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Uma das palavras que mais ouvimos falar desde que a pandemia tomou conta das nossas vidas é “protocolo”. No compreensível desespero para conter o espalhamento da doença e, depois, para retomar as atividades, governos e autoridades de saúde em geral passaram a criar os tais protocolos.

Foi assim no Campeonato Italiano, com o Comité Técnico Científico formado pelo governo italiano como responsável pela elaboração de um protocolo para que o futebol fosse retomado, junto às autoridades do futebol, a FIGC (Federação Italiana de Futebol) e a Lega Serie A, que administra o Campeonato Italiano.

O problema é que esse tal protocolo parece mostrar falhas com surtos nos times e um jogo que já não aconteceu – e ninguém sabe se a situação se repetirá. O que vimos acontecer no fatídico caso Juventus x Napoli é um alerta do que pode ser uma realidade daqui para frente. O que o episódio mostrou é que as autoridades do futebol não estão preparadas para isso.

FIGC e Lega Serie A acreditam que o protocolo existente é suficiente. É aquele mesmo usado na Champions League, pela Uefa, e também no Brasil, que diz que se o time tiver ao menos 13 jogadores disponíveis, sendo um deles um goleiro, o time deve ir a campo. O problema é que o próprio protocolo inclui um item que permite às autoridades de saúde locais intervirem, caso achem necessário. No caso da Campânia, onde fica o Napoli, ela interveio. O time não viajou, o jogo não aconteceu e ainda não se sabe o que será feito. O Napoli será punido por seguir a orientação da autoridade de saúde? O jogo será remarcado? E se isso acontecer de novo?

Ainda temos a situação do Genoa. O clube tinha dois casos de COVID-19 no elenco. Seguiu o protocolo, isolou os jogadores e foi para o jogo com o Napoli com os jogadores que deram negativo nos testes. Na semana seguinte, o Genoa tinha outros 15 infectados, com vários dos jogadores que foram a campo, e o Napoli tinha dois casos da doença do novo coronavírus. Foi justamente esse o ponto que fez com que a autoridade de saúde da Campânia decidisse por instruir o Napoli a não viajar a Turim.

O caso do Genoa é insano. São 22 infectados, com 17 jogadores, e o clube não tinha elenco para o jogo contra o Torino no fim de semana passado. Por isso, foi adiado. A liga, porém, queria remarcar o jogo já para a data Fifa, o que, claro, não foi aceito pelo clube. O jogo foi remarcado para o dia 4 de novembro.

Com tantos casos no elenco, o Genoa teve que fazer um isolamento do elenco. Isso impediu os treinamentos coletivos. Sem treinamentos regulares, o time perde força, evidentemente. Por isso, o Genoa já anunciou que levará o seu time Primavera (que é o time sub-21) para a partida contra o Verona, na segunda-feira, 19 de outubro.

“Iremos para Verona com o time Primavera. Os dias estão passando e nada foi decidido. Eles queriam que remarcássemos o jogo contra o Torino para o meio da semana, é incrível”, contou Daniele Faggiano, diretor esportivo do clube, nesta quinta-feira.

A próxima rodada da Serie A tem também o Derby della Madonina entre Internazionale e Milan. Os dois times tiveram novos casos de COVID-19 nos seus elencos. A Inter agora tem Roberto Gagliardini, Radja Nainggolan e Ionut Radu infectados, que se somam a Milan Skriniar e Alessandro Bastoni, que já tinham dado exame positivo.

Bastoni testou positivo nos exames para a data Fifa com a seleção sub-21 da Itália. Ele e Matteo Gabbia, que é do Milan, testaram positivo. Foram quatro casos positivos na seleção italiana de base, o que fez com que o jogo contra a Islândia fosse adiado.

Gabbia foi o terceiro caso de COVID-19 no elenco do Milan, depois de Leo Duarte, ex-Flamengo, que testou positivo no fim de setembro, e ainda não teve um exame negativo para liberá-lo. O outro caso é Zlatan IBrahimovic, que, para sorte do Milan, já deu negativo depois de estar infectado.

O problema desse tipo de caso é que o que temos visto é que eles aumentam nos elencos. A Inter está treinando individualmente, para não misturar os jogadores e aumentar o risco de infecção. Só que se não se treina coletivamente, não há um treino e o time sofre. Os próximos dias devem ser essenciais para saber se não teremos novos casos nos dois times.

“Qualquer coisa pode acontecer porque qualquer um que esteve em contato próximo com alguém que teve um teste positivo realmente tem que ir para a quarentena. Quando há uma primeira leva de casos positivos, então o segundo, eles precisam entrar em rotinas de treinamento individual, para que os novos casos positivos não infectem mais ninguém. O protocolo da FIGC é ridículo quando se trata da questão do isolamento”, afirmou Massimo Galli, chefe do departamento de doenças infecciosas no Hospital Sacco, em Milão. Ele falou em entrevista à Rádio Punto Nuovo na quinta-feira.

“Eu espero que nós possamos continuar a ter partidas de futebol, mas não é razoável correr riscos. Devemos fazer tudo com bom senso. No momento, o protocolo estabelecido pelas autoridades do futebol não aguenta o escrutínio. A intervenção da ASL [Autoridade de Saúde Local] é inevitável e isso ficou claro no último decreto do governo”, continuou Galli.

O temor em não terminar os jogos existe e fez com que o Ministro do Esporte da Itália, Vincenzo Spadafora, cobrasse publicamente que houvesse um plano B. Segundo a FIGC e a Lega Serie A, o ministro foi atendido e as ideias estão sendo consideradas, tanto em um playoff quanto uma fase final com oito equipes.

A essa altura dos acontecimentos, é impossível saber o que vai acontecer. Há um risco grande de termos mais jogos adiados, que não aconteçam por intervenção de autoridades de saúde. O principal a essa altura, porém, é discutir o protocolo. Parece óbvio que será preciso revisitar as normas e rever como melhorá-las. Mais do que isso, torná-lo mais seguro. Do jeito que está, é até questionável se deveríamos ter os jogos como aconteceram na última rodada.