Erros são, na melhor das hipóteses, oportunidades de aprendizado. O PSG, então, assimilou muito bem as lições de temporadas passadas de fracasso nas oitavas de final da Champions League para tirar o melhor delas. Precisando reverter derrota por 2 a 1 no jogo de ida, os parisienses fizeram um jogo confortável contra o Borussia Dortmund nesta quarta-feira (11). Sóbrios, calmos e com uma boa execução do plano de Thomas Tuchel, sobraram em campo para sair vencedores por 2 a 0, em confronto marcado pelas arquibancadas vazias no Parque dos Príncipes, em medida de precaução contra a disseminação do Coronavírus.

O PSG foi dominante no primeiro tempo, do início ao fim. Já nos primeiros 15 minutos observávamos um jogo de uma só direção, e esta era o gol defendido por Roman Bürki. Ainda assim, o Dortmund se fechava bem em suas linhas. Sem a bola, o time de Lucien Favre estava bem postado em um 5-4-1.

Com dificuldade de criar jogadas no jogo apoiado, o time da casa apostava por vezes em bolas longas, mas essas, igualmente, não geravam perigo ao gol aurinegro. A estratégia do Dortmund, no entanto, não era apenas se fechar atrás. Havia a tentativa de ir ao ataque, ou mesmo de subir as linhas de marcação, na esperança de forçar um erro de saída de bola do PSG.

Foi em uma dessas subidas ao ataque do Dortmund que o Paris conseguiu encontrar um bom caminho para chegar com perigo ao gol adversário. Em contra-ataque em velocidade puxado por Neymar pela esquerda, aos 15 minutos, o brasileiro completou seu avanço com um passe de quebra de linhas para Di María. A interceptação da zaga na última hora foi providencial, mas deixou o mapa da mina pronto aos parisienses.

Aos 18 minutos, o Dortmund teve seu primeiro bom momento. Perigoso como sempre em suas subidas pela direita, Hakimi cruzou rasteiro, Haaland quase alcançou de carrinho, e Guerreiro pegou a sobra. Vendo Sancho sozinho à beira da área, o português jogou pelo alto para o inglês, que acertou um sem pulo, mas sem direção, rumo à linha de fundo.

Ángel Di María, até ser substituído aos 34 minutos do segundo tempo por Layvin Kurzawa, foi um dos grandes escapes criativos do PSG, e foi de seus pés que veio a primeira grande chance dos anfitriões. Aos 25 minutos, o argentino tocou entre defensores aurinegros para Cavani. O uruguaio ficou livre na frente de Bürki, bateu cruzado, rasteiro, mas parou em grande defesa do goleiro, que desviou para escanteio.

Três minutos depois, o PSG deu início à sua vitória. Após escanteio cobrado por Di María, a defesa do Dortmund vacilou dentro da zaga e deixou Neymar livre. De peixinho, na pequena área, o brasileiro abriu o placar aos parisienses.

O gol era tudo de que o time de Tuchel precisava. Com ele, mais situações de contra-ataque seriam criadas, já que o 1 a 0 classificava o PSG, devido ao gol marcado fora de casa, na ida. O Dortmund, sem alternativas, lançou-se ao ataque, sobretudo com Jadon Sancho. O inglês levou perigo em cobrança de falta, defendida por Navas, e com a bola rolando, pela esquerda, tabelando e finalizando com força, para mais uma defesa do costarriquenho.

Segurando a resposta do Dortmund sem correr grandes riscos, o PSG então ampliou sua vantagem no duelo em contra-ataque. Nos acréscimos do primeiro tempo, aos 46 minutos, Juan Bernat roubou a bola no meio de campo e pegou o time alemão desprevenido. Então, tocou para Neymar, e o brasileiro fez boas fintas antes de soltar para Di María. O argentino então abriu pela direita com Sarabia, que cruzou rasteiro. Na origem do lance, Bernat chegou também para finalizá-lo, desviando e tirando de Bürki: 2 a 0.

Com as cicatrizes e os aprendizados das inúmeras “remontadas” das temporadas passadas, o PSG foi inteligente no segundo tempo. Mantinha o perigo longe de seu gol não ao entregar a bola e se defender, mas, sim, ao não ter pressa para definir as jogadas quando tinha a posse. Pelo placar alcançado no primeiro tempo, permitiu ao Dortmund ter a bola, mas foi uma posse estéril. Em toda a segunda etapa, manteve o Dortmund a uma distância segura. De quebra, ainda teve chance de ampliar, quando Di María cobrou falta de longa distância de forma magistral, forçando Bürki a uma grande defesa, espalmando para escanteio.

Mbappé, poupado por ter sido acometido por uma gripe nos últimos dias, entrou aos 18 do segundo tempo no lugar de Sarabia, oferecendo uma opção de maior velocidade ao PSG em um cenário de contra-ataques. Entretanto, sequer teve muitos deles, diante da incapacidade do Borussia Dortmund de criar jogadas perigosas no ataque para quebrar a boa marcação parisiense.

Para piorar a situação aos aurinegros, aos 44 minutos do segundo tempo, Emre Can foi expulso por empurrar Neymar após ter feito falta no brasileiro. Com pouco tempo restante, pouco mudou para o Dortmund. O PSG gastou o tempo até poder respirar o alívio da classificação.

O Paris Saint-Germain, com um passado manchado por eliminações surpreendentes e engasgadas monumentais de seu time de craques, fez diante do Dortmund a partida que o momento exigia.

Se no jogo de ida o excesso de precaução significou um time sem criatividade e que colocava muita fé na bola longa, na volta os parisienses souberam equilibrar as estratégias. Dominaram as ações até abrir o placar e, com a vantagem, executaram à perfeição o plano de dar apenas o espaço necessário ao time adversário para poder machucá-lo no contra-ataque.

Mentalmente, pareceu forte o tempo todo. Soube levar a partida não só tecnicamente, mas também na cera leve em alguns momentos do jogo, como quando Di María estendeu sua estadia no chão antes de ser substituído. Ou quando prolongou o entrevero com Emre Can em um empurra-empurra que apenas tirou mais ritmo do Borussia Dortmund.

Depois de quase se desmantelar por uma derrota comum na ida, assombrados pelos fracassos passados, o PSG deixa o fantasma das últimas campanhas para trás, avança às quartas de final da Liga dos Campeões e, em um torneio ainda muito aberto, sem claros favoritos, pode ter sua melhor chance de título inédito.