Não é segredo o poder da família Al Nahyan nos Emirados Árabes Unidos. A casa que governa o país também comanda o emirado de Abu Dhabi, além de ter dezenas de outras áreas de investimento, em fortuna que ultrapassa as centenas de bilhões de dólares. E o futebol, obviamente, passa dentro do círculo de influência dos poderosos. A realização do Mundial de Clubes acaba se tornando um expoente da pujança local, que abarca as competições esportivas na intenção de manter os emiratenses na vitrine internacional. Os dois estádios nos quais a competição da Fifa será realizada levam o nome de membros da família e são administrados por ela. Mas o sonho dos Al Nahyan vai além nesta edição: eles também terão um representante em campo, depois que o Al-Jazira faturou a liga nacional.

Desde a criação do Campeonato Emiratense, na década de 1970, apenas oito clubes conseguiram erguer a taça. Uma hegemonia compartilhada entre três emirados: Abu Dhabi, Dubai e Sharjah. Um dos brinquedos dos Al Nahyan, o Al-Ain é o maior vencedor do torneio, com 12 títulos, enquanto a casa também possui o Al-Wahda entre as maiores potências nacionais, com quatro taças. Já o Al-Jazira passou a ascender apenas nesta década, e seu título em 2016/17 foi o seu segundo na competição nacional. Porém, representa também uma conquista ao nome mais conhecido dos Al Nahyan no meio futebolístico: o Xeique Mansour, dono do City Football Group.

Oficialmente, o Al-Jazira não está inserido no mostruário de clubes do City Football Group – que, obviamente, possui o Manchester City como maior joia, além de contar com outras cinco agremiações espalhadas por três continentes. Mas foi no clube emiratense que o herdeiro começou a desenvolver seu tino na gestão esportiva, assumindo a presidência dos alvirrubros dez anos antes de dar o seu arremate pelo Manchester City. Além disso, acumulando cargos no governo central dos Emirados Árabes, ele foi o principal responsável por levar o Mundial de Clubes ao país em 2009 e 2010, além de continuar exercendo sua influência para o retorno da competição neste ano.

Na véspera da abertura do Mundial de 2017, o Xeique Mansour se manifestou publicamente sobre a competição. Ressaltou sua importância ao “apoiar o setor de esportes do país e fortalecer a sua liderança internacional”, afirmando que o torneio irá melhorar o nível do futebol emiratense, através do intercâmbio com as melhores equipes do mundo. Além disso, pediu que a população do país apoie o Al-Jazira em sua participação e compareça ao estádio para empurrar o representante local em uma boa campanha.

Não é de hoje que o Al-Jazira investe em estrelas internacionais para o seu elenco. A lista de medalhões que passaram pelo clube inclui George Weah, Phillip Cocu, Nelson Haedo Valdez, Jonathan Pitroipa, Jefferson Farfán, Felipe Caicedo, Mirko Vucinic, entre outros. Já o contingente brasileiro é o mais numeroso na história dos alvirrubros. Sandro Hiroshi foi o pioneiro, ainda em 2003. Depois disso, ainda jogaram por lá outros 14 atletas, incluindo Rafael Sóbis, Ricardo Oliveira, Thiago Neves, Fernandinho, Jucilei e Fernando Baiano. Além disso, os técnicos brasileiros também engrossam a lista de comandantes. Abel Braga teve duas passagens pelo clube, enquanto Caio Júnior e Paulo Bonamigo também trabalharam no clube.

Atualmente, o representante do Brasil no Al-Jazira é um dos protagonistas da equipe: o atacante Romarinho, que se transferiu para lá nesta temporada, após fazer sucesso pelo Al-Jaish, do Catar. Já a camisa 10 fica com o marroquino Mbark Boussoufa, de longa passagem pelo Anderlecht e também experimentado no futebol russo. De qualquer maneira, vale prestar atenção nos destaques locais, sobretudo no ataque. Formado no próprio Al-Jazira, Ali Mabkhout é o grande ídolo da torcida e foi o artilheiro do último Campeonato Emiratense, com a incrível marca de 33 gols em 25 partidas. Por fim, o comando técnico fica por conta do holandês Henk ten Cate, auxiliar de Frank Rijkaard em seu auge no Barcelona. Não contará, todavia, com as presenças de Lassana Diarra e Ahmed Khalil, parte do elenco, mas não inscritos junto à Fifa para o torneio.

O desafio do Al-Jazira no Mundial começa diante do Auckland City, um clube de investimento bem menor, mas com uma tarimba incomparável na competição continental. Depois, o sarrafo aumenta contra o Urawa Red Diamonds, já aguardando nas quartas de final. E o sonho para o Xeique Mansour seria encarar o Real Madrid nas semifinais, superando a melhor campanha do país – a sexta colocação do Al Wahda (de Fernando Baiano, Magrão e Hugo) em 2010. Que não seja a prioridade futebolística da família Al Nahyan, os alvirrubros chegam a um patamar bastante relevante aos planos esportivos em Abu Dhabi.