A Premier League não está em uma situação das mais fáceis neste momento. É pressionada para ajudar os clubes das divisões inferiores ao mesmo tempo em que não tem perspectiva razoável de reaver as receitas de bilheteria pelo menos até março, mas também não pode reclamar que não tem dinheiro porque acabou de gastar mais de £ 1 bilhão no mercado de transferências. Como é comum nestas situações, quem acaba pagando a conta é o torcedor. Nesta sexta-feira, a liga inglesa anunciou que metade dos seus jogos do mês de outubro será transmitida no modelo pay per view, a um custo extra de £ 14,95 por partida.

Desde o início da pandemia, a Premier League recebe críticas de todos os lados, algumas justas, outras menos justas. As primeiras mais fortes surgiram quando alguns clubes decidiram utilizar um programa de auxílio do governo para tirar 80% de salários até £ 2,5 mil das suas contas. Depois, os alvos foram jogadores que ainda não haviam concordado com cortes ou adiamentos de vencimentos – sem entrar no mérito da questão, sempre há algum político pronto para se aproveitar da percepção pública de que as estrelas do futebol ganham demais.

Um ponto de muito atrito tem sido um potencial auxílio às divisões inferiores do futebol inglês. A Premier League havia anunciado uma doação, no começo de abril, mas com a prolongada ausência de torcedores dos estádios, os clubes da Football League – segundo ao quarto patamar da pirâmide – temem não sobreviver a uma temporada quase completa, ou completa, sem receitas de bilheterias, uma das suas principais fontes de dinheiro. Negociações estão em andamento entre a liga, o governo e a EFL sobre um pacote de resgate.

Houve também questionamentos se o retorno aos jogos com portões fechados não solidificaria a posição do futebol inglês como um produto majoritariamente direcionado às televisões, ou até mesmo, em um cenário hipotético extremo, que eventualmente não se sentiria a falta das arquibancadas cheias. O clima frio dos estádios nas transmissões desde a retomada contrariou essa hipótese e deixou até mais claro o quão importante os torcedores são inclusive para o produto televisivo.

No entanto, sem acesso ao estádio, como os torcedores veriam o seu time? A Inglaterra não transmite todos os jogos em território nacional, nem na TV fechada. Existe um horário de sábado que é bloqueado desde os anos 1960, em parte para não desencorajar o público a comparecer aos estádios. Nas discussões para a retomada do futebol inglês, em junho, as emissoras decidiram disponibilizar todos os jogos ao público, incluindo na TV aberta. A BBC realizou suas primeiras transmissões ao vivo da era Premier League.

Essa medida foi estendida para as primeiras rodadas da nova temporada, em setembro. Havia a expectativa de que o governo liberasse o retorno parcial do público aos estádios a partir de outubro, mas novos surtos de Covid-19 no Reino Unido inviabilizaram esse cronograma. Os clubes foram informadas que deveriam se preparar para manter as arquibancadas vazias até março, que marca o fim do inverno no hemisfério norte. Diante dessa perspectiva, eles decidiram que não queriam mais entregar aqueles jogos ao público de graça.

Metade dos jogos será transmitida em modelo pay per view pela Sky Sports e pela BT Sport, emissoras que detêm os direitos da Premier League na TV fechada. A medida, por enquanto, vale apenas para outubro e será reavaliada para o mês seguinte. Cada uma das partidas custará £ 14,95, além da mensalidade desses canais. A liga inglesa, em uma nota, anunciou a novidade como algo positivo, mas nem todo mundo no futebol inglês viu da mesma forma.

“A Premier League confirmou que todos os jogos até o fim de outubro continuarão disponíveis para os torcedores assistirem ao vivo no Reino Unido. Dentro deste novo acordo, as atuais partidas ao vivo selecionadas continuarão transmitidas normalmente. Além delas, cinco jogos por rodada que não foram escolhidos pelas emissoras serão transmitidos aos torcedores em um modelo pay-per-view”.

“Os clubes concordaram com esta solução interina para permitir que os torcedores continuem a ver seus times ao vivo. A Premier League trabalhou próxima com a Sky Sports e a BT Sports para fechar esse acordo e agradece o apoio delas. O acordo será regularmente revisado em consulta com os clubes e de acordo com as decisões tomadas pelo governo para o retorno dos torcedores ao estádio”.

“O futebol não é o mesmo sem torcedores nas partidas. A Premier League e nossos clubes continuam comprometidos com o retorno seguro dos torcedores assim que possível”, completou.

Gary Neville, um dos comentaristas da Sky Sports, disse o óbvio: “É uma jogada bem ruim da Premier League cobrar £ 14,95 por jogos que foram transmitidos de graça nos últimos seis meses”.

A Associação dos Torcedores de Futebol comemorou a decisão da Premier League como uma vitória da sua campanha para que todos os jogos fossem transmitidos. Havia a possibilidade de alguns ficarem totalmente no escuro, mesmo sem a presença de público no estádios. No entanto, em um comunicado, a entidade expressou preocupação com o preço que será cobrado.

“O anúncio mostra que a força dos torcedores funciona. No começo desta temporada, a Premier League e as emissoras planejavam deixar seus torcedores completamente isolados dos jogos dos seus times; agora, graças à pressão constante da nossa campanha #DeixeNosVer, todos os jogos estarão disponíveis aos torcedores”, afirmou.

“Muitos clubes da Premier Legue já tiraram dinheiro de seus torcedores por partidas a que eles não podem ir (por causa de carnês de temporada), então pedimos que eles sejam reembolsados o mais rápido possível. Também ouvimos de muitos torcedores e membros da Associação preocupações pelo preço de £ 15 por jogo e pedimos que a BT Sport e a Sky Sports reconsidere esse preço para essas partidas”, acrescentou.

A Premier League pode argumentar que essa receita compensaria pelo menos parte do que foi perdido com as bilheterias, mas o presidente do Grupo de Torcedores do Newcastle, Alex Hurst, tem a resposta pronta: “A ideia de que os clubes da Premier League precisam do pay per view por necessidades econômicas teria mais peso se eles não tivessem acabado de gastar £ 1 bilhão em jogadores, passado o salário de funcionários ao governo, recebido empréstimos do governo, não estivessem cobrando torcedores por jogos para os quais eles não podem ir ou demitido milhares de funcionários”.

A Premier League gastou em torno de £ 1,4 bilhão em reforços, £ 400 milhões a menos do que na temporada passada. O Tottenham tomou um empréstimo de £ 175 milhões do Banco da Inglaterra – e fez um mercado de aproximadamente £ 90 milhões – e os “milhares de funcionários demitidos” foi provavelmente uma hipérbole de Hurst porque o clube da elite inglesa que mais dispensou empregados, até onde se sabe, foi o Arsenal, com 55.

“Com os estádios fechados, os torcedores fiéis têm uma decisão difícil a tomar”, afirmou o editor do site de educação financeira MoneySavingExperts.com, Gary Caffel, ao Guardian. “Pagar os £ 15 a mais pelos jogos não incluídos na mensalidade, que foram mostrados de graça no fim da temporada passada, ou não assistir ao seu clube em ação. Muitos sentirão que estão, novamente, sendo tratados como vacas leiteiras”.

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