A Premier League reinou quase absoluta na ponta da língua dos analistas e torcedores durante muitos anos deste século como a melhor liga da Europa e do mundo. O aporte financeiro, a capacidade de atrair craques, o equilíbrio, a velocidade e a intensidade das partidas eram os principais motivos.

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Será que isso continua válido? O desempenho recente dos clubes ingleses em competições europeias, com o risco, inclusive, de a Premier League perder a quarta vaga na Champions League para a quebrada Itália, coloca uma pulga atrás da orelha.

Sem falar que melhor ou pior muitas vezes é uma questão subjetiva. Do que você gosta mais? Jogos bons ou divertidos? Da tradição ou das histórias de Davi contra Golias? De seleções mundiais ou do Leicester que se segura na ponta do Campeonato Inglês com as pontas das unhas? Vai de cada um.

Por isso, queremos apenas fomentar o debate apresentando os pontos fortes de Inglaterra, Alemanha, Espanha e Itália para que vocês, leitores, discutam: qual é a melhor liga da Europa?

ALEMANHA
Pep Guardiola (AP Photo/Petros Giannakouris)
Pep Guardiola (AP Photo/Petros Giannakouris)

Guardiola chegou à Alemanha e se surpreendeu: o Borussia Dortmund de Jürgen Klopp era o melhor nisso, mas todos os times, do mais poderoso ao mais fraco, sabiam contra-atacar. Uma característica particularmente preocupante para o seu estilo de jogo de linhas avançadas. Tanto que ele instruiu seus jogadores a serem mais agressivos na pressão para recuperar a bola e tentar matar a construção da jogada do adversário bem no começo. O relato está em Guardiola Confidencial, o livro que acompanha os bastidores da primeira temporada do catalão no Bayern de Munique.

É um dos elementos que fazem Nuri Sahin, meia do Dortmund, com passagens por Real Madrid e Liverpool, considerar a Bundesliga o melhor campeonato nacional do mundo por causa da primazia tática das equipes. “O que a Itália foi para o futebol nos anos noventa, acho que a Alemanha é para os dias de hoje. A Bundesliga realmente se desenvolveu e você pode ver esse sucesso nos times alemães e na seleção alemã”, disse, à revista Kicker. À mesma publicação, Subotic ecoou a opinião do companheiro: “O melhor futebol é jogado na Bundesliga”.

Como a Bundesliga não permite que seus clubes atuem com dívidas, todos eles desenvolveram excelentes academias para a formação de atletas. Ensinam fundamentos, técnicas e a filosofia de jogo rápido da Alemanha desde as categorias de base. Mais da metade dos atletas do Campeonato Alemão é formada em casa. Não é por acaso que a seleção de Joachim Löw, campeã do mundo, tem tanto talento à disposição.

Com bons jovens e uma divisão justa das cotas de televisão, o equilíbrio se destaca na Bundesliga. Fiquei louco, certo? Não. Eu me refiro do Bayern de Munique para baixo, com uma turma de 17 equipes – 16 se você quiser colocar o Borussia Dortmund em uma categoria solitária – bem próximas entre elas. Exemplo: nos últimos dez anos, apenas duas vezes os quatro primeiros colocados foram os mesmos times e nunca respeitando a mesma ordem de posições (2012/13 e 2013/14; 2005/06 e 2007/08).

2014/2015: Bayern de Munique, Wolfsburg, Borussia Monchengladbach, Bayer Leverkusen
2013/2014: Bayern de Munique, Borussia Dortmund, Schalke 04, Bayer Leverkusen
2012/2013: Bayern de Munique, Borussia Dortmund, Bayer Leverkusen, Schalke 04
2011/2012: Borussia Dortmund, Bayern de Munique, Schalke 04, Borussia Monchengladbach
2010/2011: Borussia Dortmund, Bayer Leverkusen, Bayern de Munique, Hannover
2009/2010: Bayern de Munique, Schalke 04, Werder Bremen, Bayer Leverkusen
2008/2009: Wolfsburg, Bayern, Stuttgart, Hertha Berlim
2007/2008: Bayern de Munique, Werder Bremen, Schalke 04, Hamburgo
2006/2007: Stuttgart, Schalke 04, Werder Bremen, Bayern de Munique
2005/2006: Bayern de Munique, Werder Bremen, Hamburgo, Schalke 04

A Bundesliga, mesmo sem grandes astros em todos os times, tem um alto número de partidas boas tecnicamente, rápidas e divertidas. Entre as quatro grandes ligas da Europa, tem a melhor média de gols (2,81 por partida) e de chances criadas (19,4, bem próximo de Inglaterra e Itália, que têm 19,3). Qualquer jogo, de ponta, meio ou pé de tabela, consegue entreter o telespectador, e muitas vezes isso é o que mais importa no futebol.

INGLATERRA
Wijnaldum, o craque do Newcastle (Foto: AP)
Wijnaldum, craque do campeão holandês, foi para o Newcastle (Foto: AP)

Quando os clubes ingleses tirarem o extrato na próxima temporada, terão aquela alegria que poucos conhecem: muito dinheiro na conta. Será o começo do maior contrato de direitos de televisão da história do futebol interplanetário, e qualquer integrante da Premier League, do Bournemouth ao Manchester City, terá bala na agulha para comprar bons jogadores. Os salários serão atrativos para os destaques de outras ligas, até para jogarem nos clubes pequenos e médios ingleses.

Isso, em certa medida, já ocorre na Inglaterra. O Newcastle está na zona de rebaixamento, apesar de ter contratado Wijnaldum, um dos principais jogadores do PSV, campeão holandês. Dimitri Payet e Andre Ayew trocaram o Olympique Marseille por West Ham e Swansea, respectivamente. Yohan Cabaye saiu do Paris Saint-Germain para o Crystal Palace, não por uma superioridade financeira do clube de Londres, mas porque sabia que o meio da tabela da Premier League poderia manter mais ou menos o patamar salarial que tinha nos milionários franceses.

O resultado é que qualquer time da primeira divisão tem jogadores interessantes, que poderiam atuar em grandes de outros países. O Stoke City é um bom exemplo: tem Afellay, que estava no Barcelona; Shaqiri, que passou por Bayern de Munique e Internazionale; Marko Arnautovic, também ex-jogador da Inter; e Bojan, um “novo Messi” que surgiu nas canteras de La Masia.

Não há mais bobo no futebol e, nos encontros entre grandes e não tão grandes da Premier League, a quantidade de 10 a 2 sobre o Rayo Vallecano é reduzida. A maioria das partidas é equilibrada, mesmo colocando frente a frente um candidato a vaga na Champions League, como o Manchester United, e outro que briga contra o rebaixamento, como o Newcastle. E o gol de Paul Dummett no finalzinho dessa partida indica como os clubes lutam sempre até o fim.

Difícil encontrar alguma partida na Premier League que não seja interessante, com personagens ou bons jogadores em campo, e muita intensidade e correria. Os pequenos e médios têm milhões de libras para comprar jogadores e concorrer com os grandes, que têm capacidade de seduzir os principais craques da Europa. A não ser que eles queiram jogar na Espanha.

ESPANHA
Suárez, Neymar e Messi: o trio de ataque do Barcelona (Foto: AP)
Suárez, Neymar e Messi: o trio de ataque do Barcelona (Foto: AP)

Há dois times na Espanha com capacidade de subjulgar financeiramente os clubes da Premier League e não há a necessidade de nomeá-los. Vocês sabem quais são. Com a negociação individual de direitos de televisão, somada a uma abrangência mundial que permite mais poder de barganha com patrocinadores e em acordos comerciais, Barcelona e Real Madrid montaram verdadeiras seleções mundiais.

Analisemos os ataques que ambos conseguiram montar, os famosos trios MSN e BBC. Se Messi foi formado em La Masia, e Benzema foi contratado por uma quantia até que modesta para os padrões do Real Madrid e do inflacionado mercado de transferências de hoje em dia  (€ 35 milhões), veja quais são as quatro contratações mais caras da história, segundo o site especializado Transfermarkt:

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Mesmo o Barcelona que tem a fama de grande clube formador anda mais soltinho no mercado, buscando estrelas para rivalizar com o Real Madrid, que tem nas grandes contratações uma das principais engrenagens da sua máquina financeira e publicitária. Dificilmente algum clube resiste. Nos últimos anos, Manchester United, Liverpool, Milan, Arsenal e Tottenham cederam. Com Paul Pogba e Robert Lewandowski na mira das especulações dos jornais espanhóis, a bola estará em breve com Juventus e Bayern de Munique.

Muitas partidas envolvendo os dois supertimes da Espanha não passam de exibições de talentos e lances bonitos, o que agrada parte do público que gosta de plasticidade. Quando eles se encontram, porém, todos aplaudem. Os grandes clássicos entre Real Madrid e Barcelona são aguardados durante toda a temporada, frequentemente com mais ansiedade do que partidas da Champions League.

Não fosse o bastante, ainda surgiu, nos últimos anos, uma terceira força que dialoga com o coração dos apaixonados pela zebra, pelo primo mais pobre, o underdog que enfrenta os poderosos e milionários de cabeça erguida. O Atlético de Madrid de Diego Simeone foi campeão espanhol, em 2014, e chegou à decisão da Liga dos Campeões. Na atual temporada, esboça novamente transformar a corrida de dois cavalos das terras ibéricas em uma de três, já que lidera La Liga após 20 rodadas.

ITÁLIA
Materazzi e Rui Costa (Foto: AP)
Materazzi e Rui Costa (Foto: AP)

Nas décadas de oitenta e de noventa, a discussão deste post seria inócua. Evidentemente, a Itália era a melhor liga do mundo. Talvez nunca tenha havido uma que esbanjou tantos craques e tanto dinheiro. Com grandes aportes financeiros de empresários e do governo, havia situações que beiravam o absurdo, como atacantes titulares da seleção brasileira (Müller) e argentina (Dezotti) jogando a segunda divisão. Zico, Sócrates, Maradona, Batistuta, Matthäus, Klinsmann, Rummenigge, Platini, Zidane, Gullit, Van Basten, Hagi, Boban, Francescoli, Asprilla, Rush e outros craques daquela época passaram pelo país.

Isso chamou a atenção para muitos clubes italianos, além dos mais conhecidos e vitoriosos, e lhes deu a chances de fazerem bonito em competições europeias. O Napoli levou a Copa da Uefa, Sampdoria e Roma chegaram à decisão da Copa dos Campeões. A Juventus ganhou dois títulos europeus, e o Milan, três. Muitos clubes fortaleceram-se neste momento, e a televisão brasileira fez uma das suas primeiras apostas em transmissões internacionais com o Campeonato Italiano.

É na tradição que a Serie A aposta para ganhar os seus fãs porque, ultimamente, o poder de investimento dos clubes está inversamente proporcional ao que era nessas duas décadas de ouro. Os estádios reformados para a Copa do Mundo que a Itália sediou seguem muito modernos para o ano de 1990, e aqueles empresários milionários sofreram com crises financeiras globais e problemas pessoais ou políticos, como no caso de Silvio Berlusconi, o patrono do Milan.

A única impermeável a essa onda de infortúnios foi a Juventus, que se reconstruiu depois do rebaixamento por causa do escândalo do Calciopoli com boas contratações e um caixa mais robusto, graças à construção do seu novo estádio, nos mais altos padrões europeus. Não venceu as últimas quatro edições da Serie A à toa, e mesmo depois do pior início de campeonato em 53 anos, já aparece na segunda posição da tabela, a dois pontos do líder Napoli, na briga pelo pentacampeonato.

Mas apesar de a competitividade ser baixa, e das únicas estrelas jovens serem Pogba e Dybala, quando Milan, Internazionale, Juventus, Roma, Napoli, Lazio, Fiorentina e outras camisas emprestam suas cores aos estádios ou às televisões, o peso histórico dessas equipes transforma-se em um grande atrativo para o público e é a base a partir da qual deve partir a recuperação de protagonismo no cenário do futebol europeu.