Prodígio que se agiganta a cada partida, Hugo Souza saiu ainda maior do triunfo na Baixada

Quando o Flamengo entrou em campo cheio de desfalques no Allianz Parque, em meio ao turbilhão de problemas gerado pelo surto de coronavírus no elenco, havia quem temesse uma goleada. O empate, em compensação, ganharia ares heroicos pela maneira como a garotada segurou o Palmeiras, um dos maiores concorrentes dos últimos anos. E, do caos, nasceu um novo xodó: Hugo Souza, o goleiro formado com esmero na base, que realizou uma defesa incrível e saiu como o melhor do jogo – além de emocionar por seu choro ao se lembrar do pai recém-falecido na saída do gramado. Um mês e um dia depois, Neneca virou uma certeza ao Fla. Coleciona milagres e sai ainda maior da vitória por 1 a 0 sobre o Athletico Paranaense, dentro da Arena da Baixada, no duelo de ida pelas oitavas de final da Copa do Brasil.

A grande atuação contra o Palmeiras, afinal, não seria um ponto fora da curva. O goleiro convocado com frequência às seleções de base não demorou para saltar do posto de promessa à realidade. Aos 21 anos, Hugo ainda tem muito a evoluir, claro, e por vezes indica como poderia fazer melhor em alguns lances. A experiência é uma grande companheira a qualquer goleiro. Ainda assim, para o nível de exigência em que acaba submetido na fogueira, Neneca é aprovado com excelência. Transmite segurança, não comete falhas que resultam em gols e, mais importante, realiza intervenções que fazem a diferença aos resultados. Foi exatamente o que aconteceu ao longo da noite no Paraná, sobretudo pelo pênalti de Walter que o garoto espalmou.

O Flamengo entrou em campo sem economizar tanto na força de sua escalação, mesmo com o Brasileiro em mente. Enfrentaria um Athletico Paranaense que foi algoz na última Copa do Brasil e que apostava suas fichas na competição, diante da má campanha no Brasileirão. E mesmo na Baixada, o Fla começou dominando a partida, trocando passes na frente e controlando a situação. Demorou um pouco para que as chances surgissem, num duelo sem tanta intensidade. Mas bastou Pedro aparecer um pouco mais para que os cariocas saíssem em vantagem.

O centroavante já tinha finalizado com perigo aos 18. Aos 20, então, veio o lance decisivo. Isla cruzou e Pedro cabeceou antes que Santos chegasse na bola. O tiro bateu no travessão e ficou limpo com Bruno Henrique, que mandou à meta aberta. O Flamengo seguiria ditando o ritmo sem precisar acelerar tanto, girando os passes e aproveitando as subidas dos laterais. O Athletico, do outro lado, tentava ser veloz nos contra-ataques. Faltava encaixar melhor as jogadas, sem tantas oportunidades claras. A primeira defesa de Hugo Souza viria aos 42, numa bomba de Walter cobrando falta. O goleiro espalmou, vencendo o primeiro duelo com o atacante, e Reinaldo completou o rebote para fora.

O segundo tempo guardaria outro Athletico Paranaense. O Furacão resolveu sair para o jogo e pressionou o Flamengo, que tentava preservar sua energia. Foi então que Hugo Souza realmente começou a fazer a diferença. O goleiro seria mais exigido. Léo Cittadini bateu para intervenção tranquila do Neneca, que pouco depois seria ameaçado por um arremate de Nikão que desviou em Léo Pereira. Já aos 10, o garoto venceria mais uma batalha com Walter. O centroavante bateu com força, rasteiro, e Hugo se esticou para espalmar no contrapé.

O Flamengo tinha mais dificuldades para encaixar seus ataques e, quando Pedro reapareceu na área, Santos pegou bem a cabeçada do centroavante. Só que a partida seguia muito mais movimentada do outro lado. Cittadini cabeceou para fora, antes que Hugo operasse um milagre. Reinaldo entrou na área, cortou a marcação e bateu no canto, para que o jovem desviasse com muita agilidade. A bola ainda bateu na trave e Neneca, num movimento difícil, evitou que aproveitassem o rebote. O goleiro era quem sustentava a vitória.

O Flamengo era quem tentava contragolpear neste momento e, aos 25, Pedro errou o alvo num tipo de oportunidade que não costuma desperdiçar. O Athletico precisava ter volume e ameaçava. Até que o lance cabal fosse assinalado aos 31, numa entrada de Renê sobre Cittadini na área. Após a revisão da arbitragem, foi confirmado o pênalti. Walter não mirou muito no canto, mas encheu o pé a meia altura. Hugo acertou o lado e conseguiu espalmar a pancada do centroavante. Mais uma defesaça à sua conta, ampliando o número de milagres acumulados no último mês.

Logo na sequência, o Flamengo quase se aproveitou para ampliar. Bruno Henrique fez uma jogadaça pela esquerda e, depois de fintar um adversário, finalizou com muito perigo para fora. O pênalti perdido pareceu diminuir o ímpeto do Athletico, que não conseguiria romper a defesa adversária. Os cariocas também fecharam mais sua zaga com as substituições e gastavam o tempo, num duelo que passou a ficar mais truncado e com faltas. O apito final seria um alívio ao Fla, bem como um prêmio à atuação de Hugo Souza.

Se Diego Alves renovar seu contrato, volta como potencial titular por sua liderança e seu histórico. No entanto, não tem como deixar Hugo Souza apenas como reserva do Flamengo neste momento. Se na estreia não havia restado dúvidas de que ele deveria crescer na hierarquia de arqueiros do Fla, hoje soa como desperdício mantê-lo esquentando o banco do veterano. Parece subaproveitar essa margem de crescimento que o garoto vem apresentando. Desde já, o xodó rubro-negro demonstra capacidade para se colocar entre os melhores da posição no país. Tem explosão, ótima envergadura e muita firmeza, predicados que se repetem nas últimas partidas dos cariocas. E, nesta quarta, isso se viu de uma maneira para que ninguém possa negar seu enorme talento sob as traves.