O escândalo da Fifa já derrubou Joseph Blatter, que irá deixar a presidência da Fifa, como anunciou nesta terça-feira, mas pode atingir também o seu antecessor. João Havelange presidiu a Fifa entre 1974 e 1998, mas as denúncias reveladas até agora não tinham ligação direta com o dirigente. Nesta quarta-feira, pela primeira vez, isso acontece. E tudo por causa de um depoimento dado em 25 de novembro de 2013, em Nova York, de um alto dirigente da Concacaf.

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A justiça americana revelou o primeiro depoimento de Chuck Blazer, ex-secretário-geral da Concacaf e membro do Comitê Executivo da Fifa, que disse que aceitou suborno para a escolha da sede da Copa do Mundo de 1998. Esta foi a última Copa sob a gestão de João Havelange. Blazer ocupou o cargo na Concacaf desde 1991 e relatou que por volta de 1992 ele, junto com outros dirigentes, aceitou facilitar a aceitação de suborno para a seleção do país-sede da Copa do Mundo de 1998.

Além da França, que efetivamente sediou o evento, Marrocos foi candidata, mas acabou perdendo a votação por 12 a 7. A escolha era feito por membros do Comitê Executivo da Fifa, do qual Jack Warner, presidente da Concacaf, fazia parte. Os dois participaram de diversos esquemas de fraude, propina e suborno, seja em direitos de TV, seja para escolha de sedes das Copas de 1998 e 2010.

Chuck Blazer se declarou culpado de ao menos quatro crimes, incluindo corrupção, lavagem de dinheiro, fraude e pagamento de propina e suborno. Ele concordou em colaborar com a justiça no processo de delação premiada. Durante 20 anos, Blazer circulou no alto escalão da Fifa. Em 2011, foi um dos acusados de participar do esquema de corrupção na Concacaf e acabou afastado do cargo.

É a primeira vez que uma denúncia respinga na gestão de João Havelange. Joseph Blatter foi o seu secretário-geral desde 1981 até se eleger presidente, justamente em 1998. Durante 24 anos, Havelange foi o homem mais poderoso do futebol mundial comandando a Fifa e estendendo o seu poder de forma que nenhum presidente da Fifa tinha conseguido antes. Só que todo esse prestígio caiu diante das acusações pelas quais sofreu na justiça suíça. Em 2012, ele e seu ex-genro Ricardo Teixeira tiveram que responder processo na Suíça por recebimento de propinas da ISL relativas a direitos de transmissão da Copa do Mundo.

“Certamente não foram quantias desconsideráveis que foram direcionadas ao ex-presidente da Fifa Havelange e seu [então] genro Ricardo Teixeira, assim como o Doutor Nicolas Leoz, embora não haja indicação que nenuma forma de serviço foi dada por eles”, diz o relatório. “Esses pagamentos aparentemente feitos via enfresas de fachada para encobrir os verdadeiros recebedores e são qualificadas como ‘comissões’, conhecidas hoje como ‘suborno’”, dizia o relatório na época, como relatamos aqui na Trivela.

À época do relato, João Havelange teve que abdicar da presidência honorária da Fifa, já forçada pela própria entidade que tentava se salvar. As denúncias de propinas e subornos em relação à sua gestão são denunciadas pelo jornalista Andrew Jennings há mais de uma década, mas foram escancaradas no programa Panorama, da BBC, justamente em 2013.

Agora, mais um fio desse longo novelo começou a ser puxado. E tudo indica que é só o começo de uma longa lista de denúncias que ainda irão aparecer.

CONFIRA A COBERTURA DO FIFAGATE NA TRIVELA

O documento com o depoimento de Chuck Blazer você pode conferir na íntegra abaixo:

Chuck Blazer testimony


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