A temporada 1973/74 possui um simbolismo muito grande na história do Campeonato Espanhol. Afinal, naquele ano a Liga voltou a admitir a contratação de jogadores estrangeiros que não tivessem necessariamente origem espanhola. E os grandes craques internacionais voltaram a ser mais frequentes nos estádios do país, em movimento que havia estagnado na década de 1960. Neste momento, então, Barcelona e Real Madrid tinham um alvo claro: Johan Cruyff. O revolucionário da bola que, de certa forma, ajudaria a mudar os rumos do futebol espanhol a partir de sua influência.

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Cruyff vivia o seu ápice em 1973. O camisa 14 cerebral ainda não tinha impactado o mundo com a seleção holandesa, mas dominava a Europa como craque do Ajax. Já tinha duas Bolas de Ouro em sua coleção e acabara de conquistar o tricampeonato da Copa dos Campeões. Assim, tornou-se sonho de consumo tanto de merengues quanto de blaugranas. Então presidente do Real, o mítico Santiago Bernabéu chegou a negociar com o holandês. O interesse cresceu principalmente depois que o Ajax eliminou os espanhóis nas semifinais da Champions, em abril de 1973. Durante os duelos, o dirigente aproveitou para iniciar as tratativas. No entanto, o Barça também se empenhava pelo talento naquele instante de reabertura.

“Eu estive apalavrado com Cruyff por 30 milhões de pesetas, mas não ia lhe pagar US$ 12 mil por temporada, o que lhe propôs  Barcelona. Talvez eu tenha sido tímido, eu reconheço, ao não oferecer mais. A culpa foi minha, mas o que me diriam os sócios se gasto os milhões que não temos? Em 1967, Miguel Muñoz já me aconselhou a contratar Cruyff. Tinha 20 anos e ia ser um fenômeno”, declarou Bernabéu, sobre a negociação. Por fim, os blaugranas acabaram fechando o negócio, quebrando o recorde de transferência mais cara da história até então.

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É verdade que o Real Madrid não ficou de mãos abanando. Em resposta, Bernabéu contratou Günter Netzer. O meia do Borussia Mönchengladbach vivia um momento esplendoroso, um dos destaques na seleção alemã-ocidental que conquistou a Eurocopa em 1972. Todavia, o impacto imediato de Cruyff foi muito maior. Netzer não engrenou em um período de transição do Real Madrid, com a demissão do técnico Miguel Muñoz, após 14 anos no banco de reservas. Luis Molowny assumiu a equipe interinamente e venceu a Copa do Rei, mas não passou da oitava colocação na Liga. E justamente com o novo treinador é que os merengues sofreram o maior arrependimento por não contratar Cruyff.

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No primeiro clássico válido pelo Espanhol, Cruyff se ausentou do empate por 0 a 0 na Catalunha. Porém, fez toda a diferença para o massacre que aconteceu em Chamartín. Sob a liderança do camisa 14, os blaugranas enfiaram 5 a 0 diante da torcida merengue. Àquela altura, o Barça já despontava no topo da tabela, enquanto o Real aparecia em posições intermediárias. De qualquer maneira, a goleada serviu de pá de cal para quaisquer pretensões dos madridistas. Era a maior goleada dos culés em Madri, que impulsionava o time a reconquistar a taça que não vinha desde 1960.

Cruyff acabou com aquele jogo. Sua velocidade e sua capacidade de organização no meio de campo desmantelaram o Real Madrid, ocupando múltiplos espaços e distribuindo bolas aos companheiros. E o craque holandês deixou a sua contribuição no placar, anotando o segundo gol, depois que Asensi já havia aberto a contagem. Aos 38 minutos, o camisa 14 passou por dois marcadores, antes de vencer o goleiro Garcia Remón. Já na segunda etapa, o Barcelona fechou o massacre com tentos de Asensi, Juan Carlos e Hugo Sotil – os dois últimos com assistências do gênio. O reconhecimento maior veio com os aplausos da torcida em Chamartín aos rivais, apesar de todo o orgulho ferido.

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“Cruyff foi hoje como vem sendo sempre, um peão a mais no conjunto. Não podemos destaca-lo quando foi a equipe precisamente que se destacou”, preferiu avaliar o técnico Rinus Michels, após a partida. Já Luis Molowny ressaltou: “Não me surpreendi, porque já sabíamos tudo ou quase tudo sobre Cruyff. Foi um jogador a mais nesta noite, de excepcional categoria, isso sim, em um excepcional conjunto que foi o Barcelona”. Apesar da política nas palavras, a importância do camisa 14 naquele resultado era evidente.

As atuações impressionantes pelo Barcelona embalaram Cruyff rumo à Copa do Mundo de 1974 e lhe garantiram a terceira Bola de Ouro ao final do ano. Entretanto, a sorte diante do Real Madrid não se seguiu nas temporadas seguintes. Até 1977/78, os merengues se revezaram no topo da Liga com o Atlético de Madrid e, em oito clássicos pela competição, o holandês teve três vitorias e três derrotas, além de dois empates. Em sua última aparição, acabou superado por 3 a 2, em noite na qual Juan Antonio Camacho o anulou na marcação. Depois disso, Cruyff só voltaria a vivenciar o clássico como técnico, no final dos anos 1980. Talvez tenha pintado mais uma ponta de arrependimento dos merengues pela contratação que nunca aconteceu, diante da maneira como o gênio transformou conceitos no Camp Nou a partir de então.

Amanhã, em mais um texto sobre o clássico, falaremos sobre os sucessos de Zidane contra o Barcelona como jogador.

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