A Copa Conmebol surgiu como uma ótima chance a vários clubes brasileiros de tradição. Em tempos nos quais a Libertadores se limitava apenas a dois representantes por país e a Supercopa era disputada por um grupo restrito de camisas pesadas, o terceiro torneio da América do Sul ampliava as oportunidades, em momentos pródigos ao futebol no Brasil. Atlético Mineiro e Botafogo tiraram seu proveito. Os dois alvinegros inauguraram sua galeria de títulos continentais graças à nova competição. Chegaram mesmo a fazer uma emblemática semifinal em 1993, na qual os atleticanos acabaram passando sua faixa aos botafoguenses. História que merece ser relembrada nesta quarta, antes do duelo entre os brasileiros pela Copa Sul-Americana.

O surgimento da Copa Conmebol foi inspirado pela antiga Copa da Uefa. O torneio absorvia os times mais bem colocados nas competições nacionais que não tinham se classificado à Libertadores. O Atlético Mineiro se tornou o primeiro campeão, ao bater o forte Olimpia na final de 1992. Para defender seu título, acabou confirmado também na Copa Conmebol de 1993. Já o Botafogo entrava pelo vice-campeonato no Brasileirão de 1992, bem cotado na disputa.

Enquanto o Botafogo eliminou Bragantino (quarto colocado da Série A) e Caracas para alcançar as semifinais daquela edição da Copa Conmebol, o Atlético Mineiro deixou pelo caminho Fluminense (vice da Copa do Brasil) e Deportivo Sipesa. O problema era lidar com o calendário inchadíssimo, com o início do Brasileirão naquelas semanas. Apesar do ritmo extenuante, os dois clubes voltaram suas atenções à chance de título na frente sul-americana.

O Botafogo precisou poupar um pouco mais de suas forças para a partida de ida, em Belo Horizonte. Teve uma folga de apenas dois dias após enfrentar o Bragantino em sua estreia no Brasileiro. Já o Galo encarou o Vasco no Rio de Janeiro e, três dias depois, retornava a campo na Copa Conmebol. E os atleticanos fizeram valer o mando de campo no encontro do Mineirão. Segundo o relato do Jornal dos Sports, a derrota por 3 a 1 “poderia ter sido pior” aos botafoguenses, interessados apenas em amarrar o resultado.

O Atlético partiu para cima e abriu o placar logo cedo, graças a uma cobrança de falta do volante Valdir, ajudado pelo frango do goleiro Carlão. O Galo perdeu outras boas oportunidades, principalmente com o lateral Paulo Roberto, o que permitiu o empate ao Botafogo antes do intervalo. O artilheiro Sinval marcou, também após uma falha do arqueiro Luís Henrique. Já no segundo tempo, o Galo dominou e esboçou a goleada. Leandro e o substituto Reinaldo Rosa balançaram as redes, fechando a contagem. Carlão ainda se redimiu e evitou o quarto, mesmo terminando o jogo contundido.

O técnico do Botafogo na época era Carlos Alberto Torres. E o Capita prometia outra atitude de sua equipe no Rio de Janeiro. “Fomos derrotados porque os jogadores não se empenharam como deveriam no Mineirão. Tudo será diferente no segundo jogo e eles sabem que sem garra não conseguiremos chegar à final da competição”, declarou, ao Jornal dos Sports, na época. “Jogamos na segunda-feira em Bragança, agora foi a vez de Belo Horizonte e no sábado jogaremos em Porto Alegre. Estamos sem tempo para os treinamentos. Isso é um absurdo, mas já faz parte do calendário do futebol brasileiro há muito tempo”.

O técnico do Atlético, Otacílio Gonçalves, mantinha um discurso mais cauteloso. Prometia jogar em cima dos erros do Botafogo: “Vamos explorar o nervosismo do adversário, que precisa vencer por pelo menos dois gols de diferença para decidir nos pênaltis. Queremos aproveitar os espaços que certamente surgirão no seu setor defensivo”. Entre um jogo e outro, os cariocas perderam para o Internacional no Beira-Rio, ao mesmo tempo em que os atleticanos empatavam com o Santos em BH. Quatro dias depois da rodada do Brasileirão, ocorreu a definição da semifinal no Caio Martins.

O Botafogo teve mudanças em relação à ida. Os exames realizados após a partida de BH mostraram que a lesão de Carlão era mais grave do que se pensava. Por conta disso, a diretoria botafoguense buscou o futuro ídolo Vágner, então emprestado pelo Bangu. Naquele primeiro momento, todavia, William seria o titular na meta. Carlos Alberto Torres também montou uma equipe mais ofensiva. Perivaldo era peça importante no apoio pela lateral e Sinval comandava a linha de frente com três atacantes. Já o Galo confiava na parceria de Sérgio Araújo e Renaldo no ataque, além da capacidade do veterano Cristóvão (Borges) e do selecionável Valdir no meio.

Diante de sua torcida, o Botafogo apresentou um poder de reação imenso. Amassou o Atlético e arrancou a necessária vitória por 3 a 0, sem sequer recorrer aos pênaltis. O primeiro gol veio com Sinval. Eliel bateu cruzado e o artilheiro completou de carrinho. Já no segundo tempo, o arqueiro Luís Henrique deixou a carne solta dentro da área e Rogério Pinheiro anotou o segundo. E o tento da classificação saiu com Eliel, em mais um chute cruzado, desta vez sem chances ao goleiro. Segundo o Jornal dos Sports, a atuação “impecável” foi marcada pela garra e pela determinação dos cariocas.

Revelação da Portuguesa, Sinval estava emprestado ao Botafogo. O atacante comentou o bom momento no clube: “Estou muito feliz. Essa vinda para o Rio foi muito importante para minha carreira. Estou consolidando a condição de artilheiro com muito trabalho e dedicação. E tudo isso foi possível porque o Botafogo confiou em meu futebol. Só tenho a agradecer. Nem quero pensar no meu contrato agora. Nossa principal preocupação é vencer a Copa Conmebol. O resto se resolve depois”. Com sete gols marcados até as semifinais, era o artilheiro da campanha botafoguense. Recebeu nota 9 por sua atuação contra o Galo.

Após eliminar o campeão Atlético Mineiro, o Botafogo teria que superar uma pedreira na final: o Peñarol, estrelado por Pablo Bengoechea. E a diretoria ainda precisou se preocupar com a negociação do calendário. Inicialmente, os botafoguenses teriam que enfrentar o Bahia no mesmo dia da partida em Montevidéu. Conseguiram adiar a visita à Fonte Nova, embora tenham pegado o Corinthians em São Paulo dois dias antes do empate por 1 a 1 no Centenário. Já em 29 de setembro, com uma vitória nos pênaltis, os alvinegros comemoraram a inédita taça continental dentro do Maracanã.