Tudo parecia que daria errado. O Brasil fez uma fase final de pré-olímpico ruim, depois de passar com sobras na primeira fase. Sentiu as dificuldades quando o nível subiu um pouco e o time ficou travado, estático, sem conseguir executar suas ideias. Por tudo isso, o Brasil chegou ao último jogo do torneio com uma missão ingrata: vencer a Argentina, que chegou já classificada e é a melhor equipe do torneio. E o Brasil parece que entendeu a missão. Com alterações, de jogadores e de posicionamento, o time entrou com a faca nos dentes, executando bem o seu jogo, organizado no ataque e não só venceu: amassou a Argentina. Os 3 a 0 no placar ficaram até baratos pelo volume da Seleção.

O Brasil veio a campo com mudanças. Reinier ganhou vaga no time titular, com a saída de Anthony, que vinha mal. Ricardo Graça substituiu Nino, suspenso, e formou a zaga ao lado de Bruno Fuchs. Caio Henrique entrou no lugar de Iago na lateral esquerda. Assim, o time mudou um pouco em relação ao que vinha fazendo. E mudou taticamente também.

Ao invés do 4-2-3-1 dos jogos anteriores, um 4-4-2, com a linha de quatro do meio-campo com Bruno Guimarães e Matheus Henrique pelo centro, mais atrás, e Pedrinho pela direita e Reinier pela esquerda com liberdade para chegarem à frente. Paulinho virou atacante, centralizado ao lado de Matheus Cunha. Parecia uma mudança arriscada do técnico André Jardine. Foi precisa.

Mudanças drásticas para um time que vinha mal, sem conseguir render, e contra o adversário mais difícil até aqui. Incrivelmente, o time melhorou em muitos aspectos. E logo aos 12 minutos, Pedrinho, pela ponta direita, deu ótimo passe para Paulinho, que dominou no peito e tocou para marcar: 1 a 0.

Faminto em campo, o Brasil seguiu em cima no ataque, com uma marcação voraz já no campo de ataque. Em uma excelente troca de passes, Caio Henrique recebeu na esquerda e cruzou rasteiro para o meio. Matheus Cunha finalizou de pé esquerdo e a bola bateu no travessão. Houve um pequeno desviou no meio do caminho, nas costas do defensor.

A Argentina falhou e o Brasil aproveitou. O zagueiro Nehuén Pérez tentou o recuo, que ficou curto. Matheus Cunha chegou antes do goleiro Cambese, deu um chapéu no arqueiro, se esforçou e deu um carrinho para tocar na direção do gol. O zagueiro, porém, se recuperou e conseguiu salvar em cima da linha. Cunha, conseguiu levantar e ficar bom a boa, quase na linha do gol. Ele chutou forte para marcar – e acertou o zagueiro argentino dentro do gol: 2 a 0, aos 29 minutos.

Matheus Cunha ainda tentaria o terceiro gol em um chute colocado de fora da área, buscando o canto, mas a bola foi fora. Aos 35 minutos, o Brasil desperdiçou uma imensa chance de ampliar. Reinier recebeu de Matheus Cunha, mas não conseguiu dominar. Mesmo assim, chegou antes da marcação, deu um toque na frente e saiu com campo para correr. Tinha muito espaço e Paulinho livre pelo meio, mas correu, correu, correu e não tocou a bola para o meio. Tentou a finalização, quando o goleiro já fechava bem o ângulo.

Com Reinier no meio, o Brasil ganhou em presença física. Mesmo jogando por vezes aberto pelo lado esquerdo, o meia do Flamengo, vendido ao Real Madrid, caía pelo meio, fosse para encurtar os espaços e fazer uma marcação mais forte, ajudando os volantes, seja para se aproximar dos atacantes. Com ele por ali, na esquerda, sempre próximo dos atacantes, e com Pedrinho aberto na direita, o Brasil ganhou muito de jogo, algo que não vinha acontecendo. A associação dos jogadores funcionava melhor.

No início do segundo tempo, o Brasil voltou um pouco mais recuado, dando campo para a Argentina. Não criava muito e via a Argentina se aproximar. Mas antes que os argentinos conseguissem criar qualquer coisa, o Brasil marcou o terceiro.

Um lateral cobrado com inteligência, rápido, encontrou Matheus Cunha no ataque e ele tentou duas vezes antes de conseguir tocar para o meio, com Paulinho. Com liberdade, o jogador do Bayer Leverkusen dominou, ajeitou e devolveu para Matheus Cunha. A bola pareceu curta, a marcação chegou, mas ele chutou com vontade: a bola saiu cruzada, no canto, e venceu o goleiro argentino mais uma vez: 3 a 0.

A Argentina, enfim, chegou com perigo aos Álvarez, em um chute cruzado. A bola ainda desviou, foi para escanteio. Foi uma boa jogada dos argentinos. Só que o Brasil rapidamente reagiu. Pepê, que entrou no lugar de Reinier, foi lançado pela esquerda, avançou e cruzou rasteiro. Paulinho se antecipou ao zagueiro e tocou, mas o goleiro conseguiu a defesa.

O ritmo diminuiu, até pelo desgaste. Mas o Brasil seguia sendo um time muito perigoso. A Argentina desde o começo do jogo fez muitas faltas duras e continuou assim no segundo tempo. A diferença é que o Brasil passou a forçar menos e deixar os argentinos correrem atrás para diminuírem a diferença. Ainda assim, a marcação era forte quando os argentinos chegavam na intermediária ofensiva.

Aos 32 minutos, Bruno Tabata substituiu Pedrinho, que joga no Portimonense. O camisa 10 brasileiro foi bastante aplaudido. O jogador, mesmo com os altos e baixos do Brasil ao longo do torneio, sai fortalecido. Volta ao Corinthians não mais para vestir a camisa 38, mas para vestir a 10 e tentar levar o Corinthians à próxima fase da Libertadores.

O Brasil teve mais uma ótima chance aos 34. Bruno Guimarães achou um belo passe pelo meio para Paulinho, que teve uma grande chance de finalização. Acabou chutando em cima do goleiro e perdeu a chance. Em seguida, Castellanos, em um cruzamento, teve uma grande chance, mas desperdiçou. Chutou de qualquer jeito, para fora.

No final, Paulinho ainda acertou um chute na trave, em um dos ataques já trocados quando os dois times pareceram conformados com o resultado. Não seria nenhum absurdo o Brasil sair com mais gols da partida. Uma efetiva goleada sobre aquele que foi o principal time do torneio. Tóquio não é bem logo ali, mas o Brasil estará lá.

O torneio olímpico de futebol não é, ou não deveria ser, a prioridade do futebol brasileiro. Por isso mesmo, seria o caso de não deslocar jogadores para atuar no torneio se possuem potencial para jogar a Copa América. O Brasil deveria priorizar levar um time similar ao que esteve na Colômbia para o pré-olímpico, porque as dificuldades para liberação de jogadores para Tóquio será a mesma que para este torneio. Afinal, continuará não sendo data Fifa. O torneio olímpico deve ser tratado como qualquer competição de base: serve como um laboratório, uma preparação para os jogadores irem para o time de cima.