Vários times em momentos importantes do Campeonato Brasileiro e jogadores fundamentais estão de fora. Nada de suspensão ou lesão, apenas que foram obrigados a atenderem a convocações de suas seleções. Nada mais esperado, considerando que a Fifa determina que os atletas sirvam as equipes de seus países e a CBF que não se preservou ao deixar a data vaga no futebol nacional. Mas, se você está achando que a briga entre clubes e seleções por espaço no calendário está dura, imagine como será em 2016.

TEMA DA SEMANA: O futebol de seleções está murchando, mas nós temos umas sugestões para dar

Conquistar o ouro olímpico do futebol é uma obsessão brasileira há décadas, mas se torna ainda maior pelo fato de os próximos Jogos Olímpicos serem disputados no Rio de Janeiro e pela derrota humilhante na Copa do Mundo de 2014. É a chance de recuperar um pouco o orgulho da Seleção. Mas… que Seleção?

Olimpíadas não são competições oficiais da Fifa, o que significa que os clubes não são obrigados a liberar seus jogadores. É uma briga que ocorre a cada quatro anos, e terá mais um episódio em 2016. Um caso que mostra como, por mais que clubes (sobretudo os europeus) e Fifa conversem para compatibilizar melhor os torneios ao longo dos 365 dias do ano, há problemas difíceis de se resolver.

Veja onde estão as principais armadilhas na briga clubes x federações pelo calendário.

A data Fifa que desapareceu

Era uma situação muito incômoda para os clubes. Até o ciclo da última Copa do Mundo, uma data Fifa de agosto obrigava os técnicos a liberarem os jogadores para um único amistoso, isolado e quase sempre sem nenhuma importância, no meio da pré-temporada. As seleções interrompiam a preparação para temporada às vezes a dois dias da estreia ou reuniam-se pouco depois do campeonato começar, dependendo do torneio.

O inconveniente era ainda maior porque os jogadores haviam acabado de sair de um período de treinos físicos muito intensos, e o risco de lesões era maior. Uma forma muito eficiente de irritar os clubes é machucar aquela estrela que custa milhões de euros porque o craque atuou alguns minutos em um amistoso contra a Irlanda do Norte.

O que também acontece em agosto no futebol europeu são as últimas partidas da fase preliminar da Liga dos Campeões, com equipes recheadas de selecionáveis. Ano passado, a data Fifa de agosto foi no dia 14, uma semana antes do começo dos playoffs, partidas decisivas, de mata-mata, às vezes entre equipes como PSV e Milan ou Arsenal e Fenerbahçe.

Excluir essa data do calendário era uma das principais bandeiras de uma luta vencida peloa Associação dos Clubes Europeus em 2012. Em negociações com a Uefa e a Fifa, as equipes conseguiram que o calendário do futebol internacional começasse apenas em setembro. Agora, todas as pausas para jogos de seleção tem pelo menos duas partidas. São nove a cada período de dois anos, entre uma Eurocopa e uma Copa do Mundo: setembro, outubro, novembro, março e junho. Naturalmente, em ano de grandes torneios, a última se transforma em época de preparação.

Jogos Olímpicos
O México levou a medalha de ouro para casa em Londres (Foto: AP)
O México levou a medalha de ouro para casa em Londres (Foto: AP)

O técnico das categorias de base da seleção brasileira Alexandre Galo já manifestou publicamente sua vontade de convocar Neymar para os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. Mas, nessa situação, querer não é poder. Para contar com as principais estrelas na competição organizada pelo Comitê Olímpico Internacional, precisa haver uma negociação entre clubes e federações nacionais.

A Olimpíada não faz parte do calendário da Fifa. Não é uma competição oficial e tem uma restrição de idade para os jogadores poderem atuar: apenas três jogadores acima de 23 anos podem ser convocados. Em 2016, aos 24 anos, Neymar fará parte desse trio, caso o Barcelona concorde em liberá-lo.

A favor da CBF estão a vontade do jogador de tentar liderar o Brasil a sua primeira medalha de ouro atuando em casa e o precedente que o Barcelona estabeleceu ao permitir que Lionel Messi defendesse a Argentina em Pequim, seis anos atrás. Contra a entidade está, a data, porque o torneio de futebol será realizado entre 5 e 20 de agosto. Terminaria às vésperas do começo do Campeonato Espanhol. Outro problema seria a Copa América do Centenário, edição especial do torneio sediada pelos Estados Unidos em 2016. O pior cenário possível (para o Barcelona) seria ver Neymar jogar duas competições acirradas nos meses em que deveria estar descansando e se preparando para a temporada.

Esse é o problema principal do futebol na Olimpíada. Ter bons valores não é o suficiente para montar um bom time. Muita negociação com os clubes é necessária, e às vezes, até um pouco de rebeldia. O lateral direito Rafinha brigou com o Schalke 04 em 2008 para jogar em Pequim e foi multado em R$ 1,8 milhão por desobedecer o seu clube, que não queria liberá-lo.

A solução seria a Fifa regular as datas da Olimpíada da forma como faz com outras competições. Mas não tem muito espaço no calendário internacional e seria uma medida impopular entre os clubes, predispostos de antemão a rechaçar qualquer ideia que fortaleça as seleções. Além disso, não deseja ofuscar o papel da Copa do Mundo como principal torneio entre nações, e na verdade, cada país dá importância de níveis diferentes para o torneio. Na América do Sul, por exemplo, ela é muito mais prestigiada do que em países europeus. Tudo indica que esse conflito nunca será resolvido.

Copa Africana de Nações
A torcida de Gana faz a festa durante a CAN
A torcida de Gana faz a festa (Foto: AP)

A principal competição do continente africano tem um problema muito particular: o verão é muito quente. Seria desumano obrigar os jogadores a disputarem a Copa Africana de Nações em junho ou julho, meses geralmente reservados a esse tipo de competição, e seria política e economicamente ruim organizar todas as edições na África do Sul (onde é frio no meio do ano). Por isso, os clubes europeus ganham o privilégio de sentirem brasileiros por alguns dias a cada dois anos.

A CAN costuma ser disputada entre o final de janeiro e começo de fevereiro. Rússia e Alemanha param os seus jogos nesse período por causa do frio extremo, e seus times ficam desfalcados por menos tempo. Itália e Espanha têm mais problemas, mas quem mais sofre são franceses e ingleses. A Ligue 1 tem um grande contingente de jogadores africanos, e a situação só não é pior porque janeiro e fevereiro são meses mais tranquilos no calendário gaulês. Na Inglaterra, é um momento ruim por todos os lados. Os elencos contam com muitos africanos e janeiro e fevereiro coincidem com as semifinais da Copa da Liga, partidas da Premier League e as primeiras rodadas da FA Cup para os grandes.

O pior é que os clubes europeus nem podem pedir indenização se algum atleta seu voltar da CAN com lesão. As federações africanas têm orçamentos baixíssimos se comparado com o salário de alguns dos seus astros na Europa. Em 2008, por exemplo, Essien sofreu uma séria lesão no joelho defendendo Gana, mas o Chelsea não foi atrás de compensação financeira porque o salário do meia, estimado em R$ 400 mil por semana, provavelmente levaria a federação ganense à falência.

Algumas entidades estão buscando contratos pontuais com empresas de seguro para minimizar o problema, principalmente depois que um atentado fez com que a seleção de Togo desistisse da Copa Africana de 2010. Foi quando ficou claro para os clubes europeus que às vezes as suas estrelas milionárias estão sujeitas a lesões piores que uma torção de tornozelo. Ataques terroristas não são exclusividade da África e também podem ocorrer na Europa, mas a Uefa tem dinheiro para contornar financeiramente o problema no caso de algo mais grave.

E na América do Sul?
Valdívia foi o dono do jogo na goleada do Chile sobre a Venezulea
Valdívia foi o dono do jogo na goleada do Chile sobre a Venezulea

O que era motivo de orgulho tornou-se um sentimento de tensão e apreensão. Será que o meu time terá jogadores convocados? Quantos jogos eles vão perder? Contra quem? Impactará nossas pretensões no torneio? Essas perguntas podem parecer absurdas em muitos países, principalmente na Europa, mas, na América do Sul, já são corriqueiras. E na balança, às vezes a valorização de ter o seu jogador na vitrine do futebol internacional não compensa os prejuízos técnicos.

Jorge Valdivia, por exemplo, é o principal jogador do Palmeiras no Campeonato Brasileiro e havia se aposentado da seleção chilena. No entanto, voltou atrás de sua decisão já de olho na Copa América de 2015, no Chile, e foi convocado por Jorge Sampaoli. Acabou perdendo o clássico contra o São Paulo. Havia a possibilidade de ele ser liberado do confronto contra o Uruguai, nesta terça, mas Sampaoli já afirmou que conta com ele. Na quarta, um dia depois, o Palmeiras vai inaugurar o Allianz Parque e terá, na melhor das hipóteses, um Valdivia cansado.

Esse foi o caso do Palmeiras na parte de baixo da tabela, mas Corinthians e Internacional ficaram desfalcados de, pela ordem, Guerrero e Aránguiz enquanto estão no meio de uma ferrenha disputa por vagas na Libertadores. Há uns anos, poucos jogadores que atuavam no Brasil eram chamados nas data Fifa, e quase todos eram pela seleção brasileira (onde até dava para pedir uma dispensa estratégica). Atualmente, uma eventual a boa vontade da CBF ajuda pouco se nomes de destaques são argentinos, chilenos, peruanos, uruguaios ou paraguaios.

Por isso, a negociação é muito mais difícil e a data Fifa se tornou um problema muito mais incômodo. Até porque nenhum país sul-americano respeita essas semanas de seleções nacionais e seguem seus torneios domésticos normalmente. E, se as federações do continente não amaciam para Colo-Colo, River Plate ou Nacional, não o farão com Inter, Grêmio, Palmeiras ou Corinthians.

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