Em noite de Libertadores, o flamenguista mantém a precaução. Diante dos resultados e das catástrofes nos últimos anos, não há como se empolgar. E persiste uma ponta de desconfiança, uma propensão ao lamento, uma descrença que não costuma ser do feitio do rubro-negro. A torcida que cresce e faz o time crescer consigo, negando sua própria identidade, se contém em aflição. Pois pior ainda quando ela sequer está presente. O treino aberto desta terça-feira foi importante para muita coisa, especialmente para a magnética se reafirmar como massa popular. Mas não para dar uma chacoalhada num time acomodado. E, no Maracanã vazio, faltou voz para um Flamengo desesperado em gritar gol. Mais uma vez, o time decepciona no torneio continental, em uma atuação desencontrada, sem conseguir superar um adversário enfraquecido como o Independiente Santa Fe. O empate por 1 a 1 não ajuda em nada as pretensões rumo aos mata-matas. Pior, faz o flamenguista temer nova tragédia.

Até parecia que a noite do Maracanã fantasmagórico poderia ser diferente. Os ecos dos 46 mil da tarde anterior, afinal, ainda ressoavam naquelas arquibancadas vazias. E o Flamengo jogou o início do duelo como o torcedor pediu, com vontade, com raça. Foram talvez os melhores minutos do clube no ano. O ataque funcionava, abafando o Santa Fe contra a sua área, criando oportunidades. Apostando principalmente no jogo aéreo, os rubro-negros iam amassando os Cardenales, esboçando até mesmo uma goleada. Pela facilidade com que tudo acontecia, a vitória tendia a se concretizar naturalmente.

Diego deu o primeiro aviso, mas finalizou mal, ao lado da meta. Já aos sete minutos, aconteceu o gol. Diego cobrou escanteio e, diante do erro do goleiro Robinson Zapata na saída, Henrique Dourado fuzilou de cabeça. Inclusive, o Fla poderia ter ampliado a vantagem, especialmente em um chute de Juan que carimbou Zapata. O Santa Fe não acertava a sua marcação, mas se segurava como podia, se defendendo com dez. Já o time de Maurício Barbieri levava perigo com a mobilidade de Paquetá e Vinícius Júnior.

A confiança, no entanto, pareceu fazer mal ao Flamengo. Logo a equipe esfriou e tomou para si uma impressão enganosa de seu domínio. Os rubro-negros não criavam e, com os colombianos apresentando uma maior coesão defensiva, diminuíram o ritmo. Quando ameaçaram novamente, foi em um lance fortuito. Em uma bola espetada para Vinícius Júnior, o zagueiro William Tesillo se antecipou e o árbitro interpretou como um recuo a bola matreira que Zapata precisou espalmar. Na cobrança do tiro livre indireto, Diego encheu o pé, mas a zaga bloqueou e o tiro passou por cima do travessão.

A diferença, de qualquer maneira, seguia mínima. E o Santa Fe sabia que sua chance poderia estar em um lampejo, mesmo que fosse nulo no ataque até então. Foi o que aconteceu aos 30, em sua primeira chegada. Em uma cobrança de falta levantada à área de Diego Alves, Renê fez o corte e Diego teve a chance do contra-ataque. Porém, o camisa 10 furou e permitiu que os colombianos armassem outro contragolpe. Pegaram a defesa rubro-negra desmontada, com Anderson Plata avançando pela direita e cruzando para o artilheiro Wilson Morelo emendar às redes. O Fla pareceu abalado. Não demonstrou mais nada em 15 minutos mortos. No máximo, uma finalização bisonha de Dourado.

Para o segundo tempo, o Flamengo mostrou mais pressa. O que não queria dizer que o time jogava bem. Era uma série de movimentos descoordenados, tal qual um corpo se debatendo para evitar o iminente afogamento. Aos dez minutos, vieram as primeiras alterações. Henrique Dourado, o ausente, deu lugar a Lincoln e fez cara de quem não gostou. Já Everton Ribeiro, tão efetivo quanto a torcida que fazia barulho no Maracanã, saiu para a entrada de William Arão – um jogador que contribui por sua energia, mas descompensa pela quantidade de erros.

Com o novato como homem de referência, o Flamengo ganhou mais presença de área. As combinações com Vinícius Júnior, seu parceiro na base, saíam um pouco mais. Ainda assim, era um time sem repertório, que parecia nervoso demais para decidir qualquer coisa. E vale ressaltar, também, a propriedade com a qual o Independiente Santa Fe se defendia. Um time compacto, que raras vezes se atrevia a atacar, mas administrava bem a vantagem. O zagueiro Tesillo era um gigante para controlar a situação.

Sabe aquela noite na qual tudo parece dar errado? O flamenguista sabia. O desanimo batia a cada bola que pipocava e passava longe do gol. A área parecia uma área proibida para se entrar com a pelota dominada. E nem mesmo com o goleiro Zapata passando zero segurança, o Flamengo acertava as jogadas. Vinícius Júnior, Arão ou quem mais fosse não acertava o pé. Aos 29, em jogadaça de Lincoln, Paquetá emendou a bicicleta, mas mandou para fora. E o “acredito” diminuiu um pouco mais quando Vinícius Júnior, um cara para pelo menos tentar o diferente, saiu para que um pilhado Geuvânio não contribuísse.

O fio de esperança do rubro-negro, se ainda existia, estava em uma bola vadia alçada à área. Afinal, aquela parecia a única coisa que o time conseguia enxergar em meio à cegueira da ansiedade. Mas,  em dois lances consecutivos, por volta dos 35 minutos, ficou claro que a redonda não estava disposta a entrar. Na primeira, um bate-rebate que a zaga do Santa Fe acabou safando. Logo depois, Almir Soto salvaria duas vezes em cima da linha, até que o árbitro marcasse falta. Então, a agonia era esperar o caminhar dos ponteiros.

Diego poderia ter feito a diferença aos 42, mas, com Lincoln sozinho, preferiu carimbar o goleiro. Já no último lance do jogo, falta perigosa no limite lateral da grande área. O manual do torcedor fiel mandaria qualquer um cruzar os dedos pelo gol salvador. Mas a experiência do flamenguista ressabiado na Libertadores sabia que não daria em nada. De fato, não deu, com Paquetá desviando para fora.

O resultado para o Independiente Santa Fe é enorme. Um time limitado, mas consciente. Cometeu erros que poderiam ser fatais – sim, Zapata, falo de você. Só que, em compensação, fez o Flamengo sofrer na única chance realmente clara que criaram. O alívio é imenso, principalmente pela crise interna que se enfrenta em Bogotá. Depois de uma sequência ruim, o time chega aos três pontos no Grupo 4 da Libertadores, com chances de classificação ao enfrentar seus dois adversários diretos em casa no returno.

Já ao Flamengo, fica o receio. E antes de falar sobre o cenário geral, não posso deixar a oportunidade passar: Diego é um atraso a este time. O camisa 10 fez no Maracanã uma de suas piores partidas pelo clube, entre as muitas exibições ruins recentes. Deu a assistência a Dourado, ok. Mas entregou a bola no gol do Santa Fe e colecionou decisões erradas. Perdeu chances, não contribuiu à criação além das bolas paradas, demonstrou um nervosismo que não pode ser natural a um atleta com sua rodagem. Os desarmes que sofreu, por sorte, não foram mais dispendiosos. E a falta de fluidez, em um time essencialmente leve com Vinícius Júnior e Lucas Paquetá, torna os rubro-negros previsíveis demais. O meia teve bons momentos desde que chegou ao Rio de Janeiro, mas, hoje, a impressão é que as coisas só andarão quando ele sair. Até por sua prolixidade em cada entrevista, pela empáfia distante da vontade que se cobra.

Sobre o time, dez minutos excelentes não devem sobrepor os outros 80, carentes de ideias e de clareza. A torcida fez falta para energizar a equipe. Só que não se pode colocar apenas na conta dela a incompetência de um grupo caro demais para o futebol que (não) apresenta. Pela maneira como o jogo se configurou, o Flamengo deveu demais. E, embora o empate não seja o fim do mundo, exige uma sequência de competição que se vislumbra no atual trabalho. Os rubro-negros lideram com cinco pontos, podendo ser igualados pelo River Plate nesta quinta. Mas, para manter a dianteira no returno, os cariocas precisarão vencer fora de casa – um problema crônico nas outras edições da Libertadores. O flamenguista de verdade não deixa de acreditar. Porém, também tem sua razão óbvia para se preocupar.


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