Foi estranha a ausência de Romam Abramovich em Wembley, na decisão da Copa da Inglaterra entre o Chelsea e o Manchester United. Imagens do russo nas tribunas são comuns em jogos importantes dos Blues. Com a janela de transferências da Inglaterra aberta, nenhum negócio foi concluído e pouco se especula na imprensa inglesa. A situação do técnico segue indefinida: tudo indica que Antonio Conte chegou ao fim da linha, e que o preferido para o suceder é Maurizio Sarri, já substituído por Carlo Ancelotti no Napoli. Mas o Chelsea não quis pagar a cláusula de rescisão de € 8 milhões, que expira nesta quinta-feira. Situação também estranha, porque Abramovich já desembolsou altas quantias para contratar treinadores no passado. Para aumentar a sensação de abandono em Stamford Bridge, o clube anunciou que suspendeu o projeto do novo estádio orçado em £ 1 bilhão por tempo indeterminado.

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Abramovich, no momento, parece distante do Chelsea. E, geograficamente, está mesmo. O seu problema envolve veneno, espiões e o governo britânico, mas é muito menos emocionante do que essa descrição sugere. O bilionário russo, com fortuna avaliada em US$ 11 bilhões pela revista Forbes, foi pego no tiro cruzado de uma guerra diplomática entre o Reino Unido e Rússia, motivada pelo envenenamento do agente-duplo russo Sergei Skripal, em Salisbury, no mês de março.

Skripal era um coronel da inteligência militar da Rússia. Em 1995, foi recrutado pelo serviço secreto britânico, enquanto ainda servia ao exército do seu país, e começou a passar a identidade de espiões russos para Londres. Em 2006, foi sentenciado a 13 anos de prisão. Quatro anos depois, foi envolvido em uma troca de prisioneiros entre Moscou e os Estados Unidos. Fixou residência em Salinsbury, no sudoeste da Inglaterra.

Em 4 de março, ele e sua filha Yulia foram encontrados desacordados no banco de um parque da cidade e levados ao hospital. Ambos sobreviveram e já receberam alta. A investigação concluiu que eles foram alvos de um ataque com agentes nervosos. O Reino Unido culpou a Rússia, que nega as acusações, dizendo que foram os próprios britânicos que armaram o envenenamento. Em represália, Londres expulsou 23 diplomatas russos do país. Moscou respondeu expulsando 50 diplomatas britânicos.

Em resposta às negativas de Moscou, a primeira-ministra britânica Theresa May afirmou que não haveria mais lugar para “criminosos e elites corruptas” no Reino Unido, ameaçando congelar ativos do estado russo, “sempre que houver evidências de que eles possam ser usados para ameaçar a vida ou a propriedade de cidadãos e residentes britânicos”. Há dez dias, o secretário de Relações Exteriores, Boris Johnson, indicou que o país poderia se mexer contra oligarcas russos. “Há uma questão mais ampla sobre o que o Reino Unido pode fazer para fechar o cerco em pessoas próximas de Putin que podem ter ficado ricas ilicitamente”, disse, acrescentando que seria “totalmente errado” comentar um caso individual, como o de Abramovich.

Um relatório do comitê de Relações Exteriores da Casa dos Comuns afirmou que estava fácil demais para russos com laços próximos ao Kremlim usarem Londres como “lavanderia”. Em 2015, o país já havia restringido as regras para aceitar investidores estrangeiros. Depois do envenenamento, o Ministério do Interior começou a revisar os vistos de 700 russos que ganharam permissão para ficar por até 40 meses no Reino Unido entre 2008 e 2015, sob o visto “nível 1”, para ricos que pretendem colocar £ 2 milhões ou mais no país.

Este é o caso de Abramovich, que fez a sua fortuna com as privatizações de empresas estatais na década de noventa, logo depois da queda da União Soviética, e é próximo do presidente russo Vladimir Putin. E embora não haja evidências de que tenha feito algo de errado, ou cometido algum crime, o processo de renovação do seu visto está demorando mais do que o normal porque as relações entre Reino Unido e Rússia estão no seu pior momento desde a Guerra Fria. Também foi noticiado que ele poderia ter que explicar a origem da sua fortuna, antes de conseguir regularizar seus documentos.

Enquanto isso, o que fez Abramovich? O bilionário dirigiu-se à embaixada de Israel, em Moscou, e entrou com um pedido de cidadania israelense – à qual ele, como judeu, tem direito. Subiu em um avião para Tel Aviv, comprou uma mansão, segundo a imprensa local, e recebeu documentos confirmando seu novo status. E Israel ganhou um novo “homem mais rico” do país. Abramovich, informa o Jerusalem Post, fazia visitas frequentes ao estado judeu e doou milhões de dólares para causas israelenses na Rússia e para pesquisas médicas em Israel. A publicação também afirma que Abramovich retirou o pedido por um visto britânico. Uma fonte próxima a ele afirmou que “no momento ele não precisa do visto”, e que assim que o Reino Unido estabelecer um novo processo, Abramovich “gostaria de esclarecer qualquer desentendimento e especulação”.

Com passaporte israelense, Abramovich pode visitar o Reino Unido por até seis meses, sem a necessidade de um visto. Mas não pode trabalhar. E aparentemente não está disposto a investir milhões de libras em um empreendimento na capital de um país que lhe negou um visto de residência. “O Chelsea anuncia que suspendeu o projeto do seu novo estádio. O clube não tem um cronograma para reconsiderar esta decisão. A decisão foi tomada por causa do clima desfavorável para investimentos”, afirmou o clube, em um comunicado com ares de indireta.

O novo estádio para 60 mil pessoas seria uma parte importante do futuro do Chelsea. O Stamfod Bridge, com capacidade de aproximadamente 40 mil torcedores, não gera tanta renda em dias de jogos quanto os principais concorrentes dos Blues. Esse dinheiro extra seria essencial para o clube se adequar aos padrões do Fair Play Financeiro no futuro. E embora a Sky Sports noticie que Roman Abramovich permanece “totalmente comprometido com o Chelsea”, e que o dia a dia do clube segue normalmente, o bilionário russo anda distraído demais com outros assuntos recentemente.


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