Portugal

Presidente do Sporting agora é profissional e recebe salário

Imagine receber salário de € 5 mil (cerca de R$ 14,7 mil) mensais para ser presidente do seu clube. A situação, que parece impossível para os padrões brasileiros, tornou-se realidade no Sporting. É este o ordenado que o presidente Bruno de Carvalho passou a ganhar para gerir o clube que tenta voltar a ser, no mínimo, a terceira força do futebol português.

Pagar salários ao presidente não é grande novidade em Portugal, onde os clubes geralmente são administrados por uma Sociedade Anônima Desportiva (SAD). É dos cofres dessa empresa que sai o dinheiro. Ou seja: embora tenha sido eleito pelos sócios, o presidente funciona como uma espécie de alto executivo da SAD – e recebe para tanto.

Especificamente no Sporting, porém, o fato é sim uma novidade, já que Godinho Lopes, o presidente anterior, nada recebia. Ainda assim, não houve qualquer rejeição à proposta de pagar a Bruno de Carvalho. Ela foi aprovada por unanimidade pelos 348.693 acionistas da SAD que votaram a proposta e por 93% dos 346 sócios que compareceram à Assembleia Geral realizada no final do mês passado.

Além de Bruno de Carvalho, também passam a ser remunerados dois diretores do alto escalão leonino: Carlos Vieira e Guilherme Pinheiro, cada qual com € 3,5 mil (R$ 10,3 mil) mensais. Os valores são brutos, o que significa que na prática, depois de descontados os impostos, os dirigentes vão embolsar pouco mais da metade das quantias anunciadas.

Ao propor que o presidente receba um ordenado mensal, o Sporting vai muito além de querer dar uma vida melhor a Bruno de Carvalho. Afinal, ele é um bem-sucedido empresário do ramo da construção civil e, ao que parece, não precisa desesperadamente que os pouco mais de € 2,5 mil (R$ 7,3 mil) – já levando em consideração o valor líquido – caiam em sua conta todo mês.

Ocorre que, ao pagar, os leões estão dando um recado do tipo: “não diga que você não pode se dedicar prioritariamente ao clube”. O ordenado mensal é uma espécie de garantia que o presidente realmente coloque as tarefas relacionadas à sua gestão em primeiro plano. Tanto que, no comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários de Portugal, a SAD justifica o pagamento de salários devido à “especificidade e complexidade da própria atividade” do presidente e dos diretores.

Ainda assim, não deixa de ser curioso que o presidente do Sporting passe a receber para trabalhar justamente em um período de grave crise financeira do clube. Para se ter uma ideia, o relatório das contas relativas à temporada 2012/13 apontou prejuízo de € 43,8 milhões (R$ 129,4 milhões).

Menor que o padrão

O salário de Bruno de Carvalho é bem inferior ao que Pinto da Costa recebe no Porto. O portista ganha € 400 mil (R$ 1,1 milhão) fixos por ano, mais prêmios por resultados (sim, o presidente ganha bicho!). Na temporada 2011/12, por exemplo, ele faturou € 300 mil (R$ 886 mil) em prêmios. Outros administradores da SAD portista ganham € 240 mil (R$ 709 mil) fixos por ano, cada um.

No Benfica, não há salário para o presidente Luís Filipe Vieira. Mas os altos executivos faturam bem: em 2011/12, os valores variaram entre € 240 mil (R$ 709 mil) e € 306 mil (R$ 904 mil).

O próprio Sporting já tinha a cultura de pagar para seus dirigentes mais importantes, com exceção do presidente. O relatório da SAD referente a 2011/12 aponta que, enquanto Godinho Lopes nada recebeu, Nobre Guedes ganhou € 114 mil (R$ 336 mil) e Luís Duque, € 246 mil (R$ 727 mil).

Fechando a torneira

Um dos méritos da administração de Bruno de Carvalho – que tem pouco mais de seis meses no poder – tem sido enxugar as contas. Quando assumiu o cargo, ele pediu que a questão do próprio salário não fosse levada adiante enquanto as finanças não estivessem minimamente sanadas (embora, agora, vá receber de maneira retroativa pelos meses em que trabalhou “de graça”).

Durante a campanha, o então candidato também havia tocado no assunto, quando disse que caberia aos sócios resolver o valor do seu ordenado, caso eleito. “Temos de ver a realidade do país e as funções. Sou presidente do clube, não sou jogador. O primeiro-ministro ganha 6 mil euros. Os sócios vão decidir meu salário, normalizado com o que é a realidade de Portugal”, afirmou, à época.

Por isso, parece coerente a informação de bastidores que foi revelada por Jaime Marta Soares, presidente da Mesa Diretora da Assembleia Geral do Sporting. Ele contou que, juntamente com o presidente do Conselho Fiscal, Bacelar Gouveia, iria propor salário de € 10 mil (R$ 29,5 mil) ao presidente, mas foi demovido da ideia pelo próprio Bruno. “Ele pediu: por favor, não me façam isso. E justificou que o estado do país e do clube não permitem loucuras”, contou Jaime.

Bruno de Carvalho vai, aos poucos, fechando a torneira da gastança sportinguista. Numa entrevista recente, ele comentou que se surpreendeu ao descobrir que o clube pagava comissões para quase todos os tipos de negócios que fazia. “Se fazia compras, ainda pagava adicionalmente uma comissão. Se fazia vendas – e aí faz todo o sentido – pagava uma comissão. Muitas vezes, também poderia pagar uma comissão sobre os próprios ordenados”, disse.

Uma auditoria independente está trabalhando para averiguar as contas dos leões de 2 de junho de 1995 a 27 de março de 2013. O período compreende os mandatos de Pedro Santana Lopes, José Roquette, Dias da Cunha, Filipe Soares Franco, José Eduardo Bettencourt e Godinho Lopes. O relatório final será entregue daqui a 13 meses. “Vamos ver se fomos o clube mais azarado do mundo ou se houve realmente gestão danosa. Porque, para termos chegado onde chegamos, aconteceu alguma coisa”, justifica.

Ou seja: as finanças do Sporting ainda vão render muita discussão.

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