Ainda é cedo para cravar o que acontecerá com a atual temporada da Ligue 1, mas presidentes dos clubes do Campeonato Francês soam cada vez menos esperançosos de que a campanha seja retomada. Em entrevista ao L’Équipe, Jean-Michel Aulas, mandatário do Lyon e um dos mais icônicos dirigentes do futebol no país, disse que as chances hoje são menores do que em 11 de março, quando a liga foi suspensa.

Aulas pontuou o quão pouco se sabe sobre a pandemia. Governos nacionais não têm sequer uma estimativa de quando a vida poderia voltar ao normal. Na França, em especial, o atual isolamento está determinado até 15 de abril, mas as chances são grandes de que seja prorrogado mais uma vez.

“O fim do confinamento também pode ser problemático em relação a jogadores, treinadores e espectadores, uma vez que a essência de um jogo de futebol é ser um espetáculo com os torcedores. A porcentagem de chances de terminarmos todos os jogos é menor hoje do que no dia 11 de março, quando paramos. Vamos continuar fazendo tudo o que estiver ao nosso alcance para encontrar soluções”, prometeu Aulas.

O dirigente vê a questão das competições continentais com ainda mais dúvidas, devido à questão geográfica: “Para a Champions League, em que tanto o Lyon quanto o PSG estão envolvidos, é mais problemático, porque as regiões envolvidas são maiores do que para os campeonatos nacionais. Hoje em dia há mais incerteza”.

“Eu não sou médico, não sou especialista em pandemias. A porcentagem de chances de o Estado dar autorização para recomeçar diminuiu muito. Existe um risco significativo de que alguns governos não deem essa autorização”, avaliou.

Presidente do Brest, Denis Le Saint, em entrevista ao mesmo L’Équipe, afirmou na sexta-feira (3) que a Ligue 1 não poderia retornar. Em um forte discurso, afirmou que o futebol não é “nem a segunda prioridade dos franceses”. Futebol, para ele, é para ser compartilhado, e jogos com portões fechados não fazem sentido.

“Nessas condições, não vale a pena disputar partidas. O futebol é algo que se compartilha com os outros. O lado financeiro é uma coisa, mas a saúde é muito mais importante. Para mim, está fora de questão levar a minha equipe a Paris, em maio ou junho, para jogar o jogo de returno contra o PSG. Os riscos são grandes demais. Tenho muito respeito por meus jogadores e por minha comissão para colocá-los em risco”, argumentou Le Saint.

Aulas concorda com o conteúdo do que foi dito pelo presidente do Brest, mas discorda da forma. Para ele, isso não precisava ser dito neste momento e apenas “aumenta a angústia”. De qualquer maneira, diz que a fala de Le Saint “faz sentido”, mas que isso precisará ser pensado daqui a um ou dois meses, sem pressa.

Bernard Joannin, presidente do Amiens, afirmou em entrevista à AFP que a posição de Le Saint “é bastante humana, colocando a saúde acima de tudo. É uma maneira de ver compartilhada por muita gente no meio do futebol. No momento, é preciso entender que o único comandante é a Covid-19. Infelizmente, é ela que dita o ritmo”.

A crise financeira virá para o futebol francês assim como para quase todas as ligas do mundo, e os primeiros impactos já são sentidos. Canal+ e Bein Sports, donos dos direitos de transmissão da competição, decidiram não pagar à liga a prestação que deviam para o início deste mês, de € 42 milhões e € 110 milhões, respectivamente, para cada emissora.

Aulas lamentou a posição das empresas, dizendo que isso contribui para a angústia econômica dos 40 clubes da Ligue 1 e da Ligue 2. “Parece-me legítimo que haja incerteza sobre o fim do campeonato, mas me incomoda que não paguem pelo menos o que foi jogado.”

A situação com os canais de TV será agora discutida por um grupo de negociação formado por quatro presidentes de clubes, entre eles Nasser Al-Khelaïfi, mandatário do PSG. Al-Khelaïfi lidera também o Bein Media Group, o que tem levado a acusações de conflito de interesses. Aulas, no entanto, não vê assim, já que “o objetivo da delegação é propor soluções ao gabinete da LFP (Liga de Futebol Profissional), que será o único responsável pela tomada de decisões”.

Observar os números de casos na França nas próximas semanas, buscando entender os resultados do confinamento iniciado em 17 de março, será essencial para se ter uma ideia se há alguma chance de a Ligue 1 de fato retornar. Atualmente, restam dez rodadas a serem disputadas.