A onda de polêmicas aparentemente desnecessárias em La Liga tem origem na morte do torcedor do Deportivo de La Coruña antes de um jogo contra o Atlético de Madrid, em novembro do ano passado. Desde o incidente, a competição tem tomado uma postura bastante rígida para coibir comportamentos provocativos, estejam eles partindo de torcedores ou jogadores. Desta vez, o presidente da LFP, Javier Tebas, cogita punir Cristiano Ronaldo por fazer o sinal de “calma” para comemorar o gol marcado contra o Barcelona. Um grande exagero, que, ainda por cima, mostra como o antídoto que acreditam ter encontrado para o problema é desnecessário e ineficaz.

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“Precisamos ser cuidadosos com gestos provocativos feitos por um jogadores quando ele marca um gol. Ou com qualquer provocação ou conduta que possa incitar violência entre os espectadores. (A comemoração de Cristiano) Precisa ser sancionada, desde uma multa até a uma suspensão. Iremos analisar isso”, afirmou Tebas nesta terça-feira.

A motivação de La Liga é nobre, mas completamente boba. Esta não foi a primeira vez que Cristiano Ronaldo comemorou um gol pedindo calma à torcida adversária. Ele fez isso várias vezes em jogos contra o Barcelona nos últimos anos (por exemplo, a foto acima é de 2012). Ninguém brigou nos arredores do estádio por causa da celebração do português àquela época, muito menos agora. A tentativa de coibir a violência acabando com provocações já levou a entidade que comanda o campeonato à tolice de querer punir os torcedores do Barça por chamarem o português de bêbado, após imagens do camisa 7 comemorando seu aniversário em estado alterado surgirem na internet. O bom humor dos culés ao responderem a liga, aliás, foi perfeito para quebrar o gelo criado por La Liga, cantando que “Cristiano não bebe água”.

É bom lembrar que a confusão que acabou na tragédia da morte de Francisco Taboada, de 43 anos, antes do Atlético de Madrid x Deportivo de La Coruña, tinha, sobretudo, fundo político. Ultras neonazistas e de extrema-direita entraram em confronto, e a briga teve participação até mesmo de torcedores de Alcorcón e Rayo Vallecano. Não foi consequência de uma provocação em campo, era uma briga premeditada entre grupos que se organizaram para esse fim. É verdade que alguns comportamentos provocativos em campo podem, sim, gerar reações menos controladas em alguns torcedores, mas não algo do nível do gesto de “calma” de Cristiano Ronaldo.

Evitar tragédias como aquela do Vicente Calderón deve, sim, ser uma prioridade de quem comanda o futebol em qualquer país do mundo, mas isso se faz com investigação sobre os grupos que protagonizam essas batalhas, com a aplicação da lei para quem se envolve nesse tipo de atividade, com mobilização em conjunto com autoridades e com orientação sobre como canalizar o amor a um clube de futebol. Não ditando a maneira como o português deve comemorar seus gols.