Não fosse o STJD, a Portuguesa estaria na Série A em 2014, teria mais dinheiro de TV e montaria um time mais digno. Talvez até estivesse na zona de rebaixamento, mas estaria caindo apenas para a segunda divisão. A linha de raciocínio é simples e mostra como a Lusa, rebaixada na última terça-feira para a Série C, estaria em uma situação muito melhor se não tivesse perdido pontos na Justiça, mas isso só serve para ajudar o clube a se afundar ainda mais.

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A escalação de Héverton e a punição imposta pela justiça desportiva foram diretamente responsáveis pelo rebaixamento da Portuguesa para a Série B. Ponto. A questão não é se o STJD estava certo ou errado (cada um tem sua opinião sobre o tema), mas a ação do tribunal após o uso de um jogador irregular fez o clube cair.

Isso tudo foi em dezembro de 2013. Houve várias tentativas de reverter essa decisão na justiça comum, o que era esperado dentro dos usos e costumes do futebol brasileiro. No entanto, esse parecia ser o único projeto da diretoria comandada por Ilídio Lico. E aí a Portuguesa começou a construir sua tenebrosa temporada 2014.

Enquanto ficava às voltas com acusações e tentativas de encontrar um caminho jurídico para retornar à elite nacional, a Lusa esquecia que tinha de botar um time de futebol em campo. A campanha no Paulistão foi de regular para fraca, com 20 pontos em 15 jogos (suficiente para a 11ª posição entre os 20 participantes). Na época, gente no clube chegou a ver com alívio o fato de o time não ter sido rebaixado no estadual, como havia ocorrido já duas vezes.

O alívio se transformou em conformismo, tratou-se aquele trabalho como algo satisfatório e o barco seguiu seu rumo assim. Logo na estreia, contra o Joinville fora de casa, um advogado invadiu o campo com uma liminar na mão dizendo que a Lusa tinha de se retirar, pois deveria estar na Série A. Impossível uma diretoria ser respeitada pela comissão técnica e pelo elenco em um cenário desses. Todos ficaram com cara de bobo enquanto eram mais uma vez derrotado no STJD. No caso, “só” perderam o jogo, pena até leve diante da possibilidade de exclusão do campeonato.

A partir daí, o clube passou por um pandemônio. Técnicos entravam e saíam, jogadores entravam e saíam. Até hipnotizador entrou e saiu. Não havia uma unidade de trabalho e a classificação na Segundona parecia cada vez mais difícil de escalar. Até que se tornou impossível, com uma derrota por 3 a 0 para o Oeste ratificando um rebaixamento que já era anunciado.

O fato de a derrota ter sido para o Oeste ajuda a expor os erros da Portuguesa. O STJD pode ter lhe tirado a vaga na Série A, e consequentemente muito dinheiro, mas a falta de uma linha de raciocínio na montagem do elenco é responsabilidade exclusiva do clube. Coisa que até o Oeste fez. O rubro-negro de Itápolis fez um Paulistão muito fraco e foi rebaixado com apenas 11 pontos. Sim, até o Oeste conseguiu se arrumar.

Se faltava dinheiro, a Portuguesa poderia ter aceitado a proposta de jogar com o elenco do Audax Osasco, grande surpresa do Paulistão, na Segundona enquanto arrumava a casa para 2015. Era uma oportunidade boa de zerar tudo enquanto tentava se reconstruir.

Apesar de tudo, cair para a Série C não é a morte. Só precisa saber em quem se espelhar para se reerguer. E a dica está em dois Américas. O America-RJ tinha conquistado em campo o direito de estar na elite do Brasileirão de 1987 e não aceitou o Módulo Amarelo. Ainda que tivesse alguma razão, os rubros ficaram tanto tempo responsabilizando o Clube dos 13 que esqueceram de montar um time. Caíram na Copa União de 1988 e nunca mais tiveram campanha de relevância nacional.

Enquanto isso, o América-MG soube se recuperar. Ficou dois anos excluído de competições da CBF, mas se reorganizou, encontrou sócios dispostos a comandar o renascimento do clube e hoje tem um espaço digno no cenário brasileiro.

A Portuguesa não morreu, mas não pode esquecer a sua culpa nas coisas ruins que aconteceram em 2014. Se jogar tudo nas costas do STJD, continuará cometendo os mesmos erros e, quando perceber que precisa mudar sua forma de gestão, estará tarde demais.

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