O Paris Saint-Germain chega a março com a temporada acabada. Não literalmente, já que restam três meses de trabalho pela frente. Três meses desinteressantes, ao longo dos quais o clube deverá cumprir seu favoritismo na Ligue 1 e reconquistar o título, além de tentar completar a tríplice coroa na Copa da França e na Copa da Liga Francesa. Pouco, para quem quebrou recordes de transferências e despejou milhões no mercado. Pelo nível de ambição dos parisienses (e dos catarianos), apenas a Liga dos Campeões pode atestar a real grandeza do projeto. Outra vez, o clube sequer chega longe na competição. Já são seis temporadas consecutivas caindo nas oitavas ou nas quartas de final. A semifinal de 1994/95, feito do timaço liderado por Raí e George Weah, ainda é sonho distante aos magnatas que controlam o futebol no Parc des Princes atualmente.

Há quem prefira fazer ponderações. “Ah, era o Real Madrid do outro lado”. De fato, era o Real Madrid, um adversário que merece muitíssimo respeito por sua história e por seu presente. Houve uma boa dose de azar no sorteio, ao pegar o mais duro dos segundos colocados. Mas, no fim das contas, o PSG não passou de um sparring de luxo dos merengues. Ajudou a elevar o moral do time de Zinedine Zidane que, desacreditado após meses inconstantes, volta a se impor de maneira irrefutável. Algo que, nesta terça-feira, contou com uma contribuição salutar dos parisienses.

“Ah, mas o PSG estava sem o Neymar”. Sim, estava. E para quem prefere ver o copo meio vazio, isso torna a situação ainda mais dramática. Sem o seu principal jogador, o time de Unai Emery não se encontrou. Defensivamente, exceção feita a Daniel Alves, não foi uma atuação tão ruim. Conseguiram segurar o Real Madrid na medida do possível, até que a falta de perspectivas e a desvantagem numérica ruísse quaisquer planos. Mas ofensivamente, os parisienses foram nulos. Justo ofensivamente, no ataque forjado pelos milhões do Catar. O sistema defensivo merengue jogou demais, com a abnegação de seus jogadores e o posicionamento perfeito. Mas o que o PSG fez para mudar o cenário?

Adrien Rabiot não se encontrou, perdido em meio à bagunça de sua equipe. Marco Verratti até tentou, mas estava abusando da força e contavam-se os minutos por sua expulsão. Viu-se distante de demonstrar o talento na armação que possui, mas que nem sempre aparece. Ángel Di María foi quem mais salvou, pelo primeiro tempo em que buscou a responsabilidade, mas se via isolado. Kylian Mbappé permanece abaixo da crítica e pecou pelo individualismo. Por fim, Edinson Cavani não conseguiu se conectar com os companheiros nem quando estava livre e, no mais, confundiu vontade com excesso de nervos, pilhado demais.

Mas e do lado de fora? Que alternativa o Paris Saint-Germain teve? Pareceu um time mal treinado, limitado a inverter seus pontas como única resposta à marcação cerrada dos visitantes. Fez pouquíssimo no primeiro tempo. E no segundo também não conseguiu ser melhor, mesmo depois das alterações. Ok, a expulsão de Verratti atrapalhou. Só que em nenhum momento os franceses ameaçaram de verdade a classificação do Real Madrid. Ao final, a entrada de Lassana Diarra, no que pareceu sob intenção de evitar uma goleada, só enfatizou a mediocridade no Parc des Princes. A torcida, que ofereceu um apoio descomunal durante as últimas semanas e no jogo, tinha razão de vaiar. Não era só uma questão de dar “espetáculo”. Era uma questão de comprometimento, o que não se viu.

Neymar foi motivo de muitas críticas no jogo de ida, no Santiago Bernabéu, embora o Paris Saint-Germain tenha rendido mais coletivamente – até se desencontrar com a mudança tática proporcionada por Zidane. Sem o seu homem de referência, pareceu um time comum, longe do desempenho avassalador da temporada. Um desempenho que, no fim das contas, acaba maquiado pelo desnível da Ligue 1. Além das fronteiras, o PSG teve uma vitória categórica. Uma, e contra o rachado Bayern de Munique de Carlo Ancelotti. Quando se reencontrou com os bávaros, já sob as ordens de Jupp Heynckes, pouco fez. E diante do Real Madrid, a lucidez em períodos do jogo na Espanha pouco rendeu no placar agregado. O saldo é desanimador.

Há mais três meses de temporada. Três meses já para se repensar. Unai Emery fez um trabalho louvável no Sevilla, mas as decisões questionáveis em Paris parecem encaminhar sua demissão. Não se provou um técnico de ponta, como muitos pensavam que fosse. Sequer conseguiu gerir o elenco de estrelas, com tantas polêmicas acumuladas. E quem será o homem certo para assumir o time? Difícil dizer. Mas a aposta tende a ser em alguém de peso. Alguém que consiga fazer jus ao investimento e, sobretudo, alguém que imponha respeito aos jogadores. Os próximos meses de marasmo, aliás, são um desafio para a própria convivência dos jogadores. Neste sentido, a ausência de Neymar é até oportuna, para se afastar de possíveis atritos. De qualquer forma, é o momento de superar estrelismos e fechar o grupo em torno do objetivo. Vai ser possível?

Diante da lógica das últimas temporadas, o PSG tende a despejar mais alguns milhões no próximo mercado para “tentar ser grande”. Precisa perceber que, antes disso, é necessário ser um time. Ter coesão em um grupo que, quando a exigência cresceu, não correspondeu. A noite desta terça é completamente decepcionante para quem confiou no potencial desta equipe, porque não se viu uma equipe. Trazer um ou outro reforço (e, diga-se, reforço, e não astro que venha por dinheiro ou glamour) sem se azeitar o conjunto, de qualquer forma, não adianta. E aí está o ponto-chave para 2018/19, quem sabe para quebrar a barreira das semifinais na Champions: pensar no todo, não apenas nas partes. Especialmente, sob as ordens de alguém que saiba conduzir este trabalho da maneira adequada, com todas as particularidades.

Os três meses restantes, ao menos, servem para traçar o futuro e colocar ordem na casa. Antes de querer ser Real Madrid ou Barcelona, o PSG deveria olhar um pouco mais para os sucessos passados, especialmente na década de 1990. O verdadeiro momento de grandeza do clube oferece o exemplo de um time de craques, mas, acima de tudo, um time –  e que assim, dentro de suas possibilidades, fez história.


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