Portugal

Universidade canadense cria curso de sociologia para estudar Cristiano Ronaldo

São 9h30 da manhã de terça-feira no campus de Okanagan da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, quando 20 alunos – todos canadenses – entram numa sala de aula. Junto com eles, está o professor Luís Leonardo Marques Aguiar, um português que vive na América do Norte desde os 10 anos de idade. O tema da aula é “Origens sociais de Cristiano Ronaldo”. Nas semanas seguintes, os estudantes também vão aprender sobre “Midiatização de Ronaldo no mundo”, “Ronaldo e o seu portuguesismo”, “Ronaldo versus Messi e a mundialização do neoliberalismo” e “Ronaldo e a diáspora portuguesa”.

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Todas essas são disciplinas do curso de extensão universitária que Luís Aguiar montou e a Columbia Britânica concordou em oferecer. De janeiro a abril, sempre às terças-feiras pela manhã, duas dezenas de jovens canadenses aprendem mais sobre a vida do agora três vezes eleito melhor jogador de futebol do mundo. E eles próprios, estudantes e professor, entram para a história como protagonistas do primeiro curso universitário que tem CR7 como tema.

Luís Aguiar, 49 anos de idade, é sociólogo com mestrado e doutorado e especialista em sociologia do trabalho e sociologia de elites. Mas é, também, um grande fã de futebol e admirador daquele que rivaliza com Eusébio pelo posto de maior jogador da história de Portugal. Morando fora há tanto tempo, viu desde cedo o esporte como um elo com seu país.

A criação do curso na universidade é um grande exemplo de como os portugueses idolatram Cristiano Ronaldo. Um país com sérios problemas econômicos e que sabidamente possui uma seleção limitada, tem no craque do Real Madrid seu grande símbolo de “português que deu certo”. A capa do jornal Record no dia seguinte à eleição do melhor do mundo trouxe a manchete “É nossa!”, como se a conquista individual do atacante fosse também um troféu para todos os portugueses.

O próprio professor Luís deixa claro que a criação do curso foi inspirada na admiração por CR7. Ele cita o caso de seus três filhos, todos nascidos no Canadá, que veem o jogador como a ligação que possuem com o país de origem do pai. “Escolhi o Ronaldo porque sou português e tenho orgulho dele. Tem uma visibilidade enorme, é uma figura que não foi explorada sociologicamente”, afirma.

E é justamente essa exploração sociológica que torna o curso muito interessante. Pelas explicações de Luís Aguiar nas diversas entrevistas que concedeu à imprensa portuguesa nas últimas semanas, os feitos de CR7 no campo não são o principal objeto de estudo dentro da sala de aula. Claro que seus gols, títulos e recordes são importantes, mas a ideia é estudar o ser humano que tornou-se o melhor jogador do planeta. “O curso aborda pouco as qualidades futebolísticas, mas sim as suas qualidades sociais, o humanismo de Ronaldo”, conta o sociólogo, que quer entender “como se constrói uma lenda futebolística”.

No processo de preparação das aulas, Luís Aguiar resolveu que, além de estudar, iria pessoalmente à Ilha da Madeira, local onde viveu a criança Cristiano Ronaldo. A viagem aconteceu em dezembro do ano passado e coincidentemente terminou dias antes da inauguração da estátua em homenagem ao craque, que compareceu ao evento. Mas, se não pôde encontrar Cristiano Ronaldo pessoalmente, o professor colheu histórias e, sobretudo, a experiência de conhecer de perto a relação do povo com o menino que se tornou uma lenda.

Em sua viagem, o sociólogo constatou, por exemplo, que não há campos de futebol (ele, pelo menos, não encontrou nenhum) na montanhosa Freguesia de Santo Antônio, terra natal de Cristiano Ronaldo. Descobriu também que a casa onde ele nasceu já foi demolida e que a população, em sua maioria pobre, está mais preocupada em se fortalecer economicamente do que em exaltar os feitos do filho ilustre. Luís Aguiar também foi ao Museu CR7, onde estão os mais importantes troféus individuais ganhos pelo jogador, e notou o contraste entre a fachada simples e a riqueza em seu interior.

A viagem do professor à Madeira está descrita em três belos artigos que ele escreveu para o jornal LusoPresse e que podem – e valem a pena – ser lidos aqui, aqui e aqui.

Luís Aguiar é, como todo português, um grande fã de Cristiano Ronaldo. Também pode ser classificado de meio maluco, ao querer ensinar sobre a vida do jogador a jovens canadenses (não menos malucos). Ou um visionário, que enxergou antes de muita gente a necessidade de se estudar o homem que se transformou no mito.

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