Qual o impacto da Rota dos Campeões na Champions?

Em vigor há três temporadas, sistema de distribuição de vagas na Liga dos Campeões é contestado, mas possui também seus pontos positivos

A Liga dos Campeões chega a sua 16ª edição desde que deixou de ser, de fato, apenas dos campeões nacionais. E está comprovado: ser hegemônico dentro de seu território não é garantia de sucesso no torneio continental. Sete dos últimos 15 vencedores da LC não haviam conquistado a liga de seus países na temporada anterior – entre eles o Chelsea, vice-campeão da Premier League 2010/11 e triunfante em Munique no último mês de maio.

Já em 2009/10, foi a vez de Michel Platini, presidente da Uefa, tentar proteger os clubes de países sem tanta representatividade no continente. Naquela temporada, foi criada a Rota dos Campeões, com o intuito de garantir um número maior de “primeiros colocados” na Champions. Cinco clubes vindos das etapas preliminares são necessariamente vencedores de ligas nacionais, enquanto três países ganharam vagas diretas na fase de grupos (11º a 13º no Ranking da Uefa).

A nova regra aumentou o número de campeões na LC. De 1999/00 a 2008/09, 65% (104 de 160) dos times que chegaram à fase de grupos após passarem por etapas qualificatórias não haviam vencido as ligas nacionais. A média no período era de 15,6 campeões por edição do torneio, 10 deles assegurados na fase de grupos e 5,6 ascendidos das eliminatórias. Atualmente, este número se estabilizou em 18, salvo exceções – como em 2011/12, quando o Fenerbahçe foi desclassificado por envolvimento com manipulação de resultados, ou 2012/13, quando a inclusão do Chelsea à fase de grupos relegou o Anderlecht às preliminares.

O centro da polêmica, porém, é outro. Qual o impacto da Rota dos Campeões na competitividade da Liga? Nas próximas linhas, acompanhe uma análise das consequências que o novo sistema trouxe ao torneio.

A força das preliminares

O primeiro mito de que a Rota dos Campeões teria rebaixado o nível da Champions é quebrado com um cálculo simples. A porcentagem de clubes que passaram pelas eliminatórias e se classificaram para a segunda fase nas últimas três temporadas é praticamente a mesma dos dez anos anteriores – um pouco superior no período mais recente, aliás.

Entre 2009/10 e 2011/12, 40% (12 de 30) dos times que passaram pela qualificação chegaram ao menos nas oitavas de final da LC. Já nas dez temporadas precedentes, a porcentagem de equipes que passaram da fase de grupos foi de 38,1% (61 de 160). Se forem excluídos os clubes que, com a regra atual, estariam diretamente na fase de grupos, a taxa cai para 33% (38 de 115).

Rota dos Campeões

Considerados os clubes que vieram da Rota dos Campeões e também os que ganharam vaga direta na fase de grupos a partir de 2009/10, as proporções continuam parecidas. Desde que a nova distribuição foi implementada, 16,7% (4 de 24) dos times avançaram no torneio. Olympiacos (2009/10), Kobenhavn (2010/11) e Basel (2011/12) caíram nas oitavas de final, enquanto o Apoel (2011/12) só foi derrubado nas quartas.

Anteriormente, a taxa era ligeiramente superior. Dos 56 campeões nacionais que passaram pelas preliminares, dez sobreviveram até a etapa seguinte da Liga dos Campeões – percentual de 17,9%. Dentre estes, dois clubes turcos foram os que chegaram mais longe: o Galatasaray (2000/01) e o Fenerbahçe (2007/08), ambos quadrifinalistas. Ou seja, a probabilidade de uma zebra surgir, ao menos pela amostragem atual, é a mesma da era pré-Rota.

A principal diferença do sistema antigo é que boas colocações no ranking de países não significavam necessariamente melhores desempenhos. Levando em conta apenas os representantes do 11º ao 13º do ranking, que hoje em dia já teriam vaga entre os 32 melhores da LC, 38,2% (13 de 34) ficaram pelo caminho ainda nas fases qualificatórias.

Rota da Liga
O Bayern passou pela Rota da Liga antes de chegar à final em 2011/12

Já a seletividade atual ajudou a melhorar o desempenho daqueles que não foram campeões nacionais. Analisando os times que vieram da Rota da Liga e também os terceiros colocados dos três melhores países do ranking (que, no sistema antigo, teriam que passar pelas preliminares), a taxa de classificação às oitavas de final atualmente é de 62,5% (15 de 24). Enquanto isso, a porcentagem nas dez temporadas precedentes foi de 49% (51 de 104).

A melhora nos números é explicada, aliás, é explicada justamente pelos resultados obtidos pelos clubes provenientes da Rota da Liga. O percentual de classificados que passaram por este caminho é atualmente de 60% (9 de 15), enquanto no sistema antigo, excluindo terceiros colocados das três melhores ligas do ranking, era de 41,25% (33 de 80).

Campeões na segunda fase

A Rota dos Campeões realmente elevou a média de vencedores das ligas nacionais na fase de grupos. Contudo, a quantidade de campeões classificados para a segunda fase caiu ao longo das últimas três temporadas. Desde a introdução do novo sistema, a média é de 6 campeões entre os 16 melhores times da Champions. Nas dez edições anteriores, era de 7,3.

A única vez em que os vencedores nacionais foram predominantes na segunda fase foi em 1999/00, com nove representantes. Depois disso, em quatro oportunidades os campeões representaram 50% dos times classificados na primeira fase.

Já nas últimas três temporadas, a queda da média ocorreu, mas não pode ser creditada aos times vindos da Rota dos Campeões – que, como já apresentado, mantiveram o aproveitamento do antigo sistema. Em 2009/10, Wolfsburg, Rubin Kazan, Unirea, AZ e Rangers (representantes dos dez primeiros colocados no Ranking da Uefa) caíram na primeira fase; em 2010/11, a situação se repetiu com Benfica, Rubin Kazan, Cluj e Twente; e foi ainda pior em 2011/12, quando Manchester United, Borussia Dortmund, Lille, Porto, Ajax, Shakhtar Donetsk e Otelul Galati foram eliminados precocemente.

Em compensação…
Dinamo Zagreb, com 0 pontos e -19 gols de saldo em 2011/12, é o pior time que já veio da Rota dos Campeões

Se o sucesso dos clubes beneficiados com a Rota dos Campeões e com as vagas diretas na fase de grupos é o mesmo, o fracasso deles é bem maior. Nas últimas três temporadas, 62,5% (15 de 24) dos times que passaram por este caminho foram lanternas de suas chaves, sendo que dez deles sequer venceram uma partida. A porcentagem é bastante superior aos 42,9% (24 de 56) registrados entre 1999/00 e 2008/09.

De fato, Platini ajudou a distribuir melhor os milhões oferecidos pela fase de grupos da Liga dos Campeões entre os países menores. As aparições recorrentes de Bate Borisov ou Dinamo Zagreb, que figuram entre os 32 melhores da Europa pelo segundo ano consecutivo, são bons exemplos. Entretanto, enquanto a probabilidade de que estas equipes repitam uma façanha como a do Apoel é a mesma do sistema antigo, a chance de serem sacos de pancadas é bem superior.