Mal acaba o Brasileirão, e logo começam as cerimônias de gala dedicadas a premiar os melhores do campeonato. Eventos cheios de pompa, que nem parecem muito daqui e por vezes soam como descolados da realidade, mas que servem para reconhecer aqueles que escreveram a história da competição. A Série A não conta mais com os melhores jogadores brasileiros há bons anos, mas ainda possui aqueles que firmam suas idolatrias no país, mesmo que efêmeras. E tanto a Bola de Prata quanto o prêmio da CBF / Rede Globo valem para garantir um espacinho na memória a quem realmente ajudou seu time ao longo das 38 rodadas. Certo dia no futuro, quando se quiser olhar para o passado e relembrar quem fez bonito no presente, são essas listas que servirão de referência. As unanimidades amplificam este efeito.

Neste sentido, os prêmios máximos a Dudu fazem tanta justiça. O atacante realmente desequilibrou durante o segundo turno fantástico do Palmeiras. Apareceu em jogos grandes, garantiu pontos importantes, infernizou a vida dos rivais em simplesmente todos os clássicos. Talvez essa, aliás, seja a maior marca desta campanha ao jogador: Corinthians, São Paulo e Santos sucumbiram diante do alto nível apresentado pelo baixinho. É a memória viva dos alviverdes, agora referenciada por dois troféus individuais, a Bola de Ouro e o Craque do Brasileirão. Some-se a isso os tantos passes decisivos e os dribles para cima dos marcadores, e está construído o legado do craque do campeonato. Mais uma referência à sua trajetória brilhante no Allianz Parque desde que chegou ao clube.

Melhor lateral direito da Série A, Mayke foi condecorado em ambas as cerimônias. Outro que fez valer o bom momento no Palmeiras, também uma redenção pessoal. Depois de viver grandes sucessos com o Cruzeiro, compartilha a experiência vestindo verde. E se a hegemonia de Dudu pudesse ser colocada em xeque, seria justamente por Bruno Henrique, capitão e terceiro unânime palestrino. Entre as muitas contratações do clube nos últimos anos, o volante pode ser colocado entre as melhores, justamente pela forma como deu encaixe ao time. Não esmorece no combate e dá larga contribuição no apoio ao ataque. Virou dono do setor que possui outros medalhões ou mesmo jogadores com moral em títulos anteriores. Por essa imposição e por essa liderança, tanto técnica quanto como mental, fica gravado como uma das referências desse time. Herói merecido, taça nas mãos.

O Internacional também repetiu dois jogadores nas premiações. Victor Cuesta ascendeu como esteio no sistema defensivo bastante eficiente montado pelos colorados. Quando o time rendeu muito além do esperado em parte do campeonato, com jogadores se superando, o zagueiro parecia oferecer uma energia a mais para que os companheiros se alavancassem. Ótimo durante a campanha e, por isso mesmo, incontestável. Já ao seu lado, Rodrigo Dourado foi outro a se tornar aclamado muito além do Beira-Rio. Não é de hoje que o volante, promessa de tempos passados do Inter, é visto com bons olhos. Mas não com o nível de segurança e maturidade demonstrado no Brasileirão. As vezes em que o meio-campista desfalcou a equipe renderam noites de insônia à torcida. A engrenagem girou ao seu redor, também impulsionando os parceiros de setor.

Do Grêmio, se Kannemann e Everton mereciam mais sorte, apenas com o meia recebendo a Bola de Prata, Geromel encheu um pouco mais a prateleira de sua casa. A transformação tricolor nestes últimos anos passa invariavelmente pelo zagueiro sem muita pinta de zagueiro, mas com uma senhora inteligência tática e uma qualidade técnica refinada para desempenhar o ofício melhor do que qualquer outro no país desde seu desembarque. Prova disso? Desde que foi contratado pelos gremistas, sob dúvidas após uma carreira sólida e sem muita badalação pela Europa, o beque recebeu quatro Bolas de Prata. Isso mesmo: quatro campeonatos seguidos figurando entre os dois melhores de sua posição, algo que nunca acontecera na quase cinquentona condecoração criada pela Placar. E ainda veio mais um troféu da CBF / Rede Globo, o seu terceiro consecutivo.

Já o Flamengo teve os seus dois nomes sacramentados por ambas as premiações. Renê, um defensor tantas vezes criticado e tratado como mero figurante no elenco, talvez tenha sido o jogador mais regular do clube no ano. Vida de lateral não costuma ser fácil, mais perto da galera pra ouvir os xingamentos. Ainda assim, o melhor da posição se desdobrou, se esfolando na marcação e dando a sua contribuição no apoio. E há o reconhecimento a Lucas Paquetá, lágrimas no rosto por ter sua saída acertada ao Milan. O jovem também precisou lidar com as cobranças quando o time não esteve bem. Mas é quem melhor representa aquilo que os rubro-negros desejam: um jogador identificado com o clube, que não deixa de aparecer nos jogos e sempre tenta resolver com seu máximo empenho. Falta dosar um pouco melhor essa energia, assim como entender melhor qual sua real posição em campo. Mas quando esteve em sintonia com a equipe, fez os flamenguistas sonharem.

Por fim, o renascimento de Gabigol. O atacante do Santos ainda tem seus entraves a resolver, tantas vezes criticado por sua postura. O retorno à Vila Belmiro, ao menos, serviu para que justificasse o apelido após a malfadada passagem pela Europa. Talvez não seja um jogador às equipes mais competitivas do Velho Continente, mas sabe se posicionar e bater na bola, isso é fato. Com 18 gols na campanha, arrebatou a artilharia e as honrarias individuais em conjunto. Uma lição, quem sabe para que volte com mais vontade ao Velho Continente, justificando a aposta que se faz em seu futebol.

Weverton e Marcelo Lomba, como goleiros; e Everton e De Arrascaeta, como pontas; foram as únicas peças divergentes em ambas as premiações. Desde a criação do prêmio da CBF / Rede Globo, em 2005, este é o recorde de nomes coincidentes – nove, assim como ocorreu 2010. Outros ainda receberam suas homenagens, como Luiz Felipe Scolari e Marta – celebrada em ambas as cerimônias. Um acerto da CBF, aliás, foi ter incluído na festa também o troféu às melhores jogadoras do Brasileirão Feminino, ajudando a dar visibilidade às principais atletas do esporte.

Uma coisa é inegável: essas premiações não conseguem absorver recortes do campeonato (por exemplo, aqueles que brilham em momentos decisivos) e tantas vezes deixa de lado estrelas de clubes que não necessariamente sonharam com o título. Mas valem, mais do que para gerar debate atualmente, para se ter uma noção mais ampla do que ocorreu no passado. E as concordâncias das listas ajudam a consagrar.

As seleções dos melhores

Bola de Prata (ESPN): Weverton, Mayke, Geromel, Cuesta, Renê; Dourado, Bruno Henrique, Paquetá; Everton, Gabigol, Dudu. Técnico: Luiz Felipe Scolari.

Craque do Brasileirão (CBF / Rede Globo): Marcelo Lomba, Mayke, Geromel, Cuesta, Renê; Dourado, Bruno Henrique, Paquetá; De Arrascaeta, Gabigol, Dudu. Técnico: Luiz Felipe Scolari.