3 de agosto de 2017. Em Osijek, na Croácia, o PSV cai para o Osijek, por 1 a 0, no jogo de volta da terceira fase preliminar da Liga Europa. Como já perdera na ida (1 a 0, em pleno Philips Stadion, em 27 de julho), o time holandês está fora de qualquer competição europeia – não acontecia desde a temporada 1973/74. Criticado por sua lentidão, que já o deixou no banco durante a derrota, o atacante Luuk de Jong vira o bode expiatório da eliminação, perde a braçadeira de capitão e fica prestes a deixar o clube de Eindhoven. Mas nem isso acontece: as negociações avançadas entre PSV e Bordeaux se interrompem no último dia da janela de transferências. E Luuk de Jong vira um “reserva de luxo”.

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Corta para 15 de abril de 2018: os Boeren vivem um dia de sonho. Conquistam o 24º Campeonato Holandês de sua história, de uma maneira que nem o mais otimista torcedor esperava: com uma vitória inquestionável sobre o arquirrival Ajax, por 3 a 0, num Philips Stadion repleto de torcedores. Luuk de Jong não só é titular, como marca o segundo gol que encaminha a vitória decisiva do título. É o marco de uma reação aparentemente inesperada. Mas só aparentemente. Porque o ambiente interno do PSV mostra um clube sólido, cuja direção já tem um trabalho bem desenvolvido – o que resulta em confiança clara no que Phillip Cocu e os jogadores fazem dentro de campo. Meio caminho andado para controlar a derrapagem do começo, e armar a reação rumo ao final feliz de uma temporada que começou triste.

Essa reação começou porque a dupla que encabeça o comando dos Eindhovenaren não se desesperou. O diretor geral Toon Gerbrands e o diretor esportivo Marcel Brands já estavam com o trabalho encaminhado, e algumas contratações feitas. Uma delas, merecedora de grande aposta: o mexicano Hirving Lozano, trazido do Pachuca em disputa com clubes até mais bem aquinhoados financeiramente. Mesmo as saídas em relação à temporada anterior já tinham reposições prontas. A torcida pedia por Jorrit Hendrix, enfim livre de lesões no joelho? Pois bem, que se liberasse Andrés Guardado, mesmo com a importância do mexicano no bicampeonato de 2014/15 e 2015/16. Jetro Willems já queria sair faz tempo? Muito bem: foi para o Eintracht Frankfurt, com Joshua Brenet enfim tendo uma lateral para chamar de sua. E o novo empréstimo de Marco van Ginkel junto ao Chelsea – pela terceira vez! – acabou sendo providencial para repor a saída de Davy Pröpper, ocorrida já após a queda na Liga Europa. Sem contar os velhos conhecidos: Jeroen Zoet, Santiago Arias, Nicolas Isimat-Mirin, Gastón Pereiro, Steven Bergwijn…

Com Luuk de Jong sob pesada desconfiança, Jürgen Locadia recebeu a chance que tanto desejava: atuando pela ponta nas temporadas anteriores, o atacante jogaria no meio da área, sua posição de origem. De quebra, a importância cada vez maior que a dupla Brands-Gerbrands dá à formação de jogadores teria no time principal um escoadouro para as revelações: Pablo Rosario na defesa, Sam Lammers e Albert Gudmundsson no ataque – sem contar os contratados, como Bart Ramselaar e Mauro Júnior. Porém, o começo na Eredivisie deu a impressão temerosa de que seria difícil: contra o AZ, na primeira rodada, mesmo em casa, o PSV saiu atrás. Pelo menos, Hirving Lozano sinalizou que mereceria confiança: empatou o jogo, e tranquilizou a equipe para ir rumo ao 3 a 2, de virada.

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Estava dada a partida para um ótimo começo de temporada, que minorou a grande ameaça de crise – e, de certa forma, ajudou a encaminhar o título que viria. Já nas primeiras rodadas se viam as qualidades que a equipe ainda tinha. De novo, Van Ginkel justificava a confiança nele, com grande regularidade no meio. No ataque, a dupla Locadia-Lozano ganhou rapidamente o entrosamento para começar a balançar as redes adversárias. Outro novato a se firmar no time titular, Bergwijn justificava a chance recebida, com rapidez.

Resultado: um primeiro turno quase perfeito, com 14 vitórias em 17 jogos. Nem mesmo os tropeços – como a derrota de 2 a 0 para o Heerenveen, na 4ª rodada, com expulsão de Lozano – perturbavam um PSV sólido taticamente, apostando no que de melhor faz: aguentar a pressão adversária e aproveitar as chances de contra-ataque, com eficiência invejável. De quebra, a equipe mostrava uma qualidade para deliciar a torcida: buscava a vitória até consegui-la, às vezes, no lance final do jogo, mesmo que tivesse sido inferior em relação ao adversário. Foi o que se viu contra o Zwolle, na 12ª rodada, fora de casa: Zoet trabalhou bastante, o PSV temeu a derrota, viu o adversário mostrar mais ofensividade… mas num rebote de escanteio, aos 90′ + 3, Nicolas Isimat-Mirin fez 1 a 0, para garantir três pontos.

Problemas? Claro que havia. De vez em quando, o estilo pragmático com que Phillip Cocu armava a equipe trazia pressão desnecessária. Foi o que se viu na quinta rodada: mesmo com a vitória no clássico contra o Feyenoord – 1 a 0 em casa -, Zoet foi o melhor em campo, tantas foram as defesas feitas no segundo tempo para impedir o empate do Stadionclub (com um a menos). No final do turno, a pressão quase voltou a virar crise: no clássico contra o Ajax, em Amsterdã, pela 15ª rodada, Cocu apostou na entrada de Derrick Luckassen, deixando o PSV com três zagueiros, no 5-3-2. David Neres e Lasse Schöne frustraram os planos, o Ajax fez 3 a 0 e se reanimou na disputa do título, e muito se criticou a postura até medrosa dos Eindhovenaren. O resultado da rodada seguinte em nada ajudou: fora de casa, o PSV fizera 3 a 1 no Groningen, já no primeiro tempo. Passou o segundo se defendendo, tomou o segundo gol de pênalti, e o castigo veio nos acréscimos: empate em 3 a 3. De certa forma, deixava claro que, se pressionada em demasia, o miolo de zaga (Daniel Schwaab e Isimat-Mirin) mostrava fragilidades.

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A intertemporada na Florida Cup mostrou fatores inversos: se os empates contra Corinthians e Fluminense deixavam claro como o nível do PSV não era nada impressionante, mais jogadores da base se mostravam capazes de serem usados por Cocu – Sam Lammers, Mauro Júnior e Cody Gakpo agradaram bastante no torneio amistoso. De quebra, vinha a chance para Luuk de Jong provar sua reação: em meio a uma lesão muscular que o tirara dos jogos no fim de 2017, Locadia foi vendido ao Brighton. E o camisa 9 volta a ser o titular no meio da área, precisando mostrar serviço e a mesma eficiência na frente do gol que tivera no bicampeonato – até foi artilheiro da Eredivisie, em 2015/16.

Luuk de Jong mostrou serviço: só nesta metade de 2018, marcou oito gols – a mesma quantidade que marcara em todo o ano passado. De quebra, o PSV seguiu com solidez invejável no meio e no ataque. A alguns, tanta solidez que parecia um time chato. Ficou clássico o “schijtbakkenvoetbal” (“futebol de m….”, em português) com que o técnico Gertjan Verbeek criticou o líder, após o 2 a 0 sobre o Twente, feito com base numa bola parada – Lozano, após escanteio – e num contra-ataque – Arias, nos acréscimos. Mas como falar em “chatice” num líder cuja média de gols é superior à do Feyenoord campeão em 2016/17?

Certo, houve solavancos. O maior deles, a inesperada derrota para o Willem II, na 26ª rodada: sem o suspenso Hendrix, a zaga ficou fragilizada, e o time de Tilburg aproveitou para uma histórica goleada por 5 a 0. Mas o PSV não perdeu seu foco: o título. Enfim confirmado, neste final de semana, para coroar a calma de Marcel Brands e Toon Gerbrands à frente do clube. A maturidade de Phillip Cocu como técnico: conquistando o terceiro título holandês – igualando a marca de Kees Rijvers, histórico treinador dos Boeren -, Cocu já é quase tão marcante como treinador em Eindhoven quanto foi como jogador. A reação simbolizada em Luuk de Jong, de reserva a novamente goleador, e Gastón Pereiro – criticado pela falta de brio, o uruguaio respondeu do melhor jeito: com atuação decisiva contra o Feyenoord, na 25ª rodada, e com o gol que abriu o caminho da vitória do título contra o Ajax.

Virão os óbvios interesses de centros maiores por alguns jogadores – Lozano puxa a fila, e dificilmente ficará em Eindhoven, dependendo do que faça na Copa do Mundo, titular do México que será. Virão interesses até no trabalho dos diretores – Marcel Brands já anda em negociações para fazer parte da direção do Everton. Mas o PSV parece estar preparado, sem se desesperar nem tomar decisões precipitadas como ocorre nos outros dois grandes clubes da Holanda. E seu terceiro título nesta década (nono no século XXI – nenhum outro clube ganhou tanto o Campeonato Holandês) deixa claro: se é difícil imaginar uma agremiação holandesa ocupando papel de destaque no futebol europeu, a curto prazo – talvez a médio, e até a longo prazo -, caso alguma vez isso ocorra, o clube mais preparado e organizado para tomar a frente nesse destaque está em Eindhoven, não em Amsterdã ou Roterdã.

(Texto originalmente publicado no Espreme a Laranja, em 16 de abril de 2018)


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