A notícia parece antiga, mas é tão nova quanto o ano que vem por aí: o Sporting está em crise, mais uma vez. E, de novo, o epicentro do problema atende pelo nome do presidente do clube, Bruno de Carvalho.

A diferença desta para as outras confusões em que Bruno criou ou se envolveu é que agora, ao menos aparentemente, nem todos os sportinguistas “comuns” concordam com ele – seus opositores políticos no clube não entram nesta conta, já que naturalmente são contra o presidente.

Bruno de Carvalho é daquelas pessoas que parece estar sempre à procura de um inimigo. Que não se dá por satisfeito num período de calmaria. Que se alimenta de brigas e precisa constantemente eleger o próximo alvo.

Pois o alvo da vez é o técnico da equipe, Marco Silva. Os dois estão em rota de colisão há uma semana por problemas de relacionamento (embora a campanha irregular do time na temporada tenha servido de pano de fundo à celeuma). No meio do caminho, sobrou até para a imprensa: o Sporting proibiu todos os funcionários, incluindo comissão técnica, dirigentes e jogadores, de concederem entrevistas. As exceções ficam por conta das declarações para os veículos de comunicação oficiais do clube e as obrigatórias por contrato, como nas vésperas das partidas por competições europeias.

A novela começou quando o presidente afirmou, ao reclamar de resultados ruins, que todos no clube deveriam assumir sua parcela de culpa pelo mau momento. A declaração foi entendida como um recado direto ao treinador, que respondeu dizendo que nunca tinha fugido de suas atribuições.

A partir daí, a bola de neve feita de especulações e notícias de bastidores só aumentou, tornando o que era um pequeno entrevero numa verdadeira crise institucional. Uma crise tão grave que o emprego de Marco Silva está na marca do pênalti e sua demissão só não aconteceu ainda por faltar embasamento jurídico ao Sporting para se esquivar da multa rescisória.

O mais surreal disso é que os resultados esportivos não estão em primeiro plano na avaliação do treinador e em sua possível demissão. Por trás da crise, está a insatisfação de Bruno de Carvalho em ver o técnico sempre defendendo o seu elenco. Na visão do presidente, o treinador deveria apoiar a diretoria incondicionalmente, mesmo quando Bruno dá declarações inoportunas, criticando jogadores publicamente. Nos bastidores, diz-se que o mandatário reclama de o técnico agir como um “presidente do sindicato dos jogadores”.

Por outro lado, Marco Silva se queixa da intromissão de Bruno de Carvalho em seu trabalho. E não é para menos: o presidente frequenta os vestiários e senta-se no banco de reservas da equipe em todos (sim, todos) os jogos. Muitas vezes, age como um torcedor e cria desconfortos desnecessários, seja criticando jogadores ou entrando em rota de colisão com a Liga de Clubes, os árbitros ou qualquer outro inimigo da vez.

Vale lembrar que o Sporting não faz das melhores campanhas na temporada, mas também está longe de causar vexame. Se o título português é quase impossível de alcançar, uma vaga direta na próxima Liga dos Campeões é bem plausível (o time ocupa o quinto lugar, com dez pontos a menos que o líder Benfica). Se a vaga no mata-mata da Champions escapou pelos dedos, a presença na Liga Europa não deixa de ser uma realidade muito boa para o momento. E, de quebra, ainda há a presença nas quartas de final da Taça de Portugal, com direito a eliminar o Porto no meio do caminho.

Ou seja: se é fato que a temporada poderia ser melhor, também é realidade que, para um clube que passa por reestruturação, a situação atual dentro de campo não pode ser contestada tão fortemente. Até por isso, boa parte da torcida apoia o técnico e está ao lado dele nessa queda de braço.

O curioso é que esta reestruturação é justamente o principal ponto positivo da gestão de Bruno de Carvalho. Com mãos de ferro na administração financeira, ele tirou o clube de uma situação muito complicada e vai reerguendo a casa.

Se passar a se preocupar mais com a administração do clube e deixar de lado sua incrível capacidade de criar crises desnecessárias, Bruno de Carvalho tem chances de entrar para a galeria dos grandes presidentes da história do Sporting. Mas, para isso, precisa pelo menos amadurecer um pouco.