Portugal

Violência que assusta

Cena 1: Vitória de Guimarães B x Braga B, no estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães. É o dérbi do minho, dessa vez disputado pelo segundo time de cada um dos rivais, válido pela segunda divisão do Campeonato Português. Com seis minutos de jogo, uma grande briga começa nas arquibancadas, envolvendo os torcedores dos dois clubes. O árbitro Hugo Pacheco inicialmente paralisa a partida e, como o policiamento demora a chegar, resolve dar o jogo por encerrado. Dezenas de feridos são levados aos hospitais.

Cena 2: Após perder nos pênaltis a classificação para a final da Taça da Liga, o Benfica deixa a cidade de Braga em seu ônibus. Quando o veículo já estava a cerca de cinco quilômetros distante do estádio Axa, a delegação é surpreendida com uma chuva de pedras – algumas delas feitas de pedaços de concreto. Ninguém fica ferido, mas as fotos publicadas pelos jogadores nas redes sociais, que mostram os estragos no ônibus, dão a dimensão do perigo pelo qual passaram.

Os dois episódios, ocorridos em menos de uma semana, elevam o nível de preocupação com a segurança no futebol português. Embora não tenham necessariamente a ver um com o outro, ambos funcionam como um aviso de que, se providências muito sérias não forem tomadas, o risco é grande.

O primeiro caso tem cheiro de briga anunciada. Os torcedores do Braga teriam ido à casa do rival já com o intuito de provocar vandalismo. Eles reclamam que no encontro anterior entre os dois times, em Braga (este válido pela primeira divisão), os vimarenses teriam queimado cadeiras do estádio Axa. E foi justamente assim que deram o troco: queimando cadeiras e arremessando-as no gramado. Ofendida, a torcida local quis defender o patrimônio e a confusão se formou.

O detalhe é que não havia policiamento no estádio. Pela lei portuguesa, a polícia não precisa estar presente em todos os jogos, mas somente quando é acionada (e paga) e pelo time mandante. E aí começa uma outra briga, dessa vez nos bastidores.

Após o ocorrido, o Braga afirmou que havia alertado seu adversário, a própria polícia e até a Liga Portuguesa de Futebol sobre o risco da partida entre as equipes B. Tanto que pediu ao árbitro do jogo que constasse em súmula que a equipe entrava em campo sob protesto pela ausência do policiamento. Júlio Mendes, presidente do Vitória de Guimarães, rebateu dizendo que não são comuns os problemas no estádio e que a presença da polícia poderia, na visão dele, fazer até com que houvesse mais feridos.

A Comissão de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol puniu preventivamente o Vitória de Guimarães com dois jogos disputados com portões fechados. Pelo calendário, um deles seria inclusive do time principal. O clube, porém, conseguiu um efeito suspensivo e por enquanto a pena não está valendo. Também houve multas de € 10,2 mil (R$ 26,4 mil) ao Vitória e de € 3,7 mil (R$ 9,6 mil) ao Braga. E quando o caso for julgado, é grande a chance de o Braga ganhar os três pontos, já que o regulamento atribui culpa ao mandante sempre que não houver condições de segurança para a realização de uma partida.

Ônibus apedrejado

Se o ocorrido no estádio D. Afonso Henriques pode ser “justificado” pela rivalidade entre as torcidas, o vandalismo do qual o ônibus do Benfica foi vítima não tem qualquer explicação. Foi um puro ato de selvageria, que colocou em risco a vida de profissionais e que, se tivesse consequências mais graves, poderia prejudicar um time que briga pelo título do campeonato nacional e que está vivo na Liga Europa.

O brasileiro Luisão, capitão do Benfica, escreveu em sua conta do Twitter que o ato foi praticado por “covardes, vândalos e bandidos”. Avaliou também a situação como sendo “cada vez mais preocupante.”

Ele tem razão. A complexidade deste caso é maior que a do dérbi do minho. Além de ser mais difícil identificar os autores, não se sabe qual a real motivação deles para o ato. E abre um precedente perigoso, já que a partir de agora nenhuma delegação viajará com 100% de tranquilidade pelas ruas e estradas de Portugal.

Nesse sentido, a declaração do presidente do Braga, Antonio Salvador, foi exemplar. Além de chamar os vândalos de covardes, ele pediu que o caso seja desvendado e os autores punidos, pouco importando se porventura forem realmente torcedores do clube que dirige.

É aí que mora o grande desafio. Enquanto as pessoas que adicionam o medo às emoções do futebol não forem devidamente identificadas e punidas no campo jurídico, Portugal corre o risco de ver uma das melhores temporadas dos últimos tempos migrar das páginas esportivas para as policiais.

A consequência disso está bem resumida no desabafo que Hugo Pacheco, o árbitro que só pôde apitar seis minutos de Vitória de Guimarães B x Braga B fez em seu Facebook: “Quando uns tempos atrás me perguntaram se já  tinha levado o meu filho a assistir a um jogo de futebol, a minha resposta foi não, sob a justificativa de ele ter apenas dois anos e não lhe ser permitido a entrada em estádios. Hoje, afirmo categoricamente que se continuarmos a viver numa sociedade onde a segurança é um elemento facilmente descartável, é provável, que pelo menos nos próximos anos, o meu filho não entre em estádios de futebol.”

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