Diversos dirigentes de todo o mundo do futebol estão em Paris para o Congresso da Fifa, que terá entre os eventos mais importantes a eleição do seu presidente – no caso, a reeleição, sem qualquer concorrência, de Gianni Infantino. Quem chamou a atenção e falou aos microfones da imprensa no lado de fora do hotel onde o evento é realizado foi um dirigente muito importante: Michel Platini. O ex-presidente da Uefa vociferou contra Infantino, com quem trabalhou na Uefa e revelou se sentir traído.

Platini foi um grande ídolo do futebol e da França, em uma carreira brilhante como jogador. Passou a trabalhar fora dos gramados, chegou a ser técnico da seleção francesa, mas ganhou destaque mesmo no seu trabalho fora de campo como dirigente. Presidiu o Comitê Organizador da Copa do Mundo de 1998, realizada na França, e depois passou a trabalhar com a Fifa, até que se elegeu presidente da Uefa em 2007. Ficou no cargo até 2015, quando recebeu uma suspensão do futebol por quatro anos – que acaba justamente em outubro de 2019, daqui a poucos meses.

A Copa do Mundo Feminina começa na França em alguns dias. No dia 7, sexta-feira, será o primeiro jogo do torneio, que terá transmissão no Brasil da Globo e do SporTV. Só que Platini acusa Infantini de nunca ter sido um entusiasta de futebol feminino nos tempos de Uefa. “Ele nunca foi um fã de futebol feminino”, afirmou Platini. “Ele ficava rindo de futebol feminino; ele não acreditava nisso”, acusou o ex-presidente da Uefa. Segundo o Guardian, pessoas ligadas a Infantino responderam rapidamente e rejeitaram a acusação, dizendo que é “patética”.

Infantino era secretário-geral da Uefa, cargo que é o de braço direito da presidência, então exercida por Platini. O ex-jogador afirmou que Infantino foi leal o suficiente a ele quando trabalharam juntos, mas que depois de ser banido, Infantino foi visitá-lo para dizer que ele se candidataria para a presidência da Fifa para garantir que um candidato da Uefa venceria. Platini se sentiu traído por isso e pela falta de contato desde então.

“Eu não posso imaginar o que eu fiz a Gianni Infantino que ele tem um comportamento ruim em relação a mim”, disse Platini aos repórteres. “Depois do que eu fiz por ele, ele fez algo contra mim. Na última vez que falei com ele foi no avião, em 2016, quando eu fui para Atenas para dizer ‘Auf Wiedersehen’ [“adeus”, em alemão] para o Congresso da Uefa. Ele veio e me cumprimentou. Eu disse: ‘Você me cumprimenta?’. Eu fui muito frio com ele e não falei com ele por três anos”, disse Platini.

“Ele não tem legitimidade para ser o presidente da Fifa. Eu tenho certeza que ele é uma boa pessoa, um cara legal e bom secretário-geral, mas como alguém que vomitou contra a Fifa todos os dias se torna seu presidente?”, questionou Platini.

Platini já cumpriu três anos e meio de uma punição de quatro anos de banimento de todas as atividades relacionadas a futebol por ter recebido 2 milhões de francos suíços (€ 1,7 milhões) como pagamento da Fifa, por ordem de Joseph Blatter, em 2011. O francês sempre negou que esse pagamento tenha a ver com qualquer atividade irregular, imprópria ou antiética.

Segundo Platini, foi uma trama iniciada para impedir que ele se tornasse presidente da Fifa, depois que ele se desentender com Blatter, em 2013. O francês nunca escondeu os planos de chegar à presidência da Fifa um dia e tinha acertado apoiar Blatter em 2011 para, no próximo mandato, ser apoiado pelo suíço para ser o sucessor. Só que em 2013 Blatter desistiu de indicar Platini como seu sucessor e optou por ele mesmo concorrer a mais um mandato na eleição seguinte, em 2015.

A questão é tão clara para Platini que ele abriu quatro ações na justiça. Em setembro, ele montou um caso criminal em Paris por difamação e falsa acusação contra pessoas que não foram publicamente reveladas. Na Suíça, ele abriu outro caso criminal contra o antigo porta-voz do Comitê de Ética da Fifa quando ele apresentou caso contra Platini, que alega que foi difamado com alegações falsas sobre a gravidade do pagamento de 2 milhões de francos suíços. Segundo relata o Guardian, o porta-voz afirmou negar ter feito os comentários que foram atribuídos a ele em relatos da imprensa.

Há outro caso na Suíça contra o porta-voz do procurador-geral, afirmando que o seu papel foi exagerado. A Procuradoria Geral da Suíça afirmou que recebeu uma “reclamação de supervisão”, mas que foi rejeitado.

Por fim, Platini afirmou que levou um caso ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos, em Estrasburgo, argumentando que ele foi injustamente privado do seu direito ao trabalho ao ser banido do esporte que sempre foi a sua vida e profissão. Ele alega ainda que foi privado do direito de um julgamento justo e que o caso foi retrospectivo, já que a Fifa fez o pagamento a ele em 2011 e o Comitê de Ética só iniciou os procedimentos em 2015, depois que ele declarou a sua candidatura à presidente – na época, contra Blatter.

O pagamento, segundo Platini e também Blatter, foi por um acordo verbal sobre os serviços prestados pelo francês à entidade em 2002, nove anos antes do dinheiro efetivamente ser pago. A explicação foi dada ao Comitê de Ética da Fifa, que não considerou convincente e classificou o pagamento como antiético.

A suspeita era que o dinheiro tinha sido pago como um suborno para que Platini apoiasse Blatter na eleição presidencial quatro meses depois – apoio que de fato aconteceu. Só que o Comitê de Ética considerou que as provas não eram suficientes para estabelecer que o pagamento foi, de fato, uma propina. Por isso, consideraram apenas que foi antiético.

O Comitê de Recursos da Fifa confirmou a decisão e Platini levou o caso ao Tribunal Arbitral do Esporte (TAS). O julgamento na entidade manteve a decisão mais uma vez, novamente considerando as justificativas de Platini como insuficientes e a questão da suspeita proximidade da eleição da Fifa em 2011. O TAS afirmou que “não foram convencidos da legitimidade do pagamento de 2 milhões de francos suíços”.

Apesar dos julgadores serem de três países diferentes, Itália, França e Bélgica, Platini afirma que a decisão do TAS foi parte da trama suíça para tirá-lo da disputa. E Platini considera a narrativa da trama desde que deu a sua última coletiva de imprensa como presidente da Uefa, em agosto de 2015, em Mônaco. “Alguém veio para mim e disse: ‘Cuidado, Michel, eles estão procurando por algo contra você na Fifa’”, afirmou o dirigente francês.

Apesar de todo caos causado pelo pagamento, Platini diz que não se arrepende de ter cobrado o dinheiro, que ele diz ser legítimo. Segundo conta Platini, Blatter aceitou pagá-lo em duas parcelas anuais de 1 milhão de francos suíços, mas disse na época que só poderia pagar 300 mil, que foi escrito em contrato. Ele foi contatado por Blatter em 2010 e foi pedido que enviasse uma fatura, o que foi feito.

“Você acha que com todo o dinheiro que eu ganhei durante a minha carreira que eu mataria a minha história por 2 milhões de francos suíços?”, afirmou Platini. “Se Blatter tivesse me dito que ele não poderia me pagar por alguma razão, isso estaria ok. Mas sobre pedir o dinheiro eu não me arrependo, de forma alguma”, continuou.

O período de suspensão de Platini acaba em outubro e o jogador afirmou que ainda não sabe se há uma forma de voltar ao futebol. Seu ex-secretário-geral, que subiu à presidência da Fifa quando tanto Platini quanto Blatter caíram, será reeleito na quarta-feira, sem concorrência, em um congresso realizado justamente na casa de Platini, em Paris, às vésperas do início da Copa do Mundo Feminina – que se inicia na sexta-feira.