Não faltavam candidatos a marcar um gol pelo Bayern de Munique na final da Champions League contra o Paris Saint-Germain. Poderia ter sido Serge Gnabry, que vive grande momento e deixou o seu no 3 a 0 sobre o Lyon na semifinal. Poderia ter sido Thomas Müller, que recuperou sua melhor forma sob o comando de Hansi Flick. Poderia ter sido, e muitos esperavam que fosse, Robert Lewandowski, autor de 55 gols na temporada. Quis o destino, no entanto, que em sua primeira decisão de Liga dos Campeões o PSG fosse derrotado por um gol de Kingsley Coman, uma das crias das subutilizadas categorias de base parisiense.

Em sua estratégia ofensiva de atacar com amplitude, virando rapidamente a bola de um lado para o outro, o Bayern encontrou o caminho para o gol do título. Um cruzamento milimetricamente preciso de Kimmich pousou na cabeça de Coman, que finalizou para vencer Navas e decretar o 1 a 0 sobre o PSG.

Em uma realidade alternativa, o francês, de 24 anos, esteve do outro lado desta final. Com um cruzamento de Ikoné, após pivô de Moussa Dembélé, Coman batia para fazer o gol e dar o título ao PSG. Essa realidade, no entanto, não é a que vivemos. Ikoné não teve chances em Paris e hoje brilha no Lille. Dembélé é referência no Lyon, depois de sair também da base parisiense. E Coman mal jogou profissionalmente pelo PSG antes de ir para a Juventus em 2014 e, desde então, vencer todas as ligas nacionais que disputou – agora, acrescentando um importante título europeu ao currículo vencedor.

A brincadeira acima serve não para apontar que uma gestão focada primariamente em desenvolver e utilizar jogadores da base fosse trazer o tão esperado sucesso ao PSG, mas para apontar os riscos que o clube assume ao deixar tantos grandes talentos crescerem em suas dependências e, quando formados, irem brilhar por concorrentes europeus. Além, é claro, de servir de lembrança do que ainda falta a um clube hoje bilionário, de grande sucesso comercial e fama crescente em todo o mundo.

De tão rico que é e de tantas opções que têm no mercado, o PSG acaba formando elencos estrelados, com jogadores contratados por altas quantias, em detrimento dos jovens atletas que ele mesmo forma em suas instalações. Os subúrbios de Paris são hoje uns dos principais celeiros de futuros craques no mundo. Clubes de todas as partes da Europa já entenderam isso e vão observá-los na capital francesa e, quando possível, recrutá-los. E, até agora, como mencionamos em coluna recente, são justamente os outros que têm tirado proveito disso, e não o próprio clube desta capital.

Assim como Coman, Tanguy Kouassi, zagueiro revelado pelo PSG e de enorme potencial, defenderá o Bayern de Munique na próxima temporada, tendo estreado profissionalmente pela equipe parisiense há apenas nove meses. Exemplos como os dois podem ser encontrados aos montes na França e no restante da Europa: Mike Maignan, Boubakary Soumaré e Jonathan Ikoné no Lille, Moussa Dembélé no Lyon, Yacine Adli no Bordeaux, Adil Aouchiche no Saint-Étienne, Mattéo Guendouzi no Arsenal, Christopher Nkunku no RB Leipzig, Moussa Diaby no Bayer Leverkusen e Edsonne Édouard no Celtic.

Como único clube realmente competitivo a nível nacional localizado na capital francesa, o Paris Saint-Germain é um símbolo importante a crianças e adolescentes de alto potencial que sonham se tornar profissionais. Se tivesse um caminho claro da base à equipe principal, o PSG poderia construir uma cultura de alta competitividade e de alta importância para a própria manutenção do clube como elemento inserido na sociedade parisiense. Todos os craques que hoje crescem nos conjuntos habitacionais ao redor de Paris poderiam estar se desenvolvendo para um dia jogar no Parque dos Príncipes, diante de suas famílias e seus vizinhos.

Este, é claro, não é o único caminho a se seguir para se tornar um clube vencedor a nível continental. Como a campanha desta temporada provou, uma hora o investimento maciço e contínuo em contratações de alto nível algum dia deverá levar à sonhada conquista da Champions League, mas o legado que isso deixará não será o mesmo que uma construção mais equilibrada, de mistura entre contratações e produção de seus próprios atletas, ofereceria.

Que o fatídico gol de Coman neste domingo, tão simbólico quanto irônico, sirva de alerta para que o PSG veja com mais carinho a sua própria academia.