Os vídeos são raros e, quando existem, mostram mais os gols sofridos do que as defesas. Mesmo que o acesso a acervos históricos seja amplo, é difícil avaliar a qualidade de um goleiro de antigamente através apenas desses recursos. Afinal, quem passa solitário os 90 minutos, quase sempre aparece sofrendo nos melhores momentos de uma partida. Ainda assim, não é o passado em preto e branco que impede de Lev Yashin ser apontado por muitos como o melhor goleiro da história. A memória pode revelar muito mais do que as imagens. E, para muita gente que se lembra, o Aranha Negra é praticamente uma unanimidade.

Yashin dedicou a vida toda ao Dynamo Moscou. O clube que o revelou também foi o da despedida de sua carreira. Tratado com honras de estado na União Soviética, nunca abandonou a cidade natal. Sequer teve a chance de disputar a Champions, em tempos nos quais os soviéticos não entravam no torneio. Mas, de tão querido, tinha seus equipamentos carregado por torcedores quando voltava dos treinos para casa, e os seus feitos pelo clube são até hoje cantados pelos alviazuis. Grandeza que rendeu uma honraria que até hoje nenhum outro goleiro possui (e talvez demore até repetir): a Bola de Ouro, conquistada em 1963.

VÍDEO: Os 85 anos do Aranha Negra: as defesas e a classe de Lev Yashin

O Aranha Negra conquistou o prêmio especialmente pela temporada magnífica que fez com o clube. O Dynamo sofreu apenas 14 gols em 38 rodadas pela competição, sendo que, com Yashin na meta, foram apenas seis bolas na rede em 27 partidas. No entanto, o troféu tinha um significado maior. O camisa 1 já era reconhecido internacionalmente naqueles anos, campeão olímpico e da primeira edição da Eurocopa com a seleção soviética. Era condecorado muito mais pela revolução que proporcionou à posição.

Pode até ser que outros goleiros fossem tão arrojados antes de Yashin – Gylmar dos Santos Neves, de certa maneira, por exemplo. Mas eram pouquíssimos. E ninguém que tenha feito isso de maneira tão eloquente, para o resto do planeta. O homem vestido inteiramente de negro fugia do padrão da posição. Não era um goleiro de duas dimensões, que se limitava a ficar sob as traves. O soviético “descobriu” uma terceira dimensão, ao tornar frequentes suas saídas da pequena área para fechar o ângulo dos atacantes e afastar bolas altas que cruzassem a área. Se Yuri Gagarin fez história em 1961, ao se tornar o primeiro homem a viajar pelo espaço, na mesma época Yashin protagonizava um passo igualmente gigante para o futebol.

VEJA TAMBÉM: No dia do goleiro, 15 grandes defesas de 15 mitos debaixo das traves

Além disso, o craque também estava um passo à frente quanto à preparação física e técnica, com treinamentos avançados e uma explosão notável em seus saltos espetaculares. Por anteceder Maier, Banks, Buffon, Schmeichel e outros gigantes, segue tratado por muitos como o melhor goleiro da história. O precursor de quase todos os outros candidatos ao posto.

A explicação para a suas virtudes talvez venham de suas origens. Durante a adolescência, Yashin precisou sair de Moscou, enquanto os soviéticos travavam as batalhas da Segunda Guerra Mundial. Trabalhou em uma fábrica de ferramentas e chegou a ganhar uma medalha do governo por seus esforços. De volta à capital quando tinha 15 anos, logo começou a jogar pelo Dynamo, conciliando a carreira como goleiro no futebol e no hóquei. Ganhou agilidade e destreza sobre o gelo, onde chegou a ser campeão da Copa da União Soviética em 1953, quando tinha 24 anos. No mesmo período, abandonou o taco para assumir de vez a carreira nos campos, assumindo a posição que antes era de Alexei Komich. Considerado um dos melhores do país durante os anos 1940, o “Tigre” foi o grande mentor do “Aranha Negra”, especialmente pela forma como o se preparava nos treinos.

HISTÓRIA: Quantas Bolas de Ouro Pelé teria se pudesse concorrer? Nós damos a resposta

A partir de então, Yashin começou a escrever a sua lenda, especialmente pelo renome que ganhou nas Copas do Mundo. Alguns podem mencionar das falhas no torneio, mais recorrentes do que o comum para o craque. Entretanto, o soviético não seria lembrado como um dos melhores arqueiros da Copa de 1958 se não tivesse feito nada. Na Suécia, o camisa 1 se apresentou para além da Cortina de Ferro. E se consagrou em 1966, quando levou a URSS para a semifinal, fazendo grande partida contra a Alemanha Ocidental, apesar da derrota.

A despedida de Yashin aconteceu em 1971. Primeiro goleiro convocado para a seleção do mundo, somou 270 partidas sem sofrer gols e 150 pênaltis defendidos. “O orgulho de ver Yuri Gagarin voando no espaço só é superado pelo orgulho de uma boa defesa de pênalti”, dizia. Mesmo longe dos gramados, continuou atuando como dirigente do Dynamo. E, quando assistia aos jogos do time de coração, não perdia a humildade. Segundo Alexei Smertin, ex-capitão da seleção soviética, o veterano passava o jogo todo atendendo fãs e distribuindo autógrafos, sem se aborrecer.

Uma pena que Yashin não tenha vivido o suficiente para ser cultuado. Quatro anos depois de ter que amputar as duas pernas por uma tromboflebite, o goleiro faleceu em 21 de março de 1990, vítima de câncer de estômago. Tinha apenas 60 anos. Aqueles que se lembram do Aranha Negra, aos poucos, também se vão. Sua lenda, no entanto, será eterna.

Abaixo, o vídeo da despedida de Yashin, em 1971. Mais de 100 mil pessoas assistiram ao jogo em Moscou, entre o Dynamo e uma seleção do mundo que contava, entre outros, com Eusébio, Gerd Müller e Bobby Charlton.

* Há divergências sobre a data da morte de Yashin, entre 20 ou 21 de março. Entre as que apontam para este sábado está a Enciclopédia Britânica.