De um país nascido de forma tão bela, o Haiti carrega consigo uma das histórias mais dolorosas das Américas. A nação que se tornou independente a partir de uma rebelião de escravos viu o sangue se derramar por suas terras. Na segunda metade do Século XX, sobretudo, os haitianos ficaram à mercê de ditadores e de conflitos civis. E quando a nação tentava encontrar seus rumos, o terremoto de 2010 deixou uma devastação em igual, com mais de 150 mil mortos. Neste cenário, o futebol virou uma válvula de escape e uma lição.

A participação do Haiti na Copa América serve de orgulho. Desde a Copa do Mundo de 1974 o país não disputava uma competição tão importante com sua seleção. Oportunidade valorizada demais pelos jogadores, como ficou explícito na estreia contra o Peru. A entrega dos haitianos era visível, a cada lance. E se escancarou no último minuto, quando o atacante Kervens Belfort perdeu a chance de empate, caindo em lágrimas.

“Quando a seleção haitiana está jogando, há paz no país por 90 minutos. As pessoas não estão pensando sobre a fome que sentem. Não estão pensando sobre a pobreza. Estão apenas aproveitando a partida”, afirmou o meio-campista Jean-Marc Alexandre, em entrevista ao Guardian. “Antes do terremoto, as coisas estavam indo bem. Estávamos subindo nos rankings. Mas aquele período nos feriu. Alguns técnicos e um rapaz que era fundamental no futebol de base faleceram. Alguns jogadores também morreram. Foi uma tragédia”.

Para Alexandre, a representatividade da seleção aumentou ainda mais depois do terremoto de 2010: “Nós nos recuperamos e ainda estamos nos recuperando disso. A maioria de nossos jogos são disputados nos Estados Unidos ou em outros lugares. Na primeira vez em que jogamos no Haiti depois do terremoto, o estádio estava abarrotado. Foi uma das melhores atmosferas que eu já experimentei. Como jogadores, gostemos disso ou não, temos um papel importantíssimo no país. Porque, quando a seleção joga, há paz e há felicidade. Nós temos alegria e orgulho de representar o Haiti no torneio”.

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Assim como boa parte do país, a estrutura já parca do futebol haitiano desmoronou com o terremoto. O estádio nacional transformou-se em refúgio para os desabrigados e para outros atendimentos aos necessitados. A seleção se afastou das atividades por seis meses e só voltou a jogar no país dois anos depois. Ânsia por garantir um alento ao povo que entra em ebulição principalmente no momento em que o hino haitiano é executado.

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“Nós pensamos sobre os nossos sentimentos quando o hino nacional vai tocar. Quando a seleção se reúne, todos – dos jogadores à comissão técnica – se esforçam de todo coração. Nós damos 100%, porque nós conhecemos a realidade no Haiti. Nós sabemos o que representamos. Podemos não ter dinheiro para resolver todos os problemas, mas temos o talento que Deus nos deu, podemos suprimir estes problemas por algumas horas”, pontua o jogador do Fort-Lauderdale Strikers.

Mais do que uma alegria, o futebol se coloca como um caminho à população mais pobre. Através dele, os meninos nas ruas podem escapar de tantas armadilhas, como o alcoolismo, uma questão de estado no Haiti. Porém, o desenvolvimento do futebol no país atravanca na falta de recursos e depende quase sempre de iniciativas próprias, além da sorte.

“Eu nunca havia calçado chuteiras até os 15 anos. Nós jogávamos descalços e chutávamos garrafas ou o que quer que tivéssemos nas ruas. Sair do Haiti é difícil. Não há informações sobre os jogadores que atuam lá. Isso está mudando lentamente agora, mas há poucos times e treinadores para observar. Se você for visto nas ruas, pode ter uma chance. O futebol me deu uma oportunidade de criar uma vida para mim. Sou abençoado. Outros, porém, não tiveram a mesma sorte”, relata James Marcelin, meia da seleção.

O próprio Jean-Marc Alexandre é um dos que tiram dinheiro do próprio bolso para ajudar as crianças no país: “Em 2006, quando voltei ao Haiti para o funeral de minha avó, vi muitas crianças jogando bola nas ruas. Eles são talentosos, mas não há estrutura ou organização que garantam os treinos. Na minha cidade, não havia nada. Então, falei com meu pai e ele disse que poderíamos fazer algo pelas crianças. Criamos uma academia para eles treinarem. É importante que nós tentemos orientar esses garotos desde cedo, porque fica mais difícil de influenciá-los à medida que vão ficando mais velhos. Um grande problema no país é o envolvimento com o álcool desde cedo. Estamos falando de crianças de 11 ou 12 anos. É algo que estamos enfrentando e acreditamos que podemos vencer através do futebol”.

Frente a frente com os ídolos

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O jogo contra o Brasil, sobretudo, será significativo para o Haiti. Afinal, a Seleção serviu de símbolo ao país em 2004, quando disputou o “Jogo da Paz” em Porto Príncipe, enquanto os haitianos tentavam reconstruir suas vidas, apesar da pobreza e dos conflitos civis. Embora no Brasil o episódio tenha sido manchado pelo uso político na CBF, por lá o significado dele é imenso. Permanece no imaginário da população.

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“O acordo era que você desse uma arma em troca de um ingresso. Eles coletaram barris com pistolas. Ronaldo me disse que a experiência que ele teve no Haiti foi uma das mais memoráveis de sua carreira. O ônibus da Seleção não se movia, era rodeado por torcedores. O Brasil teve muita classe em ir ao Haiti e fazer isso. Nós nos lembraremos desse dia pelo resto de nossas vidas e, na minha opinião, deveria ser visto como parte da história do futebol”, conta Alexandre, desta vez em entrevista à France Presse.

Antes mesmo do amistoso, havia uma clara identificação dos haitianos com a seleção brasileira. Que se intensificou a partir do gesto humanitário junto à Organização das Nações Unidas. “Por muito tempo, os haitianos torceram pelo Brasil. Eu penso que uma das coisas que influenciaram isso é a diversidade da Seleção, com mais negros e mestiços. E, obviamente, Pelé. Isso ajudou os haitianos a criarem uma relação com os brasileiros. Há torcedores da Argentina, mas não muitos”, complementa Alexandre.

Por isso mesmo, o jogo desta quarta-feira será cercado de expectativas. E não apenas pelos milhões de haitianos que seguem na ilha tentando reconstruí-la, mas também pelos milhares que vieram tentar uma esperança de vida no Brasil ao longo dos últimos anos. O futebol é o elo mais forte na grande história de superação de um povo.

“É uma bênção ter esta oportunidade. Todos os jogadores estão vivendo este momento. É realmente um sonho se tornando realidade. Nós todos sentávamos na frente da TV para assistir ao Brasil e nunca poderíamos imaginar que um dia jogaríamos contra eles. Eu estou empolgado para jogar, mas parte de mim também amaria estar no Haiti só para ver a reação da torcida. Se ganharmos, será o maior milagre que Deus já produziu no futebol”, conclui Alexandre. Daquelas sensações que, diante da realidade, só o futebol pode proporcionar.