O lamentável caso de racismo ocorrido nesta segunda-feira, em Sofia, gerou uma ampla reação. Mesmo sofrendo clara discriminação, que provocou duas interrupções no jogo válido pelas Eliminatórias da Euro 2020, os jogadores da Inglaterra preferiram seguir em campo e encerrar seu trabalho na goleada por 6 a 0 sobre a Bulgária. Os personagens dos Three Lions expuseram sua indignação e receberam grande apoio. Tal reconhecimento, porém, não foi unânime do outro lado da história. Alguns membros da seleção búlgara, incluindo o técnico Krassimir Balakov, passaram pano sobre a situação e negaram o óbvio. Ao menos, o primeiro ministro veio a público para condenar os atos e pedir a renúncia do presidente da federação, o ex-goleiro Borislav Mihaylov, o que se consumou nesta terça.

Através de suas redes sociais, o primeiro ministro Boyko Borissov endereçou o seu recado à federação: “Peço a renúncia imediata de Mihaylov como presidente da União Búlgara de Futebol! Depois da derrota vergonhosa da seleção e do mau desempenho do nosso futebol em geral, eu ordenei ao Ministro da Juventude e dos Esportes que interrompa todas as relações com a BFU, incluindo as financeiras, até que Mihaylov deixe seu cargo. Eu condeno o comportamento de alguns torcedores no estádio. É inaceitável para a Bulgária, um país historicamente reconhecido como um dos mais tolerantes do mundo pela convivência de pessoas de diferentes etnias em paz, ser associada com o racismo e a xenofobia”.

Borissov sustenta os seus laços com o futebol. Chegou até mesmo a atuar pelo Vitosha Bistritsa, da segunda divisão, tornando-se o jogador mais velho a participar da liga nacional. O político lidera a campanha para que a Bulgária receba a Copa do Mundo de 2030, em candidatura conjunta que inclui Grécia, Romênia e Sérvia. No entanto, o primeiro ministro, visto como autoritário e populista, também já foi acusado de xenofobia enquanto era prefeito de Sofia.

“Não posso falar pela federação sobre suas ações. Mas, quando o país é retratado como racista nas primeiras páginas por causa de um grupo de imbecis e por causa da má administração da federação, com todo o dinheiro investido, não quero que nosso governo seja associado a isso. Eu não quero me intrometer. Só posso dizer ao meu governo para cortar relações com a federação. Há um limite e não gosto disso. O país não pode ser associado a poucas pessoas. Todas as equipes perdem, isso não é ruim. Ruim é o que acontece depois disso”, complementou Borissov, também querendo evitar generalizações.

O primeiro ministro também apontou que “alguns imbecis levantando o braço direito, vestindo camisas dizendo ‘no respect’ e usando outros adereços” eram uma minoria nas arquibancadas: “A maioria da multidão se comportou bem, eram mais de 15 mil pessoas. Não comentamos sobre os torcedores ingleses quando eles estão em Sofia e não os usamos como um pôster da nação inglesa como um todo. Então, peço para que sejam mais moderados para falar sobre a Bulgária, porque somos um país tolerante”.

No primeiro momento, Mihaylov até parecia disposto a encarar a queda de braço e a se manter na presidência da federação. Segundo seu porta-voz, o dirigente não renunciaria e o governo não tinha o direito de interferir no futebol. Entretanto, horas depois, o ex-goleiro mudou de ideia. Em nota oficial, a BFU declara que as tensões nos últimos dias criaram um “ambiente que prejudica o futebol búlgaro e a federação”. Também afirma que Mihaylov está disposto em “continuar ajudando o desenvolvimento do futebol no país de todas as maneiras possíveis”. Mas não há qualquer referência ao racismo.

Antes do jogo, Mihaylov havia criticado os comentários de membros da seleção inglesa sobre eventuais manifestações racistas que acontecessem em Sofia. Conforme o dirigente, as declarações de Gareth Southgate e de alguns de seus comandados eram “ofensivas” e “depreciativas”. Para ele, os temores dos visitantes sobre o preconceito não eram legítimos e ele solicitou até mesmo à Uefa que a Inglaterra fosse sancionada, caso resolvesse se retirar de campo por ataques discriminatórios.

Alguns jogadores da Inglaterra elogiaram a iniciativa de Borissov ao exigir a renúncia de Mihaylov, incluindo Raheem Sterling. Os ingleses também aplaudiram a postura de Ivelin Popov, capitão da seleção búlgara. Durante o intervalo, o atacante se dirigiu sozinho às arquibancadas e conversou com o grupo de torcedores que liderava as manifestações racistas. Cerca de 500 pessoas foram expulsas do estádio antes do segundo tempo. A partir de então, os insultos diminuíram, mas não cessaram.

“Primeiro, tentei falar com os seguranças que deveriam controlar a situação. Estamos todos sofrendo por esse tipo de comportamento. Você pensa que um jogador estrangeiro desejará vir à Bulgária e disputar uma partida depois do que aconteceu nesta noite? O racismo é um problema mundial que precisa ser erradicado. Somos todos iguais, independentemente da cor de nossa pele”, declarou Popov.

Enquanto isso, o técnico Krassimir Balakov se fez de desentendido. O ex-jogador declarou que “sentia muito se isso realmente se provar verdadeiro” e resolveu botar a culpa também nos visitantes: “Eu vi que o árbitro parou o jogo, mas também preciso dizer que o comportamento não era apenas dos torcedores búlgaros, mas também dos ingleses, que estavam assobiando e gritando durante o nosso hino. Durante o segundo tempo, eles usaram palavras contra nossa torcida que eu achei inaceitáveis”.

Balakov também garantiu que não sabia da atitude de Popov, ao conversar com os torcedores durante o intervalo. Segundo ele, a postura do capitão se deveu “provavelmente porque a torcida estava insatisfeita com a maneira como o time jogou o primeiro tempo”. O veterano ainda afirmou que o caso de racismo era “inédito à Bulgária”, mesmo com parte do estádio fechada por conta de comportamentos racistas em outras partidas destas Eliminatórias da Euro.

“Esse problema surgiu desde que a Inglaterra estava prestes a vir para a Bulgária. O que ouvi nas últimas três semanas foram pessoas falando sobre tudo, menos futebol. Não acho que esta é a maneira correta de se preparar a uma partida. Se isso tudo for verdade, lamentamos muito, é uma grande vergonha. Estamos trabalhando duro com a federação búlgara”, complementou o treinador. Segundo um jogador da seleção búlgara, ouvido pela Sky Sports, os atos racistas em Sofia estavam sendo preparados pelos torcedores durante as últimas semanas.

Já o goleiro Plamen Iliev se posicionou de maneira mais vergonhosa, ao elogiar o comportamento da torcida búlgara: “Sendo honesto, acredito que os torcedores se comportaram bem hoje. Não houve qualquer abuso e acho que os jogadores da Inglaterra exageraram um pouco. A torcida estava em bom nível, não ouvi nenhuma linguagem ruim usada contra os jogadores deles ou os nossos”.

A postura negacionista, ao menos, não foi reproduzida pela imprensa do país. Os principais jornais búlgaros deram destaque ao caso de racismo e trataram a questão com o repúdio necessário. “A seleção nacional de cada país é uma instituição, mas na noite desta segunda nosso time foi destruído. Pela forma como os jogadores da Inglaterra reagiram contra o abuso, eles queriam fazer uma declaração – eles desejavam se opor ao racismo e conseguiram isso”, pontuou o comentarista Borislav Borisov.

Por fim, a Uefa se manifestou nesta terça. Em carta assinada pelo presidente Aleksander Ceferin, a entidade parecia mais preocupada em limpar a sua barra do que em apresentar medidas efetivas contra o racismo. Está mais do que claro como a atual orientação não é suficiente para lidar com a questão, diante dos casos cada vez mais recorrentes.

“Como organismo responsável, sei que não vamos ganhar nenhum concurso de popularidade, mas algumas opiniões sobre a abordagem da Uefa no combate ao racismo estão bastante erradas. A Uefa, em estreita cooperação com a rede Fare (Futebol Contra o Racismo na Europa), instituiu um protocolo de três passos para identificar e combater comportamentos racistas durante os jogos. As sanções da UEFA estão entre as mais duras no desporto para clubes e federações cujos adeptos mostrem racismo nos nossos jogos”, afirmou.

“Acreditem em mim, a Uefa está empenhada em fazer tudo o que estiver ao seu alcance para eliminar esta doença do futebol. Não podemos dar ao luxo de nos contentarmos com isto, temos de reforçar ainda mais a nossa determinação. Num cenário mais amplo, a família do futebol – dirigentes, jogadores, treinadores e torcedores – precisa trabalhar com governos e Organizações Não-Governamentais para combater os racistas e marginalizar da sociedade as suas ideias repugnantes. As federações nacionais não podem resolver este problema sozinhas. Os governos também precisam fazer mais nessa área. Só conseguiremos evoluir se trabalharmos juntos em nome da decência e da honra”, complementou. Ainda pouco ao que se nota.