Portugal

Sporting x Bruma: briga em que todo mundo perde

Armindo Tué Na Bangna é o nome do garoto que vem sendo o pivô da maior polêmica do futebol português na atualidade. Armindo é, também, o nome de batismo do atacante Bruma, de 18 anos, principal destaque da seleção portuguesa no recém-encerrado Campeonato Mundial Sub-20. Jogador do Sporting, ele é uma das maiores esperanças dos leões para dias melhores na temporada que está para começar. Ou não. E é este o motivo da polêmica.

Desde que Portugal foi eliminado do Mundial Sub-20, Bruma não mais se apresentou em Alvalade. Seus representantes – e ele próprio – alegam que o vínculo com o Sporting terminou. Nos bastidores, surgem notícias de que clubes rivais, como Porto e Benfica, estariam interessados no futebol do atacante. Por sua vez, os leões afirmam que o jogador tem mais uma temporada de contrato e que seu vínculo terminaria somente em junho de 2014.

O imbróglio judicial é grande. Em junho de 2010, quando tinha 16 anos de idade, Bruma assinou um contrato por três anos, que venceu em junho deste ano. Ocorre que durante esse período, mais precisamente em agosto de 2011, ele teria assinado um novo vínculo (em Portugal chamado de “contrato-promessa de trabalho” por mais uma temporada), o que o faria permanecer no Sporting até junho de 2014. Mas seus advogados alegam que a Fifa não permite que um jogador menor de 18 anos de idade seja contratado por mais de três anos (por esta versão, o clube teria garantido o vínculo de Bruma por quatro anos).

O clube de Alvalade, por sua vez, não enxerga as coisas desta maneira e – ao menos oficialmente – afirma que trabalha para que o jogador integre normalmente o elenco por mais um ano.

Este é o típico caso em que todos parecem ser culpados – a velha máxima de que “não há mocinho nesta história”. O jogador, por mais que tenha razão, poderia ter lidado com a situação de maneira diferente. Ele não compareceu a nenhum encontro com os dirigentes do Sporting e já fala como ex-jogador do clube. “Não me parece que seja possível (retornar a Alvalade). As coisas chegaram a um ponto sem retorno. Acho que já não há clima para isso”, afirmou o jovem ao jornal Correio da Manhã, numa das poucas entrevistas que deu desde que a polêmica teve início.

Da maneira que agiu – simplesmente desaparecendo –, Bruma corre o risco de, ao eventualmente ser obrigado a defender o time alviverde, estar em desgraça com a torcida. Ou mesmo de ser processado por abandono de trabalho (o que estranhamente ainda não aconteceu). Ou ainda, mesmo que vá para outro clube, ter contra si a fúria dos sportinguistas.

Por outro lado, o Sporting também acumula erros no caso. O principal deles é não ter tentado renovar o contrato de Bruma antes mesmo do Campeonato Mundial, esquecendo o tal “contrato-promessa de trabalho” assinado anteriormente. A informação que corre na imprensa portuguesa é de que o garoto recebia apenas € 1,9 mil euros de salário. Uma boa conversa pré-Mundial (quando ele ainda não havia ganhado tantos holofotes) e um substancial aumento salarial provavelmente resolveriam a situação sem maiores problemas.

Outro detalhe é que, apesar de ser um dos gigantes do futebol português, o Sporting parece esquecer o mau momento que está vivendo. Os leões carecem de ídolos e Bruma, embora ainda seja uma promessa, seria um forte candidato a preencher esta lacuna. Se a mesma situação estivesse acontecendo agora com Porto ou Benfica, certamente a repercussão seria bem menor. Nesses casos, Bruma seria apenas mais um bom jogador e não o potencial salvador da pátria para a próxima temporada.

No meio disso tudo, houve até uma suposta tentativa de rapto do atleta. Seu empresário, Cátio Baldé, afirmou que no dia 10 de julho membros da torcida Juventude Leonina teriam tentado raptar Bruma no hotel onde ele reside. “Isso é o resultado, provavelmente, da intransigência e da teiosia do Sporting”, acusou.

O litígio entre Bruma e Sporting deve ser resolvido pela Comissão Arbitral Paritária, órgão composto por representantes da Liga de Clubes e do Sindicato dos Jogadores. O atleta alega que quer sair porque seu contrato acabou. O Sporting, que diz não ter feito nada de errado, quer que ele integre o elenco por mais um ano ou pague a multa rescisória, estimada em € 30 milhões (valor estranho para alguém que ganha menos de € 2 mil por mês). O veredicto, do qual não caberá recurso, pode levar até um mês para sair e, enquanto isso, o jogador está impedido de atuar por qualquer equipe.

Nos últimos dias, notícias de bastidores deram conta de que as partes estariam tentando uma reaproximação. A iniciativa teria partido dos dirigentes do Sporting, que acharam de bom tom diminuir a tensão. A nova postura ainda não surtiu efeito prático e, por enquanto, a resolução do caso segue no âmbito judicial.

Armindo Tué Na Bangna nasceu em Guiné-Bissau e naturalizou-se português. O apelido de Bruma foi dado pelos seus pais e, na língua kriol (falada por 60% da população do país, que oficialmente adota o português), significa algo como “viajante ou alguém que muda constantemente de casa”. A julgar pelos últimos acontecimentos, o senhor e a senhora Na Bangna conhecem muito bem o filho.

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