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A última visita do Manchester United a Anfield, antes do último domingo, foi também o último jogo de José Mourinho no comando dos Red Devils. Meados de dezembro. No inverno da Noruega, onde tentava emplacar sua carreira como técnico no Molde, Ole Gunnar Solskjaer recebeu a ligação para dirigir o barco interinamente enquanto um treinador permanente era procurado. Depois, bêbada da euforia da virada contra o Paris Saint-Germain, a diretoria efetivou-o no impulso, sem saber exatamente qual profissional estava contratando porque, àquela altura, simplesmente não dava para saber.

Não que tenha sido uma decisão completamente intempestiva. Há uma lógica por trás dela que se assemelha a um truque de mágica. Solskjaer é a distração. Atrai a atenção do público pelo seu status de ídolo construído no período mais áureo do Manchester United, fala em resgatar tradições de futebol ofensivo e aproveitamento das categorias de base, e de vez em quando tira fotos com Alex Ferguson que podem fazer o torcedor desavisado achar que há um plano em andamento. Enquanto isso, Ed Woodward finge que corta a assistente ao meio, satisfazendo os acionistas com altos dividendos, e os problemas reais do clube seguem existindo.

Solskjaer não é tanto um deles. Não parece ser um treinador péssimo, não parece ser um treinador ótimo, parece ser apenas um treinador que está em um cargo que exige mais do que ele pode dar. Parece ter o tamanho talvez um pouco menor do que o Manchester United está sendo nesta temporada, um time ali de segundo ou terceiro patamar que de vez em quando ganha um jogo que não deveria ganhar e depois perde um que não deveria perder, mas muito menor do que o Manchester United deseja e precisa ser.

Olhando para quem está próximo na tabela, o seu trabalho é muito inferior ao de Nuno Espírito Santo, Chris Wilder e Roy Hodgson, sem nem falar de Brendan Rodgers que está conduzindo o Leicester a uma campanha muito acima das expectativas, e talvez em algum outro momento da história Solskjaer pudesse treinar Wolverhampton, Sheffield United, Crystal Palace ou Leicester sem causar estranhamento ou sem a sensação de que outra pessoa faria um trabalho melhor.

A atuação em Anfield foi condizente com esse tamanho. O Manchester United fez bons 15 minutos iniciais, pelos quais Solskjaer está sendo elogiado por ter travado o Liverpool, e outros bons 30 minutos finais, pressionando o adversário que havia recuado sem realmente criar chances muito claras. Até saiu de campo deixando impressões positivas. O problema é que houve 45 minutos entre esses dois períodos nos quais o líder da Premier League poderia ter marcado pelo menos mais duas ou três vezes. Mas tudo bem: foi uma atuação razoável de um time médio contra um time grande que até ficou próximo de causar uma surpresa.

O problema você já deve ter adivinhado. O Manchester United não é um clube médio. Não é um clube menor do que o Liverpool. Tem faturamento maior do que qualquer um da Inglaterra e, desde a aposentadoria de Alex Ferguson, investiu € 1 bilhão (subtraindo venda de jogadores, € 700 milhões) em um muito bem-sucedido projeto de apequenamento que culminou nessa ilusão de que perder-quase-empatando-na-raça para o maior rival foi até que um bom resultado. Não pode demorar 40 minutos para dar o primeiro chute a gol no maior clássico da Inglaterra.

Porque se o jogo de Anfield é um sinal positivo, para onde o Manchester United está indo e em qual velocidade? É legal que Solskjaer dê espaço para jovens. Mason Greenwood e Brandon Williams, por exemplo, parecem bons valores, e ele está conduzindo um necessário processo de limpar o elenco. Mas não é suficiente. A falta de evolução coletiva do time é alarmante. Até piorou, na verdade, em relação à primeira sequência de jogos quando qualquer um com um sorriso e uma boa piada conseguiria deixar o ambiente do vestiário mais leve. Continua sendo um time de velocidade e contra-ataque, o que encaixa muito bem contra os outros grandes ou quando por acaso sai na frente, mas sem um plano contra defesas fechadas, sem uma defesa particularmente forte, sem um meio-campo que consegue controlar o jogo.

O jornalista Jonathan Wilson, do Guardian, publicou alguns números muito ilustrativos. Desde que foi efetivado, Solskjaer tem a pior porcentagem de vitórias de um técnico do United desde 1931: 36,67%. Mesmo contando os jogos como interino, o total sobe para apenas 48,8%, abaixo dos 53,8% de Mourinho. Seu time está fazendo praticamente o mesmo número de gols que o do português (1,7 em média contra 1,6) e concedendo mais (1,2 versus 0,9). O número de passes por jogo diminuiu e a quantidade de gols levados em rápidos contra-ataques triplicou. E não há exatamente um futebol muito melhor sendo desempenhado, embora a presença de jovens forneça alguma empolgação e o clima no geral do clube esteja um pouco melhor.

O trabalho de Solskjaer não é bom, e um melhor provavelmente elevaria o United a um patamar acima, mas não para aquele em que ele merece estar. Os problemas vão além do treinador. Porque € 1 bilhão depois, o Manchester United tem três jogadores realmente acima da média, um deles é o goleiro, o outro nunca joga, um meio-campo envelhecido e sem criatividade, apenas um zagueiro confiável e inflacionado e nenhum centroavante que garanta uns 20 ou 30 gols por temporada, e tudo isso é culpa de Ed Woodward.

Faz pelo menos um ano e meio que o United fala em contratar um diretor de futebol para comandar o recrutamento de jogadores dentro de alguma coerência, mas, até agora, “a pessoa certa não foi encontrada”. Logo, o homem que transformou o time campeão que Ferguson deixou nesse descrito acima continua responsável pelas transferências, e até saíram notícias de que ele havia aprendido com seus erros, mas nada como uma nova janela de transferências para colocar as coisas em seus devidos lugares.

Quem relata a mais nova anedota do recrutamento do United é Daniel Taylor, do The Athletic. Segundo a reportagem, o empresário de Nico Gaitán constantemente vazava notícias infundadas sobre o interesse dos Red Devils em seu cliente para valorizá-lo, a ponto de a diretoria vermelha ter pedido que o Benfica tomasse providências para que isso parasse. Diante de tanta especulação em torno do nome de Bruno Fernandes, algo parecido foi feito: os jornalistas foram informados que o meia do Sporting estava se tornando “objeto de irritação”. A janela de transferências do começo da temporada fechou sem que esse panorama mudasse, mas, agora, contratar Fernandes é a principal missão de Woodward. O problema? O jogador renovou contrato em novembro e está muito mais caro.

Resumindo: o Manchester United tem um treinador no máximo mediano, um elenco desequilibrado e cheio de falhas e uma diretoria que já provou mais de uma vez que não tem nenhuma ideia ampla sobre o que quer fazer com um clube com tantos recursos, e é agora que entra o exemplo do colega que chegou à noite do último domingo com 30 pontos a mais na tabela.

Com algumas nuances diferentes, o Liverpool estava na mesma posição em outubro de 2015, quando empatou com o Everton por 0 a 0. O dinheiro da venda de Luis Suárez havia sido muito mal investido, escancarando os problemas da estratégia de recrutamento – Balotelli foi o substituto do uruguaio. Brendan Rodgers não fazia um péssimo trabalho. Havia tido uma excepcional temporada seguida por outra muito ruim, e talvez merecesse mais tempo, mas havia no mercado uma opção muito melhor. Foi demitido depois do dérbi, e Jürgen Klopp chegou.

Não há muitos treinadores que oferecem o mesmo que Klopp. Ele representa um pacote: um ótimo trabalho do dia a dia, um estilo de jogo muito bem definido, personalidade forte e carismática para centralizar críticas e elogios e para tomar as decisões que correspondem à sua ideia, na gestão de grupo e no mercado de transferências. O que ele ofereceu ao Liverpool é o que o Manchester United precisa: um plano claro. E diante da impossibilidade de desenvolver um sozinho, o United deveria pensar em pegar emprestado de algum treinador.

Há poucos nomes com essas características. Não é apenas ser um ótimo treinador. Além de Klopp, Pep Guardiola e Antonio Conte, talvez Maurizio Sarri em um patamar abaixo. A sorte do Manchester United é que um dos integrantes desse grupo, pelo menos potencialmente, está livre no mercado, e se Woodward ainda não explorou a possibilidade de contratar Mauricio Pochettino, o que diabos ele anda fazendo?

Nem se sabe se Pochettino tem a dose certa de masoquismo para aceitar o cargo do United, em um momento no qual ele pode praticamente escolher onde quer trabalhar, nem se ele realmente está no patamar dos colegas citados acima, porque faltou um grande título com o Tottenham, embora a final da Champions League chegue perto. Mas não há nenhuma alternativa melhor. Poderia dar certo ou errado, mas pelo menos passaria a impressão de que o Manchester United está tentando chegar a algum lugar. Atualmente, o clube parece estar apenas perdendo tempo.

Kick and Rush

– Nada pode ser mais ilustrativo da fase do Bournemouth, vice-lanterna com apenas 20 pontos, do que o que fez Steve Cook. Cometer pênalti e ser expulso em troca de evitar um gol, na era do VAR, em que de maneira alguma passaria despercebido, aos 31 minutos do primeiro tempo, é um ato de desespero. Permitiu ao Norwich abrir 1 a 0 e ficar confortável na partida até os minutos finais, quando Ben Godfrey também recebeu cartão vermelho, mas conseguiu segurar a vitória.

– Não é, ainda, preocupante a queda de rendimento do Leicester – quatro derrotas nas últimas seis rodadas da Premier League. Estava atuando em um ritmo alto demais, comparável ao de Manchester City e Liverpool, sem ter recursos para isso. Coincidiu com a lesão de Wilfried Ndidi, um dos jogadores mais importantes do seu meio-campo. Ser campeão nunca foi um objetivo palpável e a vaga na Champions League ainda parece muito bem encaminhada, pela fragilidade dos competidores. Seria bom reagir logo.

– Quem diria que os gols que o Everton vinha procurando desde a saída de Romelu Lukaku começariam a aparecer pelos pés de Dominic Calvert-Lewin. Desde a chegada de Carlo Ancelotti, o Everton marcou sete vezes em cinco partidas, quatro graças ao garoto de 22 anos.

– Merece atenção, mais uma vez, a campanha do Wolverhampton. Teve um começo ruim, distraído pelas preliminares da Liga Europa, mas emendou 11 jogos de invencibilidade. Teve outra queda durante as festas, quando enfrentou Liverpool e Manchester City em menos de 48 horas, mas virou contra o Southampton, que está em boa fase, depois de estar perdendo por 2 a 0. Com as oscilações de Chelsea e Manchester United, aparece a cinco pontos de vaga na próxima Champions League. Possibilidade real.