A conquista da Copa Africana de Nações garante uma glória a vários jogadores reconhecidos da seleção argelina. Raïs M’Bolhi, Aïssa Mandi, Adlène Guedioura, Riyad Mahrez e Sofiane Feghouli ajudam a encabeçar uma importante geração das Raposas do Deserto. Reservas ao longo do torneio, Islam Slimani e Yacine Brahimi até saíram do banco nos minutos finais da decisão contra Senegal para desfrutar um pouco mais o gosto do título. Porém, a campanha também termina protagonizada por um jovem que deve carregar o time por mais tempo. Aos 21 anos, Ismaël Bennacer gastou a bola ao longo da CAN 2019. Mesmo com a concorrência do decisivo (e mais midiático) Mahrez, ele merecidamente recebeu o prêmio de melhor jogador da competição. Foi muito regular, entre seu empenho sem a bola e a qualidade com ela.

Bennacer, assim como a maioria do elenco da Argélia, nasceu na França. O meio-campista de 21 anos tem tripla nacionalidade, filho de pai marroquino e mãe argelina. Proveniente de Arles, na região da Provença, cresceu na maior comunidade magrebina fora do norte da África. E o talento abriu portas em qualquer seleção que optasse. O garoto fez parte de sua formação nas academias da federação francesa e defendeu os Bleus na base, disputando jogos pelo sub-18 e pelo sub-19. Ao mesmo tempo, passou a ser cortejado pelas federações de Marrocos e da Argélia. Mais do que uma questão de coração, a proposta das Raposas do Deserto se tornou mais atrativa esportivamente. Enquanto os marroquinos pensavam em utilizá-lo entre os juniores, os argelinos já queriam promovê-lo ao time principal. Assim, o prodígio fez sua escolha e ganhou a primeira convocação em 2016.

Neste momento, Bennacer ainda não parecia totalmente pronto para estourar. O garoto, que deu seus primeiros passos no próprio Arles, chegou a disputar a Ligue 2 em algumas oportunidades. Também por seu destaque nas seleções de base, atraiu os clubes ingleses, pretendido por Manchester City e Arsenal. Optou pelo norte de Londres, assinando com os Gunners em 2015, em negócio que custou €300 mil. O meio-campista integrou o elenco sub-23 e seria pouco utilizado pelo time profissional dos londrinos, com apenas uma aparição na Copa da Liga em outubro de 2015.

Quando ainda estava escanteado no Arsenal é que Bennacer estreou pela Argélia, em setembro de 2016. Entrou nos minutos finais da goleada sobre Lesoto nas Eliminatórias da CAN 2017, o que já o impedia de escolher outra seleção, pela oficialidade do compromisso. Permaneceu recebendo convocações e inclusive ficou no banco durante a fase final do torneio continental, no qual os argelinos caíram na fase de grupos. Só então que sua carreira começou a progredir. Emprestado ao Tours em janeiro de 2017, ganhou sequência na Ligue 2 e chamou a atenção do Empoli. Diante do desinteresse do Arsenal, os italianos pagariam €1 milhão para levá-lo ao seu elenco. Não poderiam fazer melhor acerto.

Bennacer se tornou um dos destaques da Serie B 2017/18. Jogando pelo lado esquerdo do meio-campo, virou titular absoluto do Empoli e contribuiu para o acesso da equipe à primeira divisão. Ao mesmo tempo, pelas mãos do lendário Rabah Madjer, ganharia oportunidades como titular da seleção argelina a partir do segundo semestre de 2017. O momento se tornava favorável. A primeira temporada na elite confirmaria o talento de Bennacer. Continuou se destacando pelo Empoli na Serie A 2018/19. Jogando na faixa central, exibiu não apenas uma qualidade técnica refinada para os dribles e para os passes, mas também uma boa capacidade de marcação. Apesar do rebaixamento de sua equipe, sairia valorizado da campanha.

Após a chegada de Djamel Belmadi ao comando da Argélia, Bennacer demorou um pouco para convencer o novo treinador. Reserva durante as eliminatórias da CAN, ganhou a posição nos amistosos preparatórios ao torneio continental. E a ótima atuação na estreia contra o Quênia, dando a assistência para um dos gols, seria a garantia de sua posição no 11 inicial. Jogando centralizado no quarteto de meias do 4-1-4-1 argelino, o camisa 22 serviu como o motor do meio-campo. Distribuiu o jogo e conduziu o setor, para apresentar todo os seus predicados.

Bennacer não balançou as redes nesta Copa Africana, mas levou perigo em suas finalizações de fora da área. Já a maior virtude veio mesmo nos passes decisivos. Voltaria a dar uma assistência na vitória sobre Guiné, nas oitavas de final. E o gol do título, contra Senegal, teve a sua assinatura. Ganhou a bola no meio-campo e passou para Baghdad Bounedjah definir – com uma dose de sorte, é claro. A atuação de Bennacer na final nem seria das mais brilhantes, em um confronto travado, na qual o meio-campista contribuiu mais com sua combatividade. O seu melhor aconteceu nos duelos contra Costa do Marfim e Nigéria, unindo a onipresença na intermediária e os bons passes em profundidade para acelerar o jogo das Raposas do Deserto.

Das 17 aparições de Bennacer na seleção da Argélia, sete aconteceram na Copa Africana. Demonstra como tem um grande futuro pela frente, quem sabe para também disputar uma Copa do Mundo com o país. A conquista continental, sem dúvidas, revigora o trabalho dos argelinos rumo a 2022. Até lá, o meio-campista deverá se desenvolver um pouco mais na Serie A. Tende a continuar na primeira divisão italiana, em negócio já encaminhado pelo Milan. O Arsenal até possuiria a preferência em uma cláusula de recompra, mas decidiu não exercer a opção e a oficialização da transferência aos rossoneri deverá acontecer durante os próximos dias, por estimados €16 milhões. Por tudo o que se viu na CAN, é uma contratação para gerar expectativas positivas nos milanistas. Em uma competição que não ofereceu exatamente tanta qualidade, Bennacer desequilibrou.