O senhor de cabelos brancos surge à beira do gramado com o uniforme completo. Meiões, calção, a sua estimada camisa alviverde e até mesmo a braçadeira de capitão. Porém, o número nas costas indica a ocasião especial, atípica para quem se acostumou a fazer o mesmo trajeto por dez anos como jogador profissional do Coritiba. Dirceu Krüger está ali para dar apenas o pontapé inicial partida. Mas, além disso, para ser merecidamente ovacionado pelo Couto Pereira. Um dos maiores ídolos da história do Coxa (para alguns, o maior) completa 50 anos de serviços prestados ao clube, nas mais diferentes funções. Dedicação que, antes mesmo disso, já era feita como fanático torcedor.

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Dirceu cresceu em uma região próxima ao Alto da Glória, onde logo aprendeu a amar o verde e o branco. O garoto que se destacava nos campinhos da periferia de Curitiba passou antes pelo Britânia, antes de ser contratado pelo Coritiba. Em 24 de fevereiro de 1966, o ponta esquerda assinou o primeiro contrato com seu clube de coração. Amor que se transformou em gols, grandes atuações e títulos – liderando uma das maiores hegemonias da história do clube no Campeonato Paranaense. Entrega que quase foi paga com a própria vida, quando Krüger sofreu em campo uma séria lesão no intestino e passou 70 dias no hospital. Recebeu por duas vezes a Extrema Unção, antes de retornar triunfalmente (e com gol) sete meses depois.

Idolatrado pelos alviverdes, o Flecha Loira se aposentou em 1976, com 252 partidas e 58 gols no currículo. Mas não abandonou o Coritiba. O torcedor devotado também trabalhou como técnico, como interino, como formador de promessas. Serviu de verdadeiro embaixador da paixão alviverde. As homenagens constantes, no entanto, ganharam um caráter especial nesta semana. Dirceu Krüger se tornou ainda mais eterno, em um conjunto de ações raro de se ver, e que retratam bem sua importância na história do Coxa.

A partir de um esforço coletivo dos torcedores, uma estátua em tamanho real de Dirceu foi inaugurada em frente ao Couto Pereira nesta quarta-feira, dia do cinquentenário de sua chegada ao Coritiba. O fãs arrecadaram mais de R$ 160 mil para reproduzir em bronze a fotografia mais célebre do ponta esquerda, comemorando um gol em 1973, em imagem que já havia se tornado bandeira nas arquibancadas. Além disso, o Coxa fez questão de inscrever o senhor prestes a completar 70 anos no BID da CBF. E, apesar do empate por 3 a 3 com o Rio Branco, a noite especial nesta quinta ainda acabou em euforia (em um estádio que, pela ocasião, poderia estar mais cheio), diante do gol anotado pelo goleiro Wilson para empatar o jogo aos 51 do segundo tempo.

Apesar da idade e da história, Dirceu Krüger segue se dedicando ao Coritiba como funcionário do clube. E dando exemplo. Sua estátua em frente ao local de trabalho e a idolatria que recebe diariamente não são motivos para perder a humildade, para se esquecer de suas origens, para deixar de se ver como mais um torcedor. Por isso mesmo, o Flecha Loira é ainda mais venerado pelos alviverdes. Por isso se faz tão único, além de sua história dentro de campo. Por isso, merece cada detalhe das diversas homenagens que recebe e continuará recebendo enquanto for lembrado pelo Coxa. Eternamente. E serve de exemplo a um passado que clubes e torcedores no Brasil deveriam exaltar com mais frequência, e não só após a morte. Melhor ainda quando o ídolo pode sentir o carinho em vida, como Dirceu.