Espanha e Rússia se enfrentarão pela sétima vez neste domingo, valendo uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo. Apesar das condições como anfitriões, os russos veem o favoritismo ficar do outro lado, até pelo histórico favorável aos espanhóis. A Roja ganhou quatro dos seis confrontos anteriores, empatando outros dois. Vantagem, aliás, que se reproduz desde os tempos de União Soviética, embora os encontros entre os dois países fossem bem raros. Os regimes políticos colocavam ambas as nações de lados opostos na Guerra Fria. Não à toa, um jogo de futebol se tornou motivo de incidente diplomático em 1960.

O rompimento entre a Espanha de Francisco Franco e a União Soviética de Josef Stalin se dava desde a década de 1930, quando o governo soviético apoiou os republicanos durante a Guerra Civil Espanhola. Na Segunda Guerra Mundial, apesar da neutralidade dos ibéricos, voluntários espanhóis chegaram a lutar contra os soviéticos no conflito. E o rompimento diplomático se escancarou a partir da segunda metade dos 1940, algo que se manteve com a chegada de Nikita Kruschev ao poder. A postura dos franquistas, aliás, se desdobrava a outros países da Cortina de Ferro. Basta lembrar que alguns dos maiores craques do futebol espanhol nos anos 1950 (Ladislao Kubala, Ferenc Puskás, Zoltán Czibor e Sándor Kocsis) nada mais eram do que exilados da Hungria.

O grande entrave futebolístico com a União Soviética, afinal, aconteceu nas eliminatórias da Eurocopa de 1960. Na primeira fase classificatória, equivalente às oitavas de final, a Espanha se cruzou com a Polônia. Embora também fosse um país comunista, os ibéricos não tiveram problemas para viajar a Chorzów e a encaminhar a classificação, consumada em Madri. O problema viria a partir das quartas de final. A União Soviética superou a Hungria e se punha como próximo desafio à Fúria. Um embate que nunca aconteceu.

A União Soviética tinha um time bastante temido, campeão olímpico em 1956. Já a Espanha não ficava atrás pela representatividade de seus clubes, embora os resultados da seleção não tenham impressionado na metade final da década de 1950. O lendário técnico Helenio Herrera chegou mesmo a realizar a convocação para o duelo em Moscou, marcado para 29 de maio de 1960. No entanto, dias depois da divulgação da lista, os ministros do governo franquista se reuniram para discutir o assunto.

O regime espanhol não queria que uma possível derrota fosse aproveitada pelo Kremlin, transmitindo uma mensagem de superioridade ao restante do mundo, ainda mais depois que o Real Madrid conquistou o quinto título da Copa dos Campeões. Segundo algumas versões, Franco teria perguntado se a Fúria poderia vencer a URSS e, diante de algumas dúvidas, preferiu tomar a decisão extrema. No entanto, além da questão da propaganda política, havia ainda o embargo ao trânsito de pessoas entre os dois países. Os ibéricos proibiam a visita de soviéticos, salvo exceções, e temiam que a chegada da delegação pudesse trazer também membros do serviço secreto soviético.

“Estávamos seguros de que poderíamos ganhar e ser campeões da Europa, mas nos disseram que eram ordens de cima, de Franco, e que não havia o que fazer. Antes do jogo, as notícias desapareceram misteriosamente da imprensa espanhola. Algo se passava. Ouvíamos coisas, mas não pensamos que não jogaríamos”, declarou Luis Suárez Miramontes, cérebro da seleção espanhola na época, em entrevista ao jornal Marca. A quatro dias antes do duelo, os jogadores, já concentrados, foram informados que a viagem a Moscou não aconteceria. Quando Alfredo Di Stéfano questionou o presidente da federação sobre os motivos, apenas ouviu: “Porque eles mandam”. Na mesma data, em curto comunicado, a Espanha informava a suspensão. Não havia qualquer explicação mais profunda.

Em um período no qual a Uefa se abstinha de entrar em conflitos políticos e exigia que seus membros se sobrepusessem a isso, a União Soviética ganhou a classificação automática. Até tentou-se negociar uma partida em campo neutro ou que os dois confrontos acontecessem em Moscou, algo rechaçado pelos soviéticos. A entidade europeia, aliás, aplicou uma multa aos espanhóis, embora sem punições esportivas. Já na URSS, a imprensa local aproveitou para propagandear o “medo espanhol” diante de sua equipe. Com o W.O., o selecionado vermelho passou à etapa final da primeira Eurocopa e, após eliminar a Tchecoslováquia nas semifinais, conquistou o torneio ao bater a Iugoslávia na final, disputada em Paris. O presidente da federação, Alfonso Lafuente-Chaos, que preferia separar as questões políticas da seleção, renunciou ao cargo naquele mesmo ano.

Menos de cinco meses depois, as rusgas entre União Soviética e Espanha ficaram mais expostas, quando Kruschev fez um discurso contra o regime franquista na Assembleia Geral da ONU. No entanto, os dois países voltaram a estabelecer o contato ainda com os mesmos líderes, a partir de abril de 1963. Assim, a chance dos espanhóis mostrarem em campo o erro dos ministros franquistas aconteceu justamente na Eurocopa de 1964. A Roja passou pelas fases qualificatórias e sediou a etapa final da competição, em evento que fazia parte das comemorações pelos 25 anos da vitória de Franco na Guerra Civil. A União Soviética também avançou no torneio e, desta vez, não enfrentou embargos para entrar no país. E depois que os ibéricos eliminaram os “inimigos” húngaros nas semifinais, viria a final com os soviéticos. Desta vez, sem a oposição do General, presente nas arquibancadas do Bernabéu.

O jogo tinha o seu valor esportivo à Espanha, claro. Mas as intenções políticas também eram evidentes, até pela maneira como espanhóis e soviéticos se tratavam, como opostos em uma guerra de concepções de mundo. Quando surgiu nas tribunas, Franco foi ovacionado pelos 80 mil no estádio, e tinha ao seu lado o vice-presidente Agustín Muñoz Grandes, antigo chefe da Divisão Azul, que combateu ao lado da Alemanha Nazista no front soviético da Segunda Guerra e chegou a ser condecorado por Adolf Hitler por sua atuação no conflito. Existia uma mensagem bastante clara com aquelas presenças.

Dentro de campo, ao menos, prevaleceu o futebol. A Espanha abriu o placar logo aos seis minutos. Luis Suárez cruzou, a defesa bobeou e Jesús María Pereda soltou a bomba. O empate saiu aos oito, em chute de Galimzyan Khusainov. O soviético apareceu livre na entrada da área e o quique de seu chute enganou o goleiro José Ángel Iribar. Já no segundo tempo, diante da pressão da Fúria, os anfitriões comemorariam o gol decisivo aos 39. Jogadaça de Pereda na direita, enganando o marcador e cruzando para Marcelino Martínez completar de peixinho. Aquele gol definiu a vitória por 2 a 1 e a conquista inédita. Franco entregou o troféu ao capitão Ferran Olivella.

Em 1971, as duas equipes voltaram a se encontrar pelas eliminatórias da Eurocopa, então organizadas com uma fase de grupos. Diante das reaproximações formais entre os países a partir de 1969, não houve qualquer empecilho quanto às partidas. Os soviéticos venceram por 2 a 1 no Estádio Central Lenin, em Moscou, o atual Luzhniki. Classificada como “a partida do século”, foi um dos primeiros jogos da seleção transmitidos ao vivo pela televisão espanhola. De qualquer forma, as rusgas persistiam, a ponto de, antes do confronto, os jogadores soviéticos receberem a visita de agentes da KGB – algo confirmado publicamente tempos depois. Foram pressionados pelo serviço secreto, ouvindo sobre a importância política do triunfo. Já no reencontro em Sevilha, o empate por 0 a 0 garantiu a classificação da URSS. Faria a decisão contra a Alemanha Ocidental, que ficou com a taça desta vez.

Em 1982, com a queda do regime franquista e o restabelecimento da democracia, a União Soviética não teve quaisquer problemas para entrar na Espanha e disputar a Copa do Mundo. Já os sinais dos novos tempos, também com a ruína do governo comunista, veio em janeiro de 1986, quando as duas seleções disputaram seu primeiro amistoso – algo impensável nas décadas anteriores. A Fúria venceu o compromisso em Las Palmas por 2 a 0, servindo como preparação a ambos os times rumo ao Mundial do México.