Pela primeira vez em sua história, o Flamengo teve o gosto de celebrar um título internacional dentro do Maracanã. As duas Libertadores, a Mercosul e a Copa Ouro dos rubro-negros haviam sido faturadas invariavelmente longe do Rio de Janeiro. A Recopa ofereceu a oportunidade inédita, em uma noite na qual pesou o talento do Fla, mas também a dedicação sem a bola. Com um a menos desde o primeiro tempo, o time de Jorge Jesus precisou de muito empenho para não deixar se envolver pelo Independiente del Valle. Já na frente, preponderou o talento de Gabigol e Gerson, que transformaram uma partida até então difícil. Ao final, a vitória por 3 a 0 recompensou a eficiência flamenguista. Permitiu à torcida comemorar um título inédito – e dentro de casa, como fazia falta.

O Maracanã abarrotado empurrava o Flamengo, que tomou a iniciativa desde os primeiros minutos. Porém, o Independiente del Valle dificultava o trabalho dos rubro-negros com sua marcação adiantada, assim como saía rápido ao ataque. O Fla demorou a se sobressair. A primeira chance de gol aconteceu apenas aos 17. Gerson invadiu a área e viu o goleiro Jorge Pinos sair em seus pés. O meio-campista rolou para Gabigol, que bateu com a meta aberta, mas Luis Segovia salvou na pequena área. Ao menos, o gol não demorou aos flamenguistas.

A torcida do Flamengo explodiu aos 18 minutos, muito por conta da lambança cometida por Segovia. O zagueiro tentou recuar e encobriu o goleiro, carimbando o travessão. Gabigol estava atento e só precisou conferir na pequena área, balançando as redes a seu dispor. Só que a alegria do gol logo seria suplantada pela apreensão de jogar com um a menos. Três minutos depois, Willian Arão entrou de sola no peito de Beder Caicedo. O árbitro revisou no vídeo e, com razão, expulsou o volante.

O Flamengo teria que jogar por quase 70 minutos com dez homens. Jorge Jesus tirou Pedro, mandando Thiago Maia a campo, e o Flamengo se fechou mais atrás. O principal escape dos rubro-negros eram os contra-ataques puxados por Gabigol. Assim, quase o Fla ampliou aos 33. Gabigol passou pela marcação e buscou o canto, mas o goleiro Pinos realizou grande defesa. E, por mais que o Independiente del Valle pressionasse bastante, fazendo a equipe de Jorge Jesus se entrincheirar, os equatorianos criavam pouco. O único lance de real perigo veio em uma bola dividida por Jhon Jairo Sánchez, que deixou Diego Alves sem reação e seguiu para fora.

O segundo tempo não mudou tanto, com a iniciativa do Independiente del Valle. A defesa do Flamengo lidava muito bem com o abafa, sobretudo pela forma como protegia a área. E quando Diego Alves precisou ser acionado, também fez a diferença. Angelo Preciado deu o passe a Lorenzo Favarelli, que saiu de frente para o gol e tentou bater cruzado. Com o pé, o arqueiro salvou a pele dos rubro-negros. Concentrado, o Fla cedia poucos espaços aos equatorianos, que precisavam forçar as jogadas. E o alívio se tornou maior com o segundo gol, aos 16 minutos.

Mesmo isolado na frente, Gabigol se movimentava bastante para dar opção aos contragolpes. No lance decisivo, o artilheiro disparou pela direita e passou com enorme velocidade pela marcação, até chegar à linha de fundo. Após o cruzamento rasteiro que a zaga não conseguiu afastar, Gerson apareceu para concluir. O meio-campista também era essencial, não apenas para orquestrar a saída de jogo e dar o combate sem a bola, mas também para se somar mais à frente. Tirou um peso das costas do Flamengo.

Com a vantagem consolidada, o Flamengo não precisou mais jogar no limite. A equipe pôde se soltar mais e passou a encaixar melhor seus contra-ataques, além de prender a bola na frente. A entrada de Vitinho foi importante neste sentido, substituindo De Arrascaeta aos 30 minutos. Logo o ponta exigiu uma boa defesa de Pinos. E a conquista se abriu aos 39, quando Alejandro Cabeza deu uma entrada fortíssima em Léo Pereira. Após mostrar inicialmente o cartão amarelo, o árbitro reviu sua decisão no vídeo e aplicou o vermelho.

Se com a superioridade numérica o Independiente del Valle deveu nas finalizações, as esperanças se esvaíram de vez também com dez. O Flamengo ganhou mais potencial nos contra-ataques com a entrada de Michael e o terceiro gol consumou o título aos 44. O ponta iniciou a jogada, ao roubar a bola e passar de trivela a Gabigol. O artilheiro teve muita calma, esperando o avanço de Vitinho para enfiar a bola. E o camisa 11 não deixou por menos, puxando a marcação, sem qualquer egoísmo ao servir Gerson na área. O meio-campista arrematou a jogadaça com um chute no cantinho, sereno, desencadeando a festa enlouquecida no Maracanã.

O Independiente del Valle, até pelas circunstâncias do jogo, outra vez demonstrou um alto nível de organização e um bom trabalho com a bola. Em contrapartida, o Flamengo tem seus méritos por se adaptar às adversidades e também marcar muitíssimo bem. O placar de 3 a 0, ainda que oculte as dificuldades em mais de 40 minutos, premia a postura dos rubro-negros. Além do mais, a qualidade individual pesou tanto quanto o esforço coletivo. Gabigol e Gerson, especialmente, fizeram a diferença no Maracanã. Mais uma vez, a torcida flamenguista terá uma longa noite para comemorar.