O movimento pioneiro do futebol francês de paralisar partidas por causa de gritos homofóbicos nas arquibancadas pouco durou antes de seu primeiro grande revés. Após diversos jogos serem interrompidos até que os insultos homofóbicos do público cessassem, nesta semana, o presidente da Federação Francesa de Futebol, Noël Le Graët, pediu que as partidas não sejam mais paradas por isso.

Apoiada pela Ministra do Esporte, Roxana Maracineanu, e por Marlène Schiappa, secretária de Estado para a Igualdade entre Homens e Mulheres, a Liga de Futebol Profissional se encarregou de passar aos árbitros da primeira e da segunda divisões francesas a orientação da Fifa de que demonstrações racistas e outros atos de discriminação fossem respondidos com a interrupção dos jogos. O procedimento tinha três etapas: primeiro, paralisação momentânea para pedir que os gritos parem; depois, interrupção temporária do jogo, com os jogadores voltando aos vestiários; por último, o cancelamento do jogo.

Para Le Graët, dirigente de 77 anos, no entanto, parece haver discriminações e discriminações. Ao France Info, o líder da federação disse que parar partidas por cantos homofóbicos “é um erro”. Já por racismo, a história é outra.

“Eu pararia um jogo por cantos racistas, isso é claro. Eu pararia por uma briga, por incidentes, se houver perigo em algum lugar dentro do estádio”, argumentou Le Graët. Para ele, o racismo e a homofobia nas arquibancadas “não são a mesma coisa”.

As declarações do dirigente foram recebidas com revolta por grupos de antidiscriminação. O Rouge Direct, que combate a homofobia nos esportes na França, pediu que Le Graët entregasse o cargo ou ao menos retirasse suas declarações, sob risco de levar o caso à Justiça por justamente discriminar entre diferentes tipos de discriminação.

Já o grupo SOS Racisme, mesmo com a aparente solidariedade de Le Graët à sua causa, rechaçou os comentários do dirigente: “As palavras de Le Graët contribuem para minar os esforços na luta contra todos os tipos de discriminação, seja racismo, homofobia ou machismo. (…) Está na hora de Noël Le Graët se aposentar”.

A Ministra do Esporte, Roxana Maracineanu, que havia parabenizado o árbitro Mehdi Mojhtari, primeiro no país a interromper um jogo por causa de gritos homofóbicos, na partida entre Nancy e Le Mans, na Ligue 2, advertiu que Le Graët deveria combater todas as formas de discriminação e classificou a distinção feita como “errônea”.

Segundo Olivier Lamarre, presidente do sindicato de árbitros da França, disse ao jornal Le Parisien, Le Graët teria o direito de ordenar que não se pare mais os jogos, já que a arbitragem é subordinada à federação, e não à liga, mas não está claro o que acontece daqui para a frente.

Isso porque, das tensões recentes, nasceu o caminho para o diálogo. Nesta quarta-feira (11), a Liga de Futebol Profissional, a Federação Francesa e grupos de torcedores e também associações que combatem a discriminação se encontraram para discutir a questão. Liga e federação depois emitiram um comunicado para expressar apoio a ações que “devem ser determinadas, adaptadas e pragmáticas”, sem entrar em detalhes.

Bertrand Lambert, presidente de uma das associações presentes, afirmou que todas as partes conseguiram “reduzir a distância entre nós”. Já a presidente da liga, Nathalie Boy de la Tour, foi enfática: “Por muito tempo, toleramos certos cantos nos estádios, mas hoje a sociedade não os aceita mais”.

A presidente da liga vai além e sugere que o diálogo aconteça em nível local, entre grupos de torcedores e associações LGBT, já que, para ela, “na interpretação das palavras, pode haver diferenças extremamente importantes”.

“Nossos torcedores, quando se expressam de certa maneira, não necessariamente percebem o caráter diretamente discriminatório das palavras que eles usam”, avaliou.

Após o fim da data Fifa, o Campeonato Francês retorna neste final de semana, sem clareza de procedimento. As próximas semanas ajudarão a dimensionar o tamanho do desafio que os franceses que lutam por estádios mais acolhedores a todos terão pela frente.