Pep Guardiola costuma dizer que um campeonato se perde nas oito primeiras rodadas e se ganha nas oito últimas. É com essa máxima que o Ajax se aproxima de mais um título no Campeonato Holandês. Na tarde de sábado, todos os pensamentos estavam não no duelo contra o Excelsior, mas no jogo de volta contra a Juventus, em Turim, pela Champions League. E o placar de 6 a 2 serviu como ótima injeção de moral na equipe de Amsterdã.

Não era de se esperar algo diferente dos donos da casa, que receberam um combalido vice-lanterna buscando uma derrota que não fosse tão humilhante. E se enganou quem pensava que o técnico Erik ten Hag pouparia seus principais jogadores nesse compromisso doméstico. Para quem tanto ficou atrás do PSV na tabela, estar na condição de líder e restando tão pouco tempo para o fim da competição é um luxo muito apreciado nos vestiários dos Godenzonen.

Por isso, e talvez somente por isso, não estava sob cogitação entrar com desinteresse para buscar mais três pontos. Apenas em uma hipótese desastrosa o Ajax não sairia vencedor da rodada, afinal, estava diante de sua torcida nessa que é mais uma despedida rumo a uma decisão gigante para este momento do clube.

Com facilidade, os mandantes mostraram a classe e a progressão ofensiva que a Europa já conhece. De pé em pé, sem afobação, os gols foram saindo naturalmente. Klaas-Jan Huntelaar abriu o caminho para a goleada, com um gol de artilheiro, tocando por cima do goleiro do Excelsior. Ele ainda faria mais dois, sendo acompanhado por Dusan Tadic (duas vezes) e Kasper Dolberg, que entrou em sua vaga na segunda etapa e marcou de maneira imediata. Um golaço, aliás: em sua primeira participação, o dinamarquês recebeu lançamento primoroso de Hakim Ziyech, dominou no peito e mandou um chute acrobático para fechar a conta da tarde.

E aí cabe observar que o jogo estava tão fácil que a defesa se permitiu cometer algumas falhas. Na primeira, Daley Blind foi deixado em um verdadeiro mato sem cachorro, marcando dois adversários. Mounir El-Hamdaoui, que já teve passagem por Amsterdã em um passado não muito distante, entrou em velocidade para marcar o gol inaugural dos visitantes. O segundo saiu quando as coisas já estavam plenamente resolvidas, em um lance de bola aérea, com cabeçada de Jeffrey Fortes, aos 44 minutos da etapa final.

Sinal de alerta

Um resultado justo, com mais uma grande atuação da dupla Tadic e Huntelaar, mas que foi ofuscado pela preocupação com outro prodígio da companhia: no primeiro tempo, logo após o gol que abriu os trabalhos na Johan Cruyff Arena, o meia Frenkie De Jong saiu com dores na coxa e seguiu direto para os vestiários para iniciar tratamento. A expectativa é isso que não seja um problema grave o suficiente para tirá-lo da partida do meio de semana, na Itália.  Seria um desfalque seríssimo para as pretensões holandesas de sobrevivência no torneio europeu. “Não posso dizer muito ainda”, afirmou o técnico Erik ten Hag. “Foi uma lesão na coxa e não quisemos correr riscos. Agora, temos que esperar e ver como será nos próximos dias”. 

Respeitando os idosos (e os garotos também)

Às estatísticas curiosas. De acordo com o xará Felipe dos Santos, do blog Espreme a Laranja, velho conhecido deste espaço, Huntelaar empatou com Dennis Bergkamp na artilharia da história da Eredivisie, com 103 gols. E mais: o camisa 9 dos ajacieden é também o mais velho a marcar um triplete na Liga, no alto de seus 35 anos.

Sabe aquele negócio de respeitar a base? Então, segundo estatística da BBC Sport, o Ajax conseguiu engatar uma sequência de 1750 jogos com pelo menos um atleta formado no clube como titular. A série começou, pasme, em 1982.

Números curiosos

Este, aparentemente, é um Ajax particularmente interessado em recordes e façanhas. O time que já tem 106 gols em uma mesma edição do Holandês também quer experimentar o outro lado da história das grandes entregadas. Em 2015/16, sob o comando de Frank De Boer, liderou 26 de 33 rodadas, até tropeçar na derradeira e dar o título de bandeja ao rival PSV, após empate com o De Graafschap.

Três anos depois, o tropeço mudou de casa. O PSV foi o time da ponta em 25 rodadas consecutivas, e começou a sentir o baque na derrota para o seu arquirrival, por 3 a 1, no último dia de março. A alternância de líder se deve muito a este baque emocional dos Boeren, que na rodada seguinte sofreram horrores para segurar um empate com o Vitesse, em Arnhem, por 3 a 3. Parece difícil acreditar nisso, mas a pressão ainda está toda na turma de Eindhoven, não o contrário, justamente pelo papel fraco de Mark Van Bommel e seus pupilos na Europa e na Copa da Holanda, competição na qual o Ajax fará a final diante do Willem II, em 5 de maio.

Enquanto se divide entre três competições, o Ajax volta a sonhar. Primeiro com a retomada do poder dentro do país, e depois com a recuperação de sua autoestima em competições grandes como a Champions. A Tríplice Coroa parece impensável, mas o orgulho voltou a ser a sensação predominante em Amsterdã, ao menos.

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