Portugal

Tradição respeitada

Quando foi fundado, em 1939, o Estoril Praia (na época com o nome de Estoril Plage) queria distinguir-se dos demais clubes esportivos de Portugal por sua “linhagem social” – como explica o próprio site oficial da equipe. A ideia era ter uma entidade que representasse Estoril e região nas competições esportivas, mas que fosse diferente das demais, notadamente no aspecto financeiro das pessoas que a compunham.

Tal diferenciação começou pelo próprio fundador do Estoril, o empresário Fausto Cardoso de Figueiredo. Ele era proprietário de uma estrada de ferro (Lisboa-Cascais), de três hotéis e dos edifícios onde ficavam as Termas e o Cassino da cidade. Um sujeito influente, que não teve dificuldades em encontrar parceiros para colocar seu plano em ação.

Mais de sete décadas se passaram e hoje o Estoril segue a linha de se diferenciar dos seus rivais portugueses. Ficou para trás a elitização dos seus membros (algo que não faria sentido nos dias atuais), e entrou em campo algo que era completamente impensável em 1939: o capital brasileiro.

O Estoril é administrado pela Traffic, a empresa de marketing esportivo criada pelo ex-repórter esportivo J. Hawilla em 1980 e que hoje é uma das gigantes do ramo no mundo todo.

“Marketing esportivo”, nesse caso, é apenas uma expressão utilizada para simplificar a enorme gama de ações desenvolvidas pela Traffic, que vão desde o gerenciamento dos direitos de TV de campeonatos importantes (como Copa América, Copa do Brasil, Copa Libertadores, eliminatórias da Copa do Mundo, entre outros), até a administração de clubes, passando pelo gerenciamento da carreira de atletas e apoio financeiro na contratação de algumas das grandes estrelas que hoje habitam o futebol brasileiro.

A Traffic assumiu o controle do Estoril em 2010, quando comprou 74% do capital social do clube, na época por € 200 mil (R$ 541 mil na cotação atual). Mas os executivos da empresa estão no clube desde o ano anterior, quando uma parceria entre as partes permitiu que os brasileiros passassem a gerenciar o futebol dos canarinhos.

A presença da empresa tupiniquim fez bem ao clube, que estava em vias de extinguir o futebol profissional. Na temporada passada, o time conquistou o título da Segunda Liga e retornou à Primeira Divisão do futebol português. Agora entre os grandes, faz campanha sólida (está em sexto lugar) e dá pinta de que não passará pelo sufoco de brigar contra o rebaixamento.

Aprendendo com o passado

O Estoril não é o primeiro time administrado pela Traffic. A empresa também é dona do Desportivo Brasil, de Porto Feliz (SP) e do Fort Lauderdale Strikes, antigo Miami FC, dos Estados Unidos.

Os dois casos são bem distintos do que ocorre em Portugal. O Desportivo funciona na Academia Traffic, um centro de excelência para a revelação de jogadores que a empresa montou na cidade do interior paulista. O time disputa a quarta divisão do estadual e bateu na trave algumas vezes para subir. Também fez campanhas razoáveis na Copa São Paulo de Juniores.

Já a equipe norte-americana, também criada e administrada pela empresa, sucedeu ao clube que um dia teve Romário e Zinho vestindo sua camisa e atualmente joga a segunda divisão dos Estados Unidos. Nenhum dos dois times arrasta multidões de torcedores.

O caso do Estoril – que não foi fundado pela empresa – assemelha-se ao que ocorreu no Ituano, equipe da primeira divisão do Campeonato Paulista, que ficou nas mãos da Traffic por um ano e cinco meses, entre 2008 e 2009. E talvez tenha sido com os erros cometidos em Itu que os executivos aprenderam como lidar com um time que, se passa longe de estar entre os grandes, tem tradição e torcida.

Em Itu, a Traffic cometeu um festival de bobagens. A começar pela desfiguração do tradicional uniforme do clube (listrado em rubro-negro, como o do Flamengo, que foi transformado numa camisa inteiramente vermelha), passando pelo desrespeito ao torcedor. Os empresários mal apareciam no estádio e entrevistas eram raríssimas. Assim como era muito difícil saber coisas básicas, como o valor que seria cobrado pelo ingresso para determinada partida, por exemplo. E o pior: os elencos que foram montados não deixaram saudades alguma. Nas mãos da Traffic, o Ituano escapou do rebaixamento no Paulistão na última rodada e caiu da Série C para a Série D do Campeonato Brasileiro.

Em Estoril, porém, as coisas parece ser diferentes. O tradicional uniforme canarinho foi mantido (desde sua fundação, o clube adotou as cores amarela e azul, simbolizando o sol e o mar, respectivamente). A torcida é incentivada a ir aos jogos e houve um trabalho para resgatar a imagem do clube perante a pequena cidade de aproximadamente 26 mil habitantes. E o mais importante, é claro, foi a formação de times competitivos, capazes de dar alegria aos torcedores.

Os erros cometidos no passado parecem ter dado à Traffic a experiência necessária para ganhar a simpatia dos estorilenses. Afinal, não deve haver nenhum torcedor sequer no mundo todo que seja contra o seu clube ter dinheiro e profissionais capazes de montar bons elencos e brigar por vitórias. O que não se pode fazer é jogar no lixo a tradição de um clube de futebol e o valor de sua torcida. Quando ambas são respeitadas, como vêm sendo em Estoril, todo mundo ganha.

CURTAS

– Debandada geral no Sporting. O meio-campista Carriço deixou o clube para atuar no Reading, da Inglaterra. E seu companheiro Izmailov está muito próximo de trocar o time pelo rival Porto.

– Quem também está infeliz no clube leonino – e não faz a menor questão de esconder isso – é o brasileiro Elias. Ele revelou seu desejo de sair do clube numa entrevista ao jornal Lance e ainda publicou um link para a matéria em sua conta no Twitter.

– A Acadêmica, penúltima colocada do Campeonato Português, terá pelo menos dois desfalques importantes neste começo de ano. Nilvado e Halliche disputarão a Copa Africana de Nações por Cabo Verde e Argélia, respectivamente.

– A bola volta a rolar pelo campeonato nacional neste final de semana. Mas os torcedores aguardam ansiosamente o encontro entre Benfica e Porto, por enquanto marcado para o próximo dia 13, na Luz.

– Na Segunda Liga, o Belenenses segue nadando de braçada, nove pontos à frente do vice-líder Sporting B. Na última rodada a equipe bateu o Trofense por 2 a 0 em casa e, na próxima, sai para enfrentar o Freamunde.

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