Manuel Colaço Dias, 63, vivia mais um dia de trabalho como taxista em Paris. Apaixonado por futebol, certamente estava empolgado com o amistoso entre França e Alemanha. Ele não iria ao jogo, mas nem por isso deixaria de sentir o clima da partida. Graças ao seu trabalho, teria a chance de passar pelas proximidades do Stade de France.

Manuel Colaço Dias, 63, não vive mais. Seu coração alviverde parou de bater minutos depois que ele deixou três torcedores nas proximidades do estádio. Foi uma das centenas de vítimas dos atentados terroristas ocorridos em Paris na sexta-feira (13). Ele e Précilia Correia, 35, que estava na casa de shows Bataclan são, até o momento, os dois portugueses oficialmente dados como mortos nos ataques – há ainda outros cinco lusitanos feridos.

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O coração de Manuel pulava pelo Sporting. A revelação foi feita pelo próprio site do clube, que homenageou o torcedor horas depois da confirmação de seu falecimento. Um amigo dele, José Fernandes, disse em entrevista à CMTV que, sempre que retornava a Rosário (terra de sua esposa), falava 90% do tempo sobre futebol. “Era um sportinguista ferrenho”, disse. Por ironia do destino, o homem que foi à França para buscar melhores condições de vida morreu enquanto trabalhava e bem próximo de um dos símbolos mundiais daquilo que ele mais gostava: o futebol.

E o futebol, o jogo que tanto amamos, ficou em segundo plano nestes dias em que a morte de Manuel e de tantos outros inocentes virou centro do noticiário. A seleção portuguesa jogou no dia seguinte, perdeu para a Rússia por 1 a 0 fora de casa, em amistoso, e pouca importância se deu à partida.

Nos bastidores, a maior preocupação dos dirigentes ligados à seleção lusitana está mesmo na segurança da Eurocopa do ano que vem, na França. João Vieira Pinto, diretor de seleções nacionais, foi escalado pela Federação Portuguesa de Futebol para falar sobre o assunto. “Do ponto de vista sentimental, não ficamos indiferentes a este tipo de situações que vão acontecendo pelo mundo afora, também pelo fato de termos muitos portugueses em Paris e, naturalmente, porque no próximo ano estaremos na Eurocopa. Mas confiamos nas forças de segurança, são eventos que têm fortes medidas de segurança. Neste momento, temos de levar as coisas com o máximo de tranquilidade possível. Naturalmente, estamos atentos ao que vai se passando e, se sentirmos que temos de fazer alguma coisa, claro que vamos fazer”, disse.

Por causa da data Fifa, os clubes não tinham jogos programados para o final de semana. Via redes sociais, boa parte deles mostrou solidariedade às vítimas dos atentados. O Sporting homenageou seu torcedor morto publicando o link para a matéria no próprio site juntamente com o distintivo do clube em preto e branco. Benfica, Porto, Belenenses e Arouca foram outros que se manifestaram. Por sua vez, tanto a federação quanto a Liga Portuguesa de Futebol Profissional decretaram a realização de um minuto de silêncio em todos os jogos das competições que organizam, até o final do mês.

O torcedor morto certamente receberá novas homenagens do Sporting. Terá seu nome escrito num eventual memorial que possa ser criado às vítimas dos atentados. Não será esquecido. Mas Manuel nunca mais poderá ver o seu Sporting jogar. E o Sporting nunca mais poderá contar com a torcida, ainda que à distância, de Manuel. Gol da barbárie.