Você pode fazer um argumento sobre caminhos alternativos a Reinier, mas poucos deles seriam sequer comparáveis ao empréstimo de dois anos ao Borussia Dortmund, sacramentado nesta quarta-feira (19).

Aos 18 anos, Reinier chegou ao Real Madrid em janeiro de 2020, depois de impressionar pelas categorias de base do Flamengo e da seleção brasileira e mesmo em seus primeiros meses como jogador profissional na Gávea. Seu teto de potencial é enorme e, a essa altura, estar jogando constantemente é essencial para o seu desenvolvimento. Se for em uma liga de competitividade considerável, melhor ainda, e a Bundesliga é solo perfeito para o seu crescimento no início da carreira.

Nos últimos anos, o Campeonato Alemão fortaleceu sua identidade de liga formadora, de onde saem alguns dos melhores jogadores do mundo. A atratividade para os jovens cresceu sobretudo a partir da ida de Jadon Sancho das categorias de base do City para o Borussia Dortmund. A rapidez com que o inglês ganhou a titularidade, as manchetes, a vaga na seleção inglesa e a etiqueta de um dos melhores jovens atletas do mundo fortaleceu o caso dos aurinegros de que o Signal Iduna Park é dos principais caminhos para alguém em seu início de carreira progredir.

Depois de Sancho, uma onda de jovens jogadores britânicos passou a desembarcar na Alemanha, entre eles Reiss-Nelson, Ethan Ampadu, Jonjoe Kenny e Ademola Lookman, cada um com seu grau de sucesso. Essa nova rota para jovens atletas, no entanto, vai além dos britânicos. Achraf Hakimi é um outro exemplo de sucesso, ele próprio vindo do Real Madrid.

O marroquino pertencia aos Blancos e foi cedido por dois anos ao Borussia Dortmund. Nessas duas últimas temporadas, jogando como ala direito, se destacou como um dos melhores do mundo em sua posição, tirando proveito do jogo ofensivo da equipe de Lucien Favre. Ao fim do empréstimo, não ganhou a confiança de Zinedine Zidane para chegar e brigar por vaga com o medalhão Dani Carvajal. Entretanto, seu desempenho foi suficiente para conseguir uma transferência de € 40 milhões à Internazionale, que vive um momento importante de transição e promete cada vez mais competitividade nos próximos anos, depois de terminar a Serie A 2019/20 com o vice-campeonato e alcançar a final da Liga Europa, que ainda pode vencer, com a final a ser disputada nesta sexta-feira (21), contra o Sevilla.

Reinier com a camisa do BVB (Divulgação/Borussia Dortmund)

A única ressalva de momento que se pode fazer à transferência de Reinier ao Dortmund é a alta concorrência por uma vaga no setor ofensivo aurinegro, que conta com tantos jogadores de enorme talento, entre eles Thorgan Hazard, Erling Haaland, Giovanni Reyna, Jadon Sancho, Marco Reus e Julian Brandt. Entretanto, a rotatividade é grande no clube alemão, os dois anos dão margem para que o brasileiro brigue pela vaga, e o clube segue a filosofia de que “se você é bom o bastante, é velho o bastante para jogar”. Além disso, com alguém com tantas expectativas o cercando como é Reinier, um desafio desses precisa ser bem-vindo em vez de temido.

No momento, é um pouco difícil imaginar como o garoto poderia se encaixar taticamente na equipe de Favre. O esquema preferido nos últimos tempos têm sido o 3-4-3, em que não é simples visualizar a entrada de um segundo atacante como Reinier. Porém, ainda é cedo para pensar nisso, e o próprio treinador do Dortmund indica que precisa conhecer melhor o jogador para imaginar como utilizá-lo.

“Ele é um 9-e-meio que pode jogar de falso nove ou pelas pontas. Não sei se ele pode jogar como número 8 em um sistema de 4-1-4-1. Ele é muito jovem, e nosso ataque já é como uma escola. Porém, do que eu vi, posso dizer que ele é muito bom no ataque e nas finalizações. Aos 18 anos, tem muito o que melhorar. Precisamos ser pacientes com jogadores jovens”, explicou Favre.

Uma visão reducionista do caso de Reinier pode levar algumas pessoas à conclusão de que o brasileiro não foi bom o bastante para justificar sua presença no Real Madrid após a chegada. Porém, o caminho que começa a tomar agora é uma política de longa data do clube, que tem investido alto em jogadores sub-21, os iniciado no Castilla, emprestando-os mais tarde a grandes centros na Europa. Foi, por exemplo, o caso de Casemiro, Valverde e Asensio, todos esses hoje peças importantes da equipe de Zidane. Outros tantos exemplos podem ser levantados, como Odegaard, Kubo e Reguilón, embora este último seja da própria base do Real.

Neste sentido, Reinier vai a um clube quase que perfeito para o seu futebol. Altamente ofensivo, habilidoso e incisivo próximo ao gol, jogará em uma equipe que de tanto gostar de atacar acaba até pecando na defesa pela falta de equilíbrio – ainda que este problema pareça estar em curso de reparação nos últimos meses.

No futebol aberto e ofensivo da Bundesliga, em um time de ataque fluido e grandes talentos, Reinier pode começar a deixar sua marca na Europa.