A introdução das seleções femininas tem sido tratada pela própria EA como a maior inovação trazida pelo novo jogo da série Fifa. No discurso de divulgação do game, não há menção ao fator inclusivo que ela representa, mas para Gilliard Lopes, brasileiro produtor do simulador de futebol virtual, o novo recurso se trata, sobretudo, de um posicionamento da empresa. As discussões sobre sexismo no futebol têm ganhado espaço, e grupos tradicionalmente sem voz agora podem repercutir suas ideias. Da sua maneira, a empresa quis entrar na conversa.

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“Isso é parte da nossa missão, do que a gente está fazendo, trazer essa discussão para um âmbito muito maior, e nós somos suficientemente relevantes – por estarmos em centenas de milhões de casas – para que as pessoas sejam obrigadas a lidar com o fato de que o futebol feminino está na frente delas. Essa era a intenção desde o começo. Falando da reação (nas redes sociais), os próprios fãs de Fifa, que entendem o que a gente está fazendo, nos ajudaram a rechaçar os outros, e isso é muito legal de ver”, comemora o produtor.

A reação de que fala Gilliard é a que se seguiu ao anúncio das seleções femininas no Fifa 16. Imediatamente após a divulgação, muitos fãs da série foram às redes sociais munidos de ofensas e reclamações machistas contra a novidade do game. O produtor conta que dentro da EA Sports não encontrou qualquer tipo de resistência, mas que a questão foi, sim, um problema ao ser levada previamente a comunidades de jogadores. “Dentro da EA, de forma alguma a gente encontrou resistência. A gente encontrava quando fazia grupos de pesquisa com fãs do jogo, perguntava a algumas figuras influentes da comunidade, como youtubers – nem tanto os brasileiros, mais os de fora – , e essas pessoas, talvez por estarem muito paranóicas com o Fifa nos deram uma reação um pouco negativa. Mas até a maneira como essa reação chegou nos deu mais força para fazer, para realmente mudar esse pensamento”, comenta.

É claro que a decisão de se introduzir o futebol feminino no Fifa não é apenas um posicionamento da EA e que o retorno financeiro também é esperado, mas Gilliard garante que essa não é sua principal preocupação, até mesmo pelo patamar alcançado pela franquia. “Dentro da EA, é claro que o cara que mexe com os números pergunta: ‘Tudo bem, vou investir tanto para fazer isso, mas quanto isso vai me dar de retorno’? Mas nunca foi essa a questão. A gente está numa posição privilegiada de estar nas casas de centenas de milhões de pessoas. Então vou ser bem sincero para você: números não são a primeira coisa na nossa cabeça hoje, porque a gente já tem uma abrangência grande. A gente já provou, já venceu, já tomou a frente, se você pensar que, em 2003, 2004, a gente era o segundo colocado.

Por fim, a busca pela experiência mais autêntica possível também foi um dos pilares da novidade das seleções femininas. A reação negativa de parte dos fãs da série já era prevista, mas era um obstáculo com que a empresa estava disposta a lidar. “Uma lacuna gigantesca era a falta de futebol feminino, num jogo que quer se dizer a simulação mais autêntica do futebol. Então, quando você coloca nesses termos, não tem uma pessoa dentro do estúdio que não vá concordar. Mas o desafio com que todo mundo estava preocupado era como iríamos comunicar e como seria recebido, como a gente ia lidar com a resposta negativa, que eu achei até que seria pior, com as minorias (numéricas) idiotas que fazem os comentários preconceituosos”, revela.

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O momento para a chegada do futebol feminino ao Fifa também não poderia ser melhor. O anúncio da novidade aconteceu nas vésperas do início da Copa do Mundo feminina, no Canadá, que terminou com a seleção americana como campeã. A EA, é claro, quis embarcar no hype criado em torno da categoria naquele momento e segurou o lançamento da novidade para o momento mais oportuno, como revela Gilliard, mas a vontade de se introduzir as mulheres já era antiga. “A gente está lançando no primeiro momento em que a tecnologia está madura o suficiente para lançar”, conta o produtor, que mais cedo havia revelado que a primeira tentativa havia saído completamente impraticável, com as jogadoras “com corpo de homem e rosto de mulher”.

A ideia era ter lançado o futebol feminino na versão anterior, mas os principais focos da EA Sports estavam em oferecer o melhor produto possível para a versão de consoles de nova geração, em um momento ainda de transição de Xbox 360 e PlayStation 3 para Xbox One e PlayStation 4. E todo o trabalho que tiveram na confecção das jogadoras, das seleções e da mecânica necessária para se atingir o máximo de autenticidade possível no futebol feminino se justifica quando você vê o produto final.

Serão 12 seleções femininas no jogo: Alemanha, Estados Unidos, França, Suécia, Inglaterra, Brasil, Canadá, Austrália, Espanha, China, Itália e México. Todas elas com suas jogadores bastante semelhantes fisicamente, após passar pelo processo de escaneamento dos rostos – incluindo Marta e o restante da seleção brasileira, apesar da ausência da equipe no trailer de divulgação. Além disso, para chegar ao mais próximo possível da realidade, as atletas tiveram seus movimentos capturados, algo necessário para diferenciá-las do modo de jogo do futebol masculino. Para Gilliard, tudo isso foi bastante satisfatório, mas apenas o início do que vislumbram.

“A gente considera só como o primeiro passo, um investimento inicial. O que vai acontecer, com que rapidez irá crescer, acho que é uma resposta que o futebol feminino dará lado a lado conosco. Você tem ligas muito fortes, como a da Suécia, na Inglaterra começando a se fortalecer, na América do Norte sempre tivemos, então como isso vai se desenvolver nos próximos poucos anos vai ditar o que mais a gente vai poder trazer. O que dá muita vontade é de ter clubes, modo carreira, você poder jogar com o futebol feminino, mas, se isso vai acontecer e quando, vai ser difícil de ver. E tem também a recepção dos nossos fãs, ver o que a comunidade, quando pegar no controle e jogar, vai dizer. É em relação a essa parte que estou mais confiante, porque jogando a gente sente que é muito diferente, gostoso e autêntico”, projeta.