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Ainda que carregue suas particularidades, a saída de Tanguy Kouassi do Paris Saint-Germain para o Bayern de Munique é apenas o exemplo mais recente de um jogador de grande talento sendo formado nas categorias de base do clube parisiense para depois buscar cumprir seu potencial em outra equipe europeia. Dispondo de um dos berços mais prolíficos de jogadores de qualidade em seus arredores, o PSG precisa encontrar uma maneira de incluir suas revelações das categorias de base em seu ambicioso projeto de um dia vencer a Champions League.

Com um objetivo tão grande e um orçamento que não encontra paralelo no futebol mundial, não podemos esperar que o Paris Saint-Germain se torne um clube com foco muito grande em jogadores de base. Ter estrelas como Mbappé e Neymar faz parte também da identidade hoje construída pela equipe. Entretanto, é necessário um equilíbrio maior entre medalhões, estrelas e garotos da casa, sobretudo para ter um canal atrativo para promover a profissionalização do talento que transborda em Paris.

Atualmente, é difícil para os jogadores da base verem um caminho claro até o time principal. Kouassi é uma exceção neste sentido, já que já havia se colocado na equipe e, com a provável saída de Thiago Silva, teria mais minutos na próxima temporada. Outro talento atual, no entanto, ilustra bem isso. Adil Aouchiche é um dos adolescentes de futebol mais empolgante na França, mas o histórico do PSG não indicava que o garoto poderia ter uma transição garantida ao time titular, por mais talentoso que seja. Neste cenário, deixou seu contrato correr e, desde esta semana, está livre para assinar com qualquer clube que seja. Seu destino mais provável, por enquanto, é o Saint-Étienne.

Adil Aouchiche, revelação do PSG, seguirá seu percurso em outra equipe (Divulgação/PSG)

Por vezes, os grandes talentos parisienses sequer chegam a integrar as categorias de base do clube. Mesmo próximos geograficamente, preferem ir a outras equipes da França, com histórico de oferecer mais oportunidades aos garotos. Pogba, com 14 anos, se juntou ao Le Havre, enquanto Mbappé foi ao Monaco. Este último é um exemplo ainda mais contundente na falha do processo do PSG, que anos depois pagou € 145 milhões para tirá-lo do clube do Principado.

O Mundial parisiense

A última Copa do Mundo, como nenhuma outra anteriormente, ilustrou bem o peso que a Grande Paris tem hoje na formação de jogadores para o futebol de elite. Nenhum país teve mais jogadores nascidos em seu solo disputando o Mundial de 2018 do que a França (52). Destes, 15 vieram de Paris. Na seleção francesa que acabou levando a taça, oito dos 23 convocados vieram da Grande Paris: sete deles nascidos lá (Mbappé, Pogba, Kanté, Mendy, Areola, Kimpembe, Nzonzi) e um tendo crescido na região, Matuidi. O número poderia ter sido ainda maior, já que, por questão física ou técnica, alguns nomes acabaram de fora por pouco: Martial, Coman e Rabiot.

Segundo o site RunRepeat, no acumulado das últimas cinco Copas do Mundo, entre 2002 e 2018, Paris foi a cidade com mais jogadores na competição (60). Segunda colocada, Buenos Aires aparece com 50, enquanto Montevidéu fecha o pódio, com 49.

Jogadores e técnico da França comemoram título da Copa (Getty Images)

O talento que floresce nos subúrbios da capital francesa é inegável, fruto de uma conjunção de fatores. São comunidades em geral carentes, onde jovens crescem vendo poucos caminhos para o sucesso, um deles sendo o futebol. As opções de lazer são também mais limitadas do que em lugares mais afluentes, e o hobby principal da garotada é o futebol. A configuração geográfica traz diversos prédios e, entre eles, diversos campos, seja de concreto ou com grama. Por fim, a estrutura formada pela Federação Francesa, que organiza campeonatos em diversas faixas etárias, envolvendo diferentes clubes amadores, e tem sua própria academia de base, a Clairefontaine, traz a organização a esse fluxo dinâmico de talentos que vêm e vão por aquelas ruas.

Evidentemente, não podemos cobrar do PSG que contrate e dê espaço para todos esses talentos. O número é simplesmente muito grande – a concorrência também. Clubes de toda a Europa têm inúmeros olheiros na capital francesa, e é preciso fazer cada vez mais para se distinguir e ganhar a confiança desses garotos. Ao perpetuar sua cultura de não oferecer um caminho para o time principal, o PSG vai ficando cada vez menos atrativo para esses garotos locais, que teriam tudo para representar o clube com que teriam um laço especial.

Paciência curta

No ano passado, o PSG tomou a decisão de acabar com seu time B. A equipe jogava na quarta divisão e tinha como objetivo chegar até a Ligue 2, emulando o que o Real Madrid faz com o Castilla. No entanto, atualmente o regulamento não permitiria que o clube tivesse uma segunda equipe na segunda divisão. Antero Henrique, então diretor de futebol, mantinha discussões com a Federação Francesa para mudar isso, mas não conseguiu, e por isso a equipe foi encerrada.

O propósito do time B era ser uma ponte entre o sub-19 e o time principal. Entretanto, o desafio não era suficientemente grande na quarta divisão e tampouco seria na terceira. A decisão do PSG significa que, agora, seus jogadores da base têm até os 20 anos de idade para provar que é bom o bastante para entrar na equipe principal ou ser emprestado ou negociado em definitivo com outros clubes – embora os empréstimos do PSG sejam para inglês ver. Exemplos mais recentes, os atacante Timothy Weah e Odsonne Édouard foram inicialmente emprestados, mas acabaram negociados em definitivo com Lille e Celtic mais tarde.

Embora jogadores como Haaland, Mbappé, Rodrygo e Vinícius Júnior tenham mudado nossa percepção, o fato é que a grande maioria dos jogadores, mesmo os que se tornam peças relevantes no futebol europeu, não chegam a atingir nível tão grande tão cedo.

Hoje, são vários os nomes de atletas empolgantes saídos do PSG desenvolvendo seu futebol em clubes de todos os patamares na Europa. Dentro da França, Jonathan Ikoné, Boubakary Soumaré e Mike Maignan se firmaram como alguns dos melhores da liga, defendendo o Lille, Moussa Dembélé é destaque no Lyon depois de rodar pelo Reino Unido, enquanto Adli mantém grande potencial e busca se desenvolver no Bordeaux. Em outros países, vemos Guendouzi no Arsenal, Coman no Bayern, Nkunku no Leipzig, Diaby no Leverkusen, Edsonne Édouard no Celtic, todos com futuro promissor pela frente, ao mesmo tempo em que já entregam resultados no presente.

Quando chegou ao PSG, a QSI, de Nasser Al-Khelaïfi, tinha como objetivo não só contratar grandes estrelas, mas formar dentro do clube alguns desses enormes talentos do futuro. O investimento nas categorias de base desde então tem sido grande, mas parece faltar coesão, e as trocas no comando certamente enfraquecem o processo. Ainda assim, o clube foi capaz de revelar todos esses nomes citados acima e muitos mais que por ora voam fora do radar. Com maior unidade, continuidade e, sobretudo, um caminho claro para o time principal, o Paris Saint-Germain poderia criar um modelo sustentável de se diferenciar dos concorrentes europeus. Dá trabalho, mas está claro que também dá frutos.