Brasil. Aos 43 minutos do segundo tempo, os havia conseguido, graças à cabeça do Filho do Vento que, naquela noite de 21 de maio de 1999 contra o Flamengo, se tornou o Filho da Esperança.

Euller, àquela altura, já tinha status de talismã no elenco poderoso do Palmeiras do fim da era Parmalat. A dupla de ataque favorita de Luiz Felipe Scolari era Paulo Nunes e Oseás, mas o mineiro famoso pela sua velocidade era geralmente escolhido para imprimir correria nos adversários no segundo tempo. Foi assim contra o Flamengo. Do alto dos seus 1,71 metros, Euller entrou no lugar de Arce.

O Palmeiras seguia vivo em todas as competições, mas parecia que a defesa do título da Copa do Brasil estava chegando ao fim. O Flamengo havia vencido o jogo de ida no Maracanã, por 2 a 1, com gols de Romário e Caio Ribeiro. Na volta, Rodrigo Mendes abriu o placar, no primeiro minuto, aproveitando uma espanada de taco de Roque Júnior. Oséas empatou, no começo do segundo tempo, mas Mendes voltou a deixar os cariocas em vantagem com uma bonita cobrança de falta.

O Palestra Itália pulsava, mas a situação era complicadíssima porque o Palmeiras precisava de três gols em coisa de meia hora para chegar à próxima fase. Dois minutos depois do segundo gol de Mendes, Júnior, outro gigante naquela noite que havia iniciado a jogada do tento de Oséas, arriscou de fora da área, um chute cruzado tão preciso que não precisou de muita força, apenas de um quique no gramado, para morrer na lateral das redes de Clemer.

E saíram também dos pés de Júnior as chances que Euller aproveitou. Dois escanteios. Dois lances agônicos, nos quais a bola foi jogada na boca do gol e se recusava a ser afastada. Parecia que estava esperando alguém mandá-la às redes, mas ninguém entendia que era essa sua intenção. Ninguém exceto Euller.

O fenomenal desses dois gols é que nem foram duas grandes cabeçadas. Oséas mandou o primeiro escanteio para dentro da pequena área, e Euller emendou na diagonal, em cima do marcador, que tirou com o peito. A bola flutuou para o atacante palmeirense completar ao gol vazio, já que Clemer havia se deslocado à esquerda para tentar abafá-lo no primeiro lance.

O próprio Euller arranjou o segundo escanteio, logo na sequência. Desta vez, usando sua velocidade para invadir a área pela esquerda. Júnior voltou a cobrar. Evair tentou duas finalizações, ambas bloqueadas. A bola voltou a subir, dividida por Oséas com um marcador do Flamengo. Antes que pudesse encontrar o chão encontrou Euller, entre gigantes.

E o negócio dos gigantes é que às vezes eles são altos demais para notar os que não são. “Aí é que está o segredo”, contou, ao Globo Esporte. “Eu sempre treinei muito jogadas de cabeça. E a defesa adversária não se preocupa muito com os baixinhos. Quando eles viam, eu já estava comemorando”.

O Palmeiras seria eliminado pelo Botafogo, nos pênaltis, na semifinal da Copa do Brasil, mas os gols de Euller e a espetacular virada contra o Flamengo, considerada um dos jogos mais emocionantes da história centenária do clube alviverde, não seria desperdiçada. Nas mãos do mestre da motivação Felipão, virou combustível para o título da Libertadores.

Cinco dias depois, o River Plate seria derrotado por 3 a 0 no mesmo Palestra Itália, com show de Alex, colocando o Palmeiras na decisão contra o Deportivo Cali. “Foi um ingrediente importante. A prova disso é que, a partir daquele jogo, toda vez que nos aquecíamos no Palestra, tinha um vídeo com todos os momentos daquele embate, inclusive com o jovem torcedor (o garoto Enzo, que ficou famoso ao aparecer na televisão naquele jogo) chorando nas arquibancadas. Enfim, nos ajudou muito”, encerrou Euller.

Ficha técnica

Palmeiras 4 x 2 Flamengo

Local: Estádio Palestra Italia
Data: 21/05/1999
Árbitro: Antônio Pereira da Silva (GO)

Gols: Oséas, aos 11’/2T; Júnior, aos 15’/2T; e Euller, aos 41′ e 43’/2T; Rodrigo Mendes, a 1’/1T e aos 14’/2T;

Palmeiras: Marcos; Arce (Euller), Roque Júnior, Agnaldo e Júnior; César Sampaio (Evair), Rogério, Alex e Zinho; Paulo Nunes e Oseás (Galeano). Técnico: Luiz Felipe Scolari

Flamengo: Clemer; Pimentel, Fabão, Luiz Alberto e Athirson; Jorginho, Maurinho, Beto e Caio (Bruno Quadros); Rodrigo Mendes e Romário (Vágner). Técnico: Carlinhos