Não faz muito tempo, foi quarta-feira, que o Santos respeitava o direito de Robinho à presunção de inocência, ao devido processo legal e a exercer a sua profissão. Como clube formador, não daria as costas a ele ou decretaria juízo de valor em um processo ainda em andamento e todo o barulho que a contratação gerou era sintoma da era dos cancelamentos, da cultura dos tribunais da internet e de julgamentos tão precipitados quanto definitivos.

Um gerador aleatório de baboseira para “esclarecer ao torcedor santista” que, ao contrário do que a própria nota diz, todos os posicionamentos do clube em relação ao combate à violência contra a mulher foram, sim, demagogos e com significados tão vazios que não resistiram à tentação de ter de volta um ídolo veterano por um salário baixo. Foi um recado aos críticos – e, principalmente, às críticas: podem espernear à vontade, nós não nos importamos.

Foram necessários apenas dois dias para que ficasse claro com o que o Santos se importa. Nenhuma surpresa, nenhuma grande descoberta nas catacumbas do Egito, apenas o mesmo motivo que leva e sempre levou a maioria das pessoas a fazer ou não fazer alguma coisa: dinheiro.

E de certa forma, segue a mesma lógica que baseou a mudança de postura do clube em relação à contratação de Robinho no final da semana passada. Quando o presidente Orlando Rollo disse que não dava para contratá-lo, a condenação em primeira instância por estupro na Itália não teve peso nenhum: “É evidente que quero o Robinho. Mas, infelizmente, hoje o Santos não tem condições. Se o Robinho viesse de graça, é óbvio”.

No dia seguinte, foi fechado um acordo em que, segundo o UOL, o clube bancaria apenas três meses de salários mínimos e os outros dois seriam pagos pelo ex-presidente Marcelo Teixeira, possível candidato da próxima eleição. Quase de graça, então, é óbvio!

Acostumado com casos anteriores, o Santos acreditou que eventualmente a condenação seria esquecida ou ficaria perdida em meio ao insano ciclo de notícias do futebol, de vez em quando mencionada, sem causar incômodos de verdade. O tempo trataria de torná-la uma nota de rodapé, como tantas vezes aconteceu. Sequer mencionou o assunto quando anunciou a contratação. Brincou nas redes sociais, tirou foto, fez vídeos. Tratou-a como o retorno do filho de pródigo, tudo normal, nada para ver aqui, circulando, circulando, até que de repente a barganha ficou muito menos barata.

Depois de uma reportagem de Lucas Ferraz no Globo Esportee de outros profissionais cobrarem posicionamentos dos patrocinadores do Santos -, detalhando a sentença judicial que determinou nove anos de prisão a Robinho por violência sexual em grupo, as marcas que jorram dinheiro ao clube foram pouco a pouco se distanciando.

Ao fim desta sexta-feira, um patrocinador – a Orthopride – havia rescindido seu contrato com o Santos. Outro, a Brahma, dissera que não renovaria se Robinho ficasse. Outras sete marcas ameaçaram pular fora. Apenas duas, Unicesumar e Umbro, afirmaram que esperariam para ver. Enquanto isso, áudios de Robinho eram vazados colocando a culpa na Rede Globo, a “emissora do demônio”, com referências a Jair Bolsonaro, evocando Deus e dizendo que comemoraria um gol com uma camisa “Globo lixo, Bolsonaro tem razão”.

E, então, às 19h07, os seis parágrafos cheios de convicção sobre a contratação de Robinho se tornaram seis linhas envergonhadas no Twitter: “O Santos Futebol Clube e o atleta Robinho informam que, em comum acordo, resolveram suspender a validade do contrato firmado no último dia 10 de outubro para que o jogador possa se concentrar exclusivamente na sua defesa no processo que corre na Itália”.

Em um vídeo, o jogador acrescentou: “Estou aqui com muita tristeza no coração para dizer que tomei a decisão junto com o presidente de suspender meu contrato neste momento conturbado da minha vida. Meu objetivo sempre foi ajudar o Santos e se de alguma forma eu estou atrapalhando é melhor que eu saia e foque nas minhas coisas pessoais”.

Juntando os dois pronunciamentos, parece que de repente, em menos de uma semana, Robinho percebeu que não tem tempo livre suficiente para jogar futebol profissionalmente e ser réu em um caso de estupro. Claro que não foi isso. A parte mais genuína dos comunicados é quando Robinho diz que se estiver atrapalhando é melhor sair. Antes, quando era apenas gritaria dos “tribunais da internet”, não atrapalhava. Quando começou a pesar no bolso, passou a atrapalhar.

Está longe de ser um nobre motivo que levou o Santos a recuar. Se fosse, ele não teria contratado Robinho, para começar. Foi uma combinação entre jornalismo e pressão financeira. Um sinal, sem querer soar otimista demais, de que talvez o mundo do futebol não tenha mais carta branca para ignorar crimes e supostos crimes de seus personagens, nem que seja por questões meramente econômicas. E de que as marcas percebem mudanças na sociedade a ponto de sentirem a necessidade de corroborar os discursos bonitinhos com ações concretas, para não perderem credibilidade, clientes e dinheiro.

Uma lição que o mundo do futebol deveria aprender. A começar pelo Santos.

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